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"Fui mesmo embarretado" por falso especialista

por henrique pereira dos santos, em 11.06.18

O título deste post era o essencial de um título do Dinheiro Vivo de 24 de Dezembro de 2012, notícia que dava conta de um comunicado do Expresso que dizia "errámos ao dar como adquirido que a informação que nos estava a ser prestada era fidedigna e não carecia de confirmação".

Este erro, que aliás não teve qualquer consequência para os que o cometeram, que se mantiveram na direcção do Expresso (sempre que um jornalista me fala da responsabilização dos decisores políticos, costumo dar este exemplo para perguntar qual é a autoridade moral do jornalismo português para pedir responsabilidades a terceiros pelos seus erros), é um erro muito frequente no jornalismo português, seja a propósito de coisas mais sérias, como a verificação da origem dos meios de fortuna de responsáveis políticos que se acredita que herdam fortunas misteriosas sem que ninguém se lembre de verificar os factos, até fait-divers como ter uma noção mínima de quem, e como, paga as contas do que é oferecido a jornalistas influentes, haja ou não envolvimento emocional nesses presentes caídos do Céu.

Lembrei-me disto a propósito das duas páginas de publicidade gratuita que o Público resolveu dar ao livro do falso especialista João Camargo e dos 15 minutos de tempo de antena que a RTP2 resolveu dar ao mesmo falso especialista ontem.

João Camargo é um burlão um pouco menos sofisticado e divertido que Artur Baptista Silva, mas o nível de mistificação que usa para vender a sua banha da cobra é o mesmo.

Daí não vem mal ao mundo e quem dá o que tem, a mais não é obrigado.

O que interessa é tentar perceber por que razão, e como, um simples burlão (em matéria de produção de opinião florestal, que é o que aqui está em causa, o resto não faço ideia) tem tanto acesso e espaço num jornalismo que deveria fazer a mínima das mínimas verificação de factos.

1) "O carácter invasor do eucalipto é óbvio", afirmação verificável e pelo menos controversa (há um enorme acordo científico em não o considerar como invasor, há um ou outro investigador que estudaram pouco o assunto que foge a esse acordo e há dois out três estudos sobre o assunto que demonstram que a capacidade de expansão natural do eucalipto é bastante menor que a do pinheiro, por exemplo, portanto estamos conversados sobre esta frase que justifica uma série de disparates consequentes sobre a gestão do eucalipto);

2) "O eucalipto tornou-se maldito, principalmente para o interior do país", basta olhar para qualquer mapa de distribuição do eucalipto, ou dar uma volta de carro, ou ter um mínimo de informação sobre o país para saber que o eucalipto está essencialmente no litoral, com entradas no vale do Tejo e na parte mais ocidental dos xistos centrais, o google images chega para perceber que esta afirmação é simplesmente falsa;

3) "O interior que foi ficando mais pobre por uma cultura de abandono que permitiu ao eucalipto tornar-se a espécie dominante da nossa floresta". Não é preciso saber muito sobre o país para saber que a expansão mais rápida do eucalipto se dá entre 1980 e 2000, e que o abandono rural se dá a partir do fim dos anos 50, portanto a afirmação feita não tem qualquer aderência aos factos. Acresce que essa expansão se dá, em grande medida, por substituição de pinheiro por eucalipto, o que fez o pinheiro diminuir de um milhão e duzentos mil hectares de ocupação para os 700 mil actuais, ou seja, a "narrativa" não passa de conversa de jacaré para pato, não tem qualquer relação com os factos;

Como isto ainda é só nos três primeiros minutos da entrevista, que dura quinze minutos, será escusado estar a comentar cada uma das muitas alarvidades que facilmente se desmontam se não se cometer o erro de "dar como adquirido que a informação que nos estava a ser prestada era fidedigna e não carecia de confirmação".

O que é estranho é que João Camargo não é especialista de floresta, não tem nenhuma formação sobre o assunto, nunca trabalhou no assunto, facilmente se demonstra que o que diz não tem pés nem cabeça, existem dezenas de especialistas no assunto que não só não corroboram o que diz, como acham que o diz não é apenas o atrevimento da ignorância, é mesmo desonestidade pura e dura, e qualquer pessoa que tenha um mínimo de contacto com o sector sabe que é assim.

