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Feios, porcos e maus

por henrique pereira dos santos, em 02.05.21

Resolvi escrever sobre os trabalhadores agrícolas sazonais, mas o título não lhes diz respeito, o título diz respeito aos seus patrões e, mais genericamente, aos que criam riqueza em Portugal e, mais concretamente, à percepção comum e na imprensa que existe sobre eles.

emprego.jpg

Usei este gráfico na minha tese sobre a evolução do mundo rural ao longo do século XX, e é um gráfico feito por João Luís César das Neves a partir de várias fontes (daí a sua linearidade inicial, proveniente de apenas uma fonte, e os solavancos na parte da direita, provenientes de várias fontes usadas por César das Neves para me fazer o gráfico).

O que me interessa aqui é chamar a atenção para o facto de mais de 50% da população viver do sector primário até aos anos 50 do século XX (penso que é Pedro Lains que chama a atenção para o facto de Portugal ter sido o último país da europa a entrar para o grupo dos países industrializados, isto é, o grupo de países em que o PIB industrial era maior que o PIB agrícola, estou a referir de memória portanto pode haver aqui alguma imprecisão, mas a ideia geral é esta) e no fim do século XX estar reduzida a 10% a população que vive do campo, estando hoje, provavelmente, em torno dos 5%, ou coisa do género.

Uma boa parte, e em especial a parte mais vocal que aparece na imprensa, dos 95% que não produzem o que comem, o que vestem, o papel onde escrevem, a resina das pastilhas elásticas, etc., acham que os 5% que produzem isso tudo para que esses 95% se possam dedicar a coisas superiores, evitando qualquer contacto próximo com o estrume de que todos nos alimentamos, são os responsáveis por tudo o que acontece no mundo rural, desde a proliferação dos eucaliptos, à concentração de nitratos, passando pelos fogos, pela destruição da biodiversidade e, a moda do momento, às más condições de trabalho dos trabalhadores agrícolas migrantes sazonais.

No fundo, partilham a ideia romântica de que os donos de empresas são pessoas que tomam decisões livres sobre a condução da sua empresa, pensando que onde plantam eucaliptos poderiam fazer cânhamo, se quisessem, que onde investem em olivais superintensivos poderiam manter olivais tradicionais por causa da Linaria ricardoii, se quisessem, e onde têm estufas e outras produções hortícolas intensivas deveriam antes manter charcos temporários mediterrânicos, para recreio e instrução do povo, se quisessem.

A verdade é um bocadinho mais crua: as donas de empresas não são mulheres livres, são escravas dos seus clientes.

E quando a sua área de negócio está no sector primário, para além de escravas dos seus clientes, são também escravas das condições edáfico-climáticas da terra que usam para alimentar, vestir, e etc., os tais 95% que não sabem que o verdadeiro cheiro da Primavera não é o cheiro das flores, é o cheiro do estrume espalhado nos campos.

Como ainda por cima as elites estão cada vez mais longe do campo - ao cntrário do que acontecia até meados do século XX, o melhor livro que conheço sobre o centeio em Portugal foi escrito pelo Presidente do Tribunal de Contas da altura, Salazar escreveu a sua tese de entrada na Universidade de Coimbra sobre trigo, a compilação "O problema das carnes" que junta discursos na Assembleia Nacional sobre produção e abastecimento de carne demonstra um elevadíssimo conhecimento sobre problemas reais relacionados com a produção de gado, etc. - todo o discurso público que existe sobre os problemas de gestão do mundo rural acaba a desconsiderar as dificuldades e a riqueza associada ao mundo rural.

Um dia destes um investigador - muito bom e sério investigador em matérias que se relacionam com as pessoas e as sociedades - falava de "escravatura light" a propósito das condições dos trabalhadores agrícolas sazonais no perímetro de rega do Mira e num comentário, uma economista e académica sólida em questões económicas, referia "Quase escravidão, exploração, baixa inovação tecnológica e pouca capacidade de exportar" a propósito de um sector que exporta 80% da sua produção, tem uma elevada incorporação tecnológica e de inovação e tem empresas da dimensão, por exemplo, da VitaCress, que até têm certificações sólidas e credíveis como OSHAS 18001 certification, exactamente no domínio social da sua força de trabalho.

Mas como estamos a falar dessa coisa que é transformar estrume em alfaces, o preconceito é de tal maneira forte, que nem pessoas com sólida formação estranham que uma VitaCress esteja disponível para pôr em causa mercados tão importantes e exigentes (social e ambientalmente) como são os do Reino Unido ou da Suécia, adoptando modelos de produção em que fosse possível demonstrar indícios sólidos de que os seus produtos provinham de trabalho quase escravo.

