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Resolvi escrever sobre os trabalhadores agrícolas sazonais, mas o título não lhes diz respeito, o título diz respeito aos seus patrões e, mais genericamente, aos que criam riqueza em Portugal e, mais concretamente, à percepção comum e na imprensa que existe sobre eles.

Usei este gráfico na minha tese sobre a evolução do mundo rural ao longo do século XX, e é um gráfico feito por João Luís César das Neves a partir de várias fontes (daí a sua linearidade inicial, proveniente de apenas uma fonte, e os solavancos na parte da direita, provenientes de várias fontes usadas por César das Neves para me fazer o gráfico).
O que me interessa aqui é chamar a atenção para o facto de mais de 50% da população viver do sector primário até aos anos 50 do século XX (penso que é Pedro Lains que chama a atenção para o facto de Portugal ter sido o último país da europa a entrar para o grupo dos países industrializados, isto é, o grupo de países em que o PIB industrial era maior que o PIB agrícola, estou a referir de memória portanto pode haver aqui alguma imprecisão, mas a ideia geral é esta) e no fim do século XX estar reduzida a 10% a população que vive do campo, estando hoje, provavelmente, em torno dos 5%, ou coisa do género.
Uma boa parte, e em especial a parte mais vocal que aparece na imprensa, dos 95% que não produzem o que comem, o que vestem, o papel onde escrevem, a resina das pastilhas elásticas, etc., acham que os 5% que produzem isso tudo para que esses 95% se possam dedicar a coisas superiores, evitando qualquer contacto próximo com o estrume de que todos nos alimentamos, são os responsáveis por tudo o que acontece no mundo rural, desde a proliferação dos eucaliptos, à concentração de nitratos, passando pelos fogos, pela destruição da biodiversidade e, a moda do momento, às más condições de trabalho dos trabalhadores agrícolas migrantes sazonais.
No fundo, partilham a ideia romântica de que os donos de empresas são pessoas que tomam decisões livres sobre a condução da sua empresa, pensando que onde plantam eucaliptos poderiam fazer cânhamo, se quisessem, que onde investem em olivais superintensivos poderiam manter olivais tradicionais por causa da Linaria ricardoii, se quisessem, e onde têm estufas e outras produções hortícolas intensivas deveriam antes manter charcos temporários mediterrânicos, para recreio e instrução do povo, se quisessem.
A verdade é um bocadinho mais crua: as donas de empresas não são mulheres livres, são escravas dos seus clientes.
E quando a sua área de negócio está no sector primário, para além de escravas dos seus clientes, são também escravas das condições edáfico-climáticas da terra que usam para alimentar, vestir, e etc., os tais 95% que não sabem que o verdadeiro cheiro da Primavera não é o cheiro das flores, é o cheiro do estrume espalhado nos campos.
Como ainda por cima as elites estão cada vez mais longe do campo - ao cntrário do que acontecia até meados do século XX, o melhor livro que conheço sobre o centeio em Portugal foi escrito pelo Presidente do Tribunal de Contas da altura, Salazar escreveu a sua tese de entrada na Universidade de Coimbra sobre trigo, a compilação "O problema das carnes" que junta discursos na Assembleia Nacional sobre produção e abastecimento de carne demonstra um elevadíssimo conhecimento sobre problemas reais relacionados com a produção de gado, etc. - todo o discurso público que existe sobre os problemas de gestão do mundo rural acaba a desconsiderar as dificuldades e a riqueza associada ao mundo rural.
Um dia destes um investigador - muito bom e sério investigador em matérias que se relacionam com as pessoas e as sociedades - falava de "escravatura light" a propósito das condições dos trabalhadores agrícolas sazonais no perímetro de rega do Mira e num comentário, uma economista e académica sólida em questões económicas, referia "Quase escravidão, exploração, baixa inovação tecnológica e pouca capacidade de exportar" a propósito de um sector que exporta 80% da sua produção, tem uma elevada incorporação tecnológica e de inovação e tem empresas da dimensão, por exemplo, da VitaCress, que até têm certificações sólidas e credíveis como OSHAS 18001 certification, exactamente no domínio social da sua força de trabalho.
Mas como estamos a falar dessa coisa que é transformar estrume em alfaces, o preconceito é de tal maneira forte, que nem pessoas com sólida formação estranham que uma VitaCress esteja disponível para pôr em causa mercados tão importantes e exigentes (social e ambientalmente) como são os do Reino Unido ou da Suécia, adoptando modelos de produção em que fosse possível demonstrar indícios sólidos de que os seus produtos provinham de trabalho quase escravo.
Aqui, como em Almeria, como no Reino Unido, há problemas sociais graves associados ao trabalho agrícola sazonal, mas é completamente absurdo pretender que isso decorre da vontade de empresários gananciosos (sim, os casos mais graves, incluindo os raros em que há de facto escravatura, têm essa origem) e não da vontade dos consumidores terem alimentos e fibras baratas, de modelos de regulamentação do trabalho excessivos que não têm em atenção a especificidade do trabalho agrícola sazonal - os sindicatos estão-se literalmente nas tintas para estes trabalhadores e há muito que se preocupam mais com o que chamam direitos dos trabalhadores que com os trabalhadores propriamente ditos, de tal forma que a secretária-geral da CGTP nunca trabalhou noutra coisa na vida que não em sindicatos - e de regimes fiscais absurdos, como o regime português em que entre impostos e TSU o Estado se apropria de mais de um terço do valor do trabalho, note-se que não se apropria só da mais valia, como diriam os marxistas, apropria-se mesmo do valor do trabalho.
Aqui, como noutros lados, os empresários do turismo do Sudoeste Alentejano nunca estiveram disponiveis para ceder 10% da sua capacidade de alojamento para que fosse possível a trabalhadores como este terem condições de alojamento melhores, nunca estiveram disponíveis para comprar terra onde gerissem charcos temporários que valorizem a paisagem, apesar da paisagem ser um dos maiores activos económicos do turismo. Mesmo em circunstâncias excepcionais como os fogos de 2017, os responsáveis do turismo do centro moveram mundos e fundos para garantir que parte dos dinheiros públicos para a recuperação da região fossem parar ao sector do turismo, em vez do sector do turismo assumir qualquer responsabilidade social na melhoria da gestão da paisagem (dispondo-se a repartir parte do seu rendimento pelos que pagam pela gestão de serviços de ecosssitema) que é, repito, um dos seus principais activos económicos.
Não, meus caros, escusam de, como sempre, atirar aos elos mais frágeis das cadeias de produção.
Os consumidores (como vimos, 95% dos quais não tem qualquer relação com a produção de alimentos e fibras que não seja como consumidor), o Estado, os sindicatos e a filantropia é que estão na base das condições sociais em que vivem os trabalhadores agrícolas do perímetro de rega do Mira.
Para além, claro está, das condições sociais de origem desses trabalhadores, que são francamente piores que as que eles procuram por aqui.
E, porque são fracos e não têm quem os defenda, por cima disto tudo, ainda os fazem (trabalhadores e empresários) ser as principais vítimas das medidas absurdas de gestão da pandemia.
E nós, olhem bem para nós, tão felizes que somos, não sendo responsáveis por nada disto e contribuindo activamente para melhorar o mundo chamando estes criadores de riqueza (trabalhadores e empresários) pelos nomes que verdadeiramente os definem: feios, porcos e maus.
Adenda, uso o estrume por eficácia retórica, pode substituí-lo pelos adubos de síntese e a percepção pública sobre a ideia de viver ao lado de fábricas de química pesada
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