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"Uma das medidas que gostaríamos de ver reduzidas em grande parte é a frequência de ignições neste território ... temos já alguns indicadores a nível local que nos permitem afirmar com alguma segurança que estamos a fazer as coisas bem. Uma das propriedades que nós comprámos há cerca de três anos, tinha até à data, nos últimos vinte anos, uma frequência de fogo que consumia toda a propriedade e o seus entorno a uma média de 2,7 anos, e desde que começámos a colaborar com alguns vizinhos, tanto na gestão de combustíveis com grandes herbívoros, como na vigilância ... com equipas de detecção e ataque rápido e um conjunto muito alargado de voluntários e embaixadores nas comunidades que nos permitem ter uma rede muito extensa de vigilância, não houve um incêndio desde então, o que quer dizer que pelo menos já superámos aquela frequência ... quer dizer que ... há soluções, até para problemas tão complexos como é o caso da frequência e intensidade do fogo nesses territórios rurais."
Pedro Prata, Rewilding Portugal, por volta da uma hora e cinco minutos neste programa da rádio Observador sobre o regresso do lobo.
Quando ouvi isto, comecei a procurar mais informação e a razão é simples: uma frequência de fogo de 2,5 anos é o mínimo em Portugal, evidentemente em áreas de fogo pastoril, mas dificilmente ocorre em grandes áreas.
No vale do Côa há alguns "hotspots" de fogo, dizem-me, com retornos à volta de 3,5, podendo haver pequenas áreas, localmente, com retornos menores.
A diferença entre 2,7 ou 3,5 anos de retorno do fogo parece pequena, mas é muito grande, é a diferença entre arder frequentemente com intervalos de dois anos ou arder com intervalor de três anos, o que está relacionado com a velocidade a que crescem as plantas e se acumulam combustíveis, sendo quase impossível, sobretudo em grandes extensões, que existam combustíveis acumulados disponíveis que permitam a progressão do fogo, ao fim de dois anos.
Por isso as pessoas com quem falei sobre esta taxa de retorno são bastante peremptórias a afirmar que é possível, mas em pequenos retalhos. Por exemplo: "em solo provavelmente rochoso onde cresce pouco mais que Agrostis e Festucas - prados secos que o fogo basicamente só chamusca as folhas exteriores, e logo que chova aquilo fica igual... coisa pequenina... Talvez nem 1 hectare".

Este boneco permite verificar que a informação objectiva é que na área em causa, o ponto com menor retorno do fogo é no outro lado do rio Côa, a propriedade em causa estará do lado esquerdo do rio, na imagem e, nesse ponto, o retorno anda perto dos cinco anos.
Vamos admitir, que há uma confusão entre a taxa de afectação da propriedade por ignições (há ignições na propriedade de dois em dois anos, ou de três em três anos) e a frequência com que arde totalmente a propriedade, tanto mais que é certo que o último fogo foi em 2017, um grande fogo de oito mil hectares que varreu toda a propriedade, porque esta discussão não é o mais relevante.
O mais relevante é a ideia de que reduzir ignições é uma questão fundamental para a gestão do fogo, e que esse será um caminho para se atingir um padrão de fogo natural, no pressuposto de que os grandes herbívoros, em densidade conveniente, fazem a gestão de combustíveis.
Repor padrão de fogo natural - com pressupostos não demonstrados de que as ignições naturais ocorrem sobretudo com as trovoadas, e portanto o fogo natural não ocorrerá no Verão - é pois a estratégia da Rewilding Portugal, sendo a supressão do fogo, através da supressão das ignições, o modelo de gestão da transição escolhido, tanto quanto percebo, em paralelo com o aumento da densidade de grandes herbívoros.
Quando se faz notar que referir ao mesmo tempo a redução de frequência e intensidade dos fogos é um contrassenso, de acordo com os ecólogos do fogo, a resposta é sobretudo ideológica: são ecólogos fascinados com o fogo, não são ecólogos do fogo, o que parece indiciar uma recusa da informação científica que se conhece, quando choca com os nossos preconceitos.
Pessoalmente tenho muitas dúvidas sobre estas opções, em grande medida porque se está a trabalhar em função de um modelo idealizado de natureza, esquecendo componentes importantes - por exemplo, mesmo que se introduzam herbívoros numa determinada localização, não vejo como se possa refazer o sistema de migrações de grandes grupos de herbívoros, que existia no passado, fundamental para garantir maiores densidades por períodos anuais menores e mais intermitentes - e não a partir de questões concretas de gestão do que existe.
Do ponto de vista colectivo, a minha opinião é completamente irrelevante, o que é relevante é haver vários grupos de pessoas a testar modelos de gestão diferentes, partindo de pressupostos diferentes, uns com mais fé no génio humano que permite usar o conhecimento para apoiar os processos naturais, outros com mais fé na força da natureza e nas vantagens de prescindir dos erros do génio humano nas opções de gestão.
Daqui a trinta, quarenta anos, estaremos em muito melhores condições que hoje para fazer opções de gestão da paisagem e do património natural, porque os diferentes modelos nos permitirão (aos que cá andarem, não aos que cá andam hoje) compreender melhor os resultados reais das nossas fantasias quando aplicadas ao concreto.
A diferença que vai da utilidade colectiva do que estas pessoas fazem, cometendo erros, sujeitando-se ao escrutínio, para a utilidade do que fazem as Gretas e Camargos deste mundo, é abissal.
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