Aqui, como em Almeria, como no Reino Unido, há problemas sociais graves associados ao trabalho agrícola sazonal, mas é completamente absurdo pretender que isso decorre da vontade de empresários gananciosos (sim, os casos mais graves, incluindo os raros em que há de facto escravatura, têm essa origem) e não da vontade dos consumidores terem alimentos e fibras baratas, de modelos de regulamentação do trabalho excessivos que não têm em atenção a especificidade do trabalho agrícola sazonal - os sindicatos estão-se literalmente nas tintas para estes trabalhadores e há muito que se preocupam mais com o que chamam direitos dos trabalhadores que com os trabalhadores propriamente ditos, de tal forma que a secretária-geral da CGTP nunca trabalhou noutra coisa na vida que não em sindicatos - e de regimes fiscais absurdos, como o regime português em que entre impostos e TSU o Estado se apropria de mais de um terço do valor do trabalho, note-se que não se apropria só da mais valia, como diriam os marxistas, apropria-se mesmo do valor do trabalho.

Aqui, como noutros lados, os empresários do turismo do Sudoeste Alentejano nunca estiveram disponiveis para ceder 10% da sua capacidade de alojamento para que fosse possível a trabalhadores como este terem condições de alojamento melhores, nunca estiveram disponíveis para comprar terra onde gerissem charcos temporários que valorizem a paisagem, apesar da paisagem ser um dos maiores activos económicos do turismo. Mesmo em circunstâncias excepcionais como os fogos de 2017, os responsáveis do turismo do centro moveram mundos e fundos para garantir que parte dos dinheiros públicos para a recuperação da região fossem parar ao sector do turismo, em vez do sector do turismo assumir qualquer responsabilidade social na melhoria da gestão da paisagem (dispondo-se a repartir parte do seu rendimento pelos que pagam pela gestão de serviços de ecosssitema) que é, repito, um dos seus principais activos económicos.

Não, meus caros, escusam de, como sempre, atirar aos elos mais frágeis das cadeias de produção.

Os consumidores (como vimos, 95% dos quais não tem qualquer relação com a produção de alimentos e fibras que não seja como consumidor), o Estado, os sindicatos e a filantropia é que estão na base das condições sociais em que vivem os trabalhadores agrícolas do perímetro de rega do Mira.

Para além, claro está, das condições sociais de origem desses trabalhadores, que são francamente piores que as que eles procuram por aqui.

E, porque são fracos e não têm quem os defenda, por cima disto tudo, ainda os fazem (trabalhadores e empresários) ser as principais vítimas das medidas absurdas de gestão da pandemia.

E nós, olhem bem para nós, tão felizes que somos, não sendo responsáveis por nada disto e contribuindo activamente para melhorar o mundo chamando estes criadores de riqueza (trabalhadores e empresários) pelos nomes que verdadeiramente os definem: feios, porcos e maus.

Adenda, uso o estrume por eficácia retórica, pode substituí-lo pelos adubos de síntese e a percepção pública sobre a ideia de viver ao lado de fábricas de química pesada



14 comentários

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De Tiro ao Alvo a 02.05.2021 às 11:17

Desta feita leva a nota máxima: 20 valores.
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De Anónimo a 02.05.2021 às 11:48

Brilhante, para não variar! 
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De João Pedro da Costa a 02.05.2021 às 14:41

Adoraria ler mais textos sobre o tema da agricultura e do sector primário em geral. Não se importaria de me recomendar alguns portais na blogosfera ou na rede em geral? Se tivesse um blogue integralmente dedicado a este tema, seria um leitor atento. 
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De henrique pereira dos santos a 02.05.2021 às 21:02

O agroportal é um bom portal para quem queira ter informação sobre o mundo rural
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De Anónimo a 02.05.2021 às 15:14

Resta saber se os 95% das pessoas que refere, caso não se importassem de pagar mais pelos bens produzidos pelos semi-escravizados, se esse dinheiro serviria para melhorar salários e condições de vida ou se acabaria nos bolsos dos mesmos do costume.
Para além de não referir o óbvio. Num país com 500.000 desempregados é demasiado estúpido estar a importar mão de obra. Paguem-se ordenados decentes que resolvem de uma assentada vários problemas.
 
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De balio a 03.05.2021 às 09:52


Paguem-se ordenados decentes


Se se pagarem ordenados decentes, os produtos agrícolas tornam-se muito caros e incompetitivos.


