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Foguetes para Matos Fernandes

por henrique pereira dos santos, em 25.09.20

Por razões profissionais assisti hoje a uma conferência que foi encerrada pelo Ministro do Ambiente, Matos Fernandes.

Repito uma declaração de interesses anterior: conheço Matos Fernandes há muito tempo, tratamo-nos por tu, nunca fomos amigos no sentido clássico do termo, isto é, todos os nossos contactos sempre foram profissionais. Digo alto e bom som, além de publicamente (depois de dizer ao próprio), que provavelmente discordo de 90% do que tem feito nas áreas que me interessam mais (gestão do território e da biodiversidade), não tanto nas intenções mas nas opções concretas de execução.

Isso não nos impede de manter relação cordial, tanto mais que, da minha parte, acho muita graça ao sentido de humor e capacidade de encaixe de Matos Fernandes.

Neste caso, ao contrário do costume, não falo de Matos Fernandes para criticar as suas opções mas por o ter ouvido dizer uma coisa que não esperaria ouvir tão cedo do responsável político pela gestão florestal do país: não queremos andar a financiar plantações sem gestão de longo prazo associada (não sei se as palavras foram exactamente estas, mas era esta a ideia) porque isso não faz sentido nenhum, do que precisamos é de mais gestão, e não de plantações sem gestão.

Há anos que repito esta ideia - que não é minha, note-se, por exemplo, José Miguel Cardoso Pereira tem várias vezes dito que o país não tem capacidade de gestão para a área de povoamentos que tem e melhor faria em gerir melhor menos área de povoamentos, usando os espaços abertos libertos para diminuir o risco de fogo dos povoamentos, ideia que materializou no estudo que coordenou para Álvares, apoiado, entre outros, pelo Observador - como se pode ver neste texto do Corta-fitas e, ainda mais atrás, em 2008, neste texto da Ambio.

São só dois exemplos, de certeza que se procurasse mais encontraria mais textos meus a falar deste desperdício que é andar a plantar árvores para as ver arder mais tarde.

O que é novo para mim é ouvir alguém com responsabilidades políticas dizer, de forma clara e inequívoca, que não pode ser, não podemos andar a financiar plantações sem futuro, temos é de financiar a forma como esse futuro pode ser mudado.

Não faço a mínima ideia se a esta declaração de intenções de Matos Fernandes corresponderá qualquer coisa de útil - grande parte das minhas críticas e divergências estão exactamente na forma como se materializam boas intenções - mas sei que a declaração, em si, representa uma mudança de ponto de vista.

E, do meu ponto de vista, mudar de ponto de vista é bom ponto de vista sobre as políticas públicas de gestão florestal do país.

Segunda declaração de interesses: actualmente trabalho exactamente na instituição governamental que tem a responsabilidade da gestão florestal



2 comentários

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De balio a 25.09.2020 às 16:15

O mesmo se pode dizer, não nas plantações de árvores, mas na construção de edifícios e estruturas. Em Portugal constroem-se muitos edifícios e estruturas sem se pensar em de onde virá o dinheiro para depois os manter a funcionar. Constroem-se piscinas, constroem-se museus, constroem-se autoestradas, constrói-se habitação social, etc etc etc, sem se pensar que depois vai ser difícil e muito caro gerir tudo isso, manter tudo isso a funcionar.
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De JPT a 25.09.2020 às 18:44

É só olhar para os bonecos do "Portugal - Luz e Sombra" (livro que comprei e li, por vir referido no "Portugal: Paisagem Rural") para ver que Portugal nem no tempo das descobertas teria tanta floresta, e tão cerrada, como aquela que tem agora. E, todavia, aposto que se fizermos um inquérito nas escolas e universidades, 99% dos inquiridos responderá que havia mais floresta, em Portugal, há 100 anos, do que há agora.

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