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Frustração profissional

por henrique pereira dos santos, em 20.08.23

A.S. O autor da fotografia comentou, depois de ler o post: "por acaso até foi o bombeiro que tirou a foto, mas foi o agrónomo que a publicou e o cidadão que quis que se aprendesse algo com a imagem. O apicultor também se preocupa com o assunto.
Há ainda uma pequena correção ao texto do caro amigo Henrique, os matagais presentes na Umbria abaixo dos "milagrosos" eucaliptos são dominados por ericaceas (urzes e medronheiros), tojos, madressilvas e carvalhos e sobreiros"

fogo e eucalipto.jpg

Esta é uma fotografia de João Duarte, bombeiro, após o recente fogo de São Teotónio e é na freguesia de Odeceixe.

O que se pode ver na fotografia interessou-me - e por isso pedi ao seu autor para a usar, quando ele próprio a publicou, com um comentário irónico sobre o eucalipto ser uma árvore incendiária - porque é visível na fotografia eucaliptal ardido, matos ardidos e uma zona de contacto entre área ardida e não ardida que coincide com povoamentos de eucalipto geridos, eventualmente pela Navigator (poderia confirmar, mas não vou perder tempo com isso porque é irrelevante para o argumento).

Tenho muito poucas dúvidas de que se houvesse eucaliptal nestas encostas, mesmo gerido, a probabilidade de ter ardido (com maior ou menor intensidade é outra discussão) era bastante maior que a do povoamento que vemos a ocupar o festo, portanto, com os eucaliptais ardidos que vemos na base e mesmo, ao fundo à esquerda, na encosta, e os eucaliptais não ardidos do festo, a primeira conclusão é a de que não é a árvore dominante que determina o comportamento do fogo, serem eucaliptos, pinheiros, sobreiros, outros carvalhos variados, era mais ou menos indiferente, desde que o modelo de gestão fosse o mesmo em cada sítio.

Não havendo troncos de árvores nas encostas, o mais natural é que o que lá estava antes do fogo (e vai estar depois da próxima Primavera), fossem matos, naquelas circunstâncias provavelmente estevais, mas não é muito relevante, era vegetação autóctone, que arde bem quando as condições meteorológicas são favoráveis.

Segunda conclusão, ser vegetação autóctone ou alóctone não aquece nem arrefece para a progressão do incêndio, nem mesmo para a definição das suas características (não percebo o suficiente do assunto, mas estando tudo calcinado, dá-me a impressão de que fogo subiu aquelas encostas progredindo com grande intensidade).

Ao que me dizem (e será fácil ir ao local verificar se é verdade ou não esta afirmação de um bombeiro), existem vários quilómetros da frente do incêndio que morre em eucaliptais geridos, sobretudo os mais jovens, o que é coerente com toda a investigação que existe sobre o assunto.

Toda a investigação? Não, infelizmente não, resistem umas pequenas bolsas, que para minha tristeza profissional têm o seu núcleo central em equipas de investigação de arquitectura paisagista, que dizem uma coisa diferente.

O principal artigo científico produzido por esta investigação é um artigo bastante frágil, assente em pressupostos mal ou não fundamentados, que já foram objecto de comentário sólido por parte de investigadores relacionados com a ecologia do fogo.

Daqui não viria mal ao mundo, é assim que se vai fazendo a ciência, progredindo a um "enterro de cada vez", como postula o princípio de Planck, ou seja, quando a minha geração morrer toda, as gerações mais novas já se terão habituado à ideia de que misturar a espécie dominante dos povoamentos florestais e fogos é uma asneira, e terá passado a ser comum centrar as discussões nos modelos de gestão de combustíveis finos como instrumento de gestão do fogo.

O problema é que estas ideias erradas, fortíssimas na minha profissão, têm influenciado políticas públicas pouco sensatas, de tal maneira que ainda recentemente o Senhor Ministro do Ambiente lá veio outra vez com a necessidade de aplicar o Programa de Transformação da Paisagem para se conseguir gerir o fogo e atingir os objectivos de descarbonificação do país.

E, com isso, vão-se perdendo oportunidades, vão-se gastando recursos e vai-se esgotando o tempo para fazer o que realmente interessa e tem efeito, que é o que a fotografia demonstra: gerir combustíveis finos.

O que se vê na fotografia é que as celuloses sabem que a gestão do fogo florestal é uma tarefa de gestão florestal, e não uma tarefa de socorro às populações, portanto gerem combustíveis finos e têm bombeiros profissionais que fazem prevenção no Inverno e combatem o fogo florestal no Verão, com ferramentas de cabo de pau e os pés assentes no chão.

Não o fazem por terem um grande amor à natureza ou às pessoas, fazem-no porque têm um grande amor ao dinheiro que está investido naqueles eucaliptos que não arderam, optando pelo modelo mais eficiente que conhecem (amanhã poderá ser outro) para gerir o fogo, avaliando sistematicamente resultados e adaptando o modelo ao que sai dessa avaliação, abandonando o que não funciona ou é ineficiente, e expandindo o que funciona ou é mais eficiente.

O que o país tem a aprender com as celuloses a partir desta fotografia não é a expandir o modelo de produção florestal das celuloses (eles próprios sabem que o seu modelo de exploração, por aquelas encostas abaixo, sem diversidade, sem descontinuidade, etc., é um modelo inviável), o que temos a aprender com eles é a definir objectivos, adoptar a melhor ciência disponível, alocar os recursos necessários, e não mais que esses, avaliar resultados e redefinir permanentemente o modelo de gestão em função do que resulta dessa avaliação.

Nas encostas ardidas desta fotografia eu não teria interesse nenhum em ter eucaliptos, mas teria todo o interesse em ter um programa de gestão de combustíveis finos, com fogo, talvez com gado, para diminuir a intensidade do fogo quando ele chegasse.

Curiosamente, os gestores dos eucaliptos que estão lá em cima também teriam interesse nisso.

E, no entanto, o país, a sociedade, é incapaz de juntar à volta do mesmo programa de gestão do território os diferentes agentes, com diferentes agendas, mesmo que estritamente para fazerem acções comuns em que todos têm vantagem, preferindo andar a inventar Programas de Transformação da Paisagem, feitos contra uns interessados (celuloses, produtores de pinho, etc.) e com a ausência de outros (os donos e gestores dessas encostas), apenas porque há um grupo ruidoso de académicos, ambientalistas e funcionários que jamais permitirão que as suas ideias sejam influenciadas pelos factos.


3 comentários

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De Tiro ao Alvo a 21.08.2023 às 08:49

Não entenda a falta de comentários a este seu postal como desinteresse pelo tema, mas antes que os seus leitores ou não têm argumentos para o contraditar, tal a clareza do seu texto, ou, então, que estão convencidos de que tudo sabem sobre fogos florestais, e há muita gente assim.

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De Anonimo a 22.08.2023 às 04:00

"ou, então, que estão convencidos de que tudo sabem sobre fogos florestais"



Ou o oposto
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De Tiro ao Alvo a 22.08.2023 às 12:03

Ou o oposto, claro.

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