Como o autor do post muito bem escreve, todos os produtos do setor primário, na maior parte do mundo, baseiam-se em odenados indecentes.
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De Anónimo a 02.05.2021 às 18:14

Dos cerca de 12 amigos da minha aldeia, filhos de rurais e agricultores pobres, apenas 3 ou 4 não foram estudar e empregaram-se na indústria ou profissões.
Pessoas que teriam hoje 115, 120 anos, tinham a consciência que o trabalho da TERRA era duro e pensavam em dar aos filhos melhores condições de vida.
A maioria vingou.
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De Zélia Parreira a 02.05.2021 às 20:06

Sim, somos todos coniventes (pelo menos).
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De jo a 02.05.2021 às 20:09

Estamos a falar de empresas de agricultura intensiva situadas num parque natural, que são lesivas para o ambiente. Também têm pactuado ou promovido situações ilegais de trabalho e de alojamento. Fazem-no porque se não fizerem assim não são competitivas. Agora, cereja em cima do bolo as más condições de trabalho e de alojamento estão a provocar problemas de saúde pública.


Não sou ingénuo, sei que se permitem estes problemas em prol de um bem maior para o país. Vejamos qual é esse bem maior:
Fornecerem produtos baratos não é, visto que os produtos são exportados, não são necessários no país onde são produzidos. Deixarem dinheiro na economia através dos impostos não é, são sobretudo empresas sedeadas noutros países que pagam os impostos diretos lá. Empregarem mão de obra, não deve ser porque as condições de trabalho são tão más que têm de importar trabalhadores do extremo oriente. Os salários também são tão baixos que os trabalhadores não podem gastar dinheiro na economia local.


Em suma, estamos a destruir a ecologia do sudoeste alentejano para termos algumas empresas manhosas de trabalho temporário e alguns senhorios a alugar cortiços com muito lucro. Não creio sinceramente que valha a pena tanto esquecimento das inspeções do trabalho e tanta entorse legal para construir mais estufas por km quadrado.


No lado bom os mirtilos são baratos.
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De balio a 03.05.2021 às 09:59


A minha hipótese é que a culpa deste problema é, como de costume em Portugal, da falta de capital.
Se houvesse capital, e havendo uma razoável oportunidade de negócio, uma pessoa que tivesse um pedaço de terreno urbanizável naquela região construiria nele umas casas para arrendar aos trabalhadores agrícolas.
O problema é que neste país não há ninguém que tenha capital para empatar em casas para arrendamento. A maior parte das pessoas não tem capital para edificar casas e só o faz se forem casas para vender e se conseguir vender metade das casas antes mesmo de elas estarem edificadas, para conseguir arranjar o capital para as edificar.
Todas as casas para arrendamento que há em Portugal não foram construídas (recentemente) para esse fim, trata-se sempre de casas que foram construídas para outro fim e que, por acasos do destino, quando já estavam mais que pagas acabaram por vir parar ao mercado de arrendamento.
Não há em Portugal capital para investir em casas para arrendamento, como havia há um século.
É este problema do capitalismo sem capital que faz com que em Portugal haja razoáveis oportunidades de negócio, como este do arrendamento de casas a imigrantes, que ficam por aproveitar.
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De balio a 03.05.2021 às 10:54


Eu uma coisa que questiono é se as condições de alojamento dos imigrantes em Odemira serão piores do que as condições de alojamento dos imigrantes em Lisboa, por exemplo.
É que, anda toda a gente a falar de Odemira, não seria interessante falar de Lisboa, que até fica mais perto de visitar?
Eu tenho a impressão de que muitos paquistaneses e bengalis que vivem em Lisboa habitam (e trabalham) em condições de sobrelotação e proximidade social que não devem andar longe das que se observam em Odemira.
Há uns tempos eu tinha uma casa para arrendar em Lisboa. Foram uns nepaleses visitá-la, queriam ficar com ela, disseram-me que seria para ser habitada por um total de oito pessoas em três famílias. Eu tenho a impressão de que muitos outros nepaleses habitarão em condições de ainda muito maior sobrelotação do que esses oito teriam ficado na minha casa.
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De Jo a 04.05.2021 às 18:05

O problema em Lisboa está mais que documentado. O ano passado deram-se vários surtos de Covid em pensões na freguesia de Arroios. Mas alguém anda a lucrar com esta situação 
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De balio a 03.05.2021 às 10:57


Há uns poucos anos uns operários da construção civil do Norte de Portugal vieram fazer umas obras na minha casa. Arranjaram dois quartos numa pensão barata perto. Dois num quarto e três no outro. Em minha casa, trabalhavam todos cinco numa salinha pequena.
Não é só na agricultura no sudoeste que há condições de alojamento sobrelotadas. Nem são somente imigrantes. Portugueses em Lisboa também habitam (e, ocasionalmente, trabalham) assim.

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