Mesmo assim os nossos jornalistas acham normal permitir-lhe as duas páginas de pura maledicência que o Público publicou (sem verificar que parte do texto é uma cópia não assinalada de outro livro) e os 15 minutos de tempo de antena em que João Camargo usa uma técnica habitual para, por antecipação, se defender do facto de toda a gente que estuda os assuntos sobre os quais perora dizer que só diz disparates, argumentado que a academia está toda capturado pela indústria de celulose.

Ora esta acusação, a ser verdadeira, deveria ser levada a sério pelos jornalistas e, consequentemente, os jornalistas que gostam de ser embarretados por João Camargo deveriam estar a investigar seriamente a acusação, responsabilizando os académicos que falseiam as suas investigações a favor da indústria.

Mas se for falsa, como é, é simplesmente uma canalhice infantil igual à do menino que apanhado a roubar bolachas acusa o irmão mais novo de lhas ter dado e, nesse caso, é uma canalhice pelas quais os jornalistas embarretados são co-responsáveis, ao emprestar-lhe a credibilidade dos seus jornais e televisões.



6 comentários

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De Anónimo a 11.06.2018 às 09:49

ninguém se digna ler o publicuzinho
ou ouvir a rtp2
deve ser descendente do que escreveu 'que Deus lhe pague' 
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De JP Ribeiro a 11.06.2018 às 14:55

A classe jornalistica é uma escumalha corporativa em que os poucos que são sérios, ignoram ou desculpam todos os outros pobres imbecis. E porque não conheço alguma excepção, tenho-os todos na mesma conta: lixo tóxico.
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De Anónimo a 11.06.2018 às 16:53

Excelente texto que desmonta com clareza a enorme quantidade de disparates
produzidos por este pseudo técnico florestal.
Há que exigir à TV pública que reponha e verdade, garantindo o contraditório e
libertando de acusações, nunca demonstradas, o corpo académico e científico. 
Também a industria da celulose merece um tratamento sério, e não , mais uma vez acusações espúrias desligadas em absoluto da realidade.
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De Anónimo a 11.06.2018 às 18:24

Escreva aqui o seu comentário...excelente intervenção para desmascarar este militante do BE, que é ou era vereador na Câmara Municipal da Amadora e que ,enquanto tal, pode dizer os disparates que entender. Está no seu direito. Não pode, não deve, transvestir-se de "especialista" para em nome de interesses que se desconhecem e não anuncia , expressar um inexplicável ódio à indústria papeleira e à fileira florestal que mais rendimento permite a milhares de produtores, é responsável por mais de 5% das exportações do país, tem a sua floresta com gestão certificada e põe Portugal no Mundo através de produtos de qualidade premium reconhecida em todo o mundo. Tem uma gestão sustentável , social , ambiental e económica ímpar no País. 
Infelizmente,  juntou-se agora neste livro a outro figurante que está permanentemente mal com a vida , contra a indústria e a produção florestal e que tem certamente um problema pessoal mal resolvido com a indústria.As afirmações que faz com frequência através da Acréscimo não abondam em favor de alguém que reclama ter formação superior em engª florestal
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De Anónimo a 11.06.2018 às 19:55

A principal fonte de fake news para o grande público são os media institucionais que destilam politicamente correcto ao sabor dos acordos e necessidades dos interessados. 
Sei que os jornalistas estão obrigados a verificar as fontes e a exactidão das informações que lhes chegam. Numa sociedade civilizada os que não respeitassem as regras iriam para o desemprego e seriam desprezados no seu meio de trabalho. Mas isso seria numa sociedade civilizada, onde as vacas não voam.
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De Tiro ao Alvo a 13.06.2018 às 12:10

P.f. veja o que escreveu o Vital Moreira, a propósito deste tema:
https://causa-nossa.blogspot.com/2018/06/portucaliptal-29-os-arquitetos-da.html

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