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Experiência piloto sobre uma proposta de Miguel Poiares Maduro

por henrique pereira dos santos, em 30.07.19

Um destes dias, Miguel Poiares Maduro defendia a ideia de que os jornais deveriam ter editores para os textos de opinião, isto é, alguém que lendo um texto de opinião se encarregava de verificar a fundamentação das afirmações factuais.

Acho a ideia boa, mas tem o problema de deitar para o lixo grande parte dos textos de opinião, deixando os jornais sem opinião para publicar.

Exemplifiquemos com um texto ao acaso: "Pirómanos de fósforo na mão" do especialista em fogos Francisco Louçã.

"pode ser que só dentro de alguns anos uma pista fortuita nos permita conhecer com exatidão como começaram estes incêndios"

Facto: a investigação das causas de fogos é de muito boa qualidade e, em especial para os grandes fogos, é feita quase sistematicamente produzindo resultados em muito pouco tempo.

"num dos meses de julho mais frescos e até chuvosos de que nos lembramos"

Facto: Este mês de Julho até pode ter sido dos mais frescos e chuvosos de que nos lembramos (saberemos isso dentro de dias quando o IPMA fizer essa análise), mas isso não diz nada sobre o facto de alguns dos dias desse mês terem sido muito secos e com vento, as condições em que os fogos se desenvolvem facilmente.

"As populações a denunciarem fogo posto."

Facto: todos os estudos feitos sobre o assunto, quer em Portugal, quer em Espanha (na realidade, noutros países também) demonstram que a percepção do público sobre a origem dos fogos é substancialmente diferente dos resultados da investigaçao objectiva sobre a origem dos fogos, sendo o fogo posto tipicamente muito mais considerado na percepção pública que o que na realidade resulta da investigação objectiva.

"Os eucaliptocratas exigem helicópteros e aviões."

Facto: a menos que por eucaliptocratas se entenda os bombeiros, a protecção civil e as populações que, esses sim, exigem sempre mais helicópteros e aviões, a verdade é que os maiores produtores comerciais de eucalipto, que são a própria indústria, são os únicos que têm uma corporação de bombeiros florestais profissionais, pagas por si próprios, que têm 95% das suas intervenções fora das suas propriedades (não por altruísmo, com certeza, mas porque é a maneira mais eficaz de defenderem o seu património). E o que exigem, sempre, é gestão florestal e combate ao abandono, nunca os ouvi reclamar mais meios de combate.

"A floresta está tão abandonada, tão combustível e tão condenada como sempre esteve"

Facto: tem havido uma evolução, perfeitamente documentada, no sentido de um abandono crescente, ou seja, não é verdade que sempre tenha estado assim, o abandono tem crescido. Este aspecto é ainda ampliado pelos grandes fogos, responsáveis por homogeneizar a vegetação, potenciando os efeitos do abandono na disponilidade, continuidade e homogeneidade dos combustíveis.

"No fundo, todos sabemos que nada se modificará enquanto houver eucaliptos a mais"

Facto: foi recentemente publicado um estudo que avalia de forma abrangente a eventual relação entre a expansão do eucalipto e a evolução dos incêndios, sendo a conclusão diametralmente oposta à que Francisco Louçã escreve no seu artigo: não há relação relevante entre a expansão de eucalipto e a evolução dos fogos em Portugal.

"Como é que autarcas, que sabem que as populações denunciam as ações de quadrilhas de incendiários, não exigem resultados das perícias policiais, investigação cuidada das ignições e ação musculada contra o delito?"

Facto: existem anos de investigação da Policia Judicária e muita informação pública sobre o perfil dos incendiários e sobre o seu papel nos incêndios em Portugal. O que essa investigação demonstra é que não faz o menor sentido pretender que o problema dos fogos está nos incendiários, e que embora exista uma investigação cuidada e uma acção musculada sobre o assunto, a verdade é que isso é marginal para a gestão do problema.

"Como não sou o único a notar que há concelhos que parecem estar marcados para a repetição dos fogos, creio que a resposta é óbvia."

Saltemos por cima do facto do óbvio ser uma coisa muito subjectiva (por exemplo, para mim a única coisa óbvia é a ignorância sobre o assunto de quem escreve um texto como este) e fiquemos pelo facto menos óbvio, mas muitíssimo bem estudado e documentado, de que os dois factores que explicam a frequência e distribuição do fogo em Portugal são a meteorologia (esmagadoramente, penso que com qualquer coisa como 80%) e o tempo decorrido desde o último fogo. Na verdade os concelhos do centro, sem gente nem gestão, ardem menos vezes que os concelhos do distrito do Porto e Braga, o que têm é incêndios muito maiores, quando ocorrem (Mação tinha ardido em 2003 e 2005, voltou a arder em 2017 e 2019, agora irá voltar a arder lá para 2030/ 2035, mais ano menos ano).

Ou seja, embora a ideia de Poiares Maduro seja boa, percebe-se por que razão os jornais não a adoptam: ficavam sem estes comentadores que tanto os entusiasmam (note-se que a questão é geral, usei um exemplo, mas se pegasse em qualquer texto de Miguel Sousa Tavares sobre eucaliptos e o expurgasse das asneiras comprovadas pela investigação sobre o assunto, não havia texto para publicar nessa semana).

E, na verdade, as teorias de conspiração e o pensamento mágico - jornais continuam a publicar horóscopos, que admito que tenha sido a secção a que este texto estava destinado - vendem muito mais que o pensamento racional, de base científica, de maneira geral uma coisa bem menos excitante.



6 comentários

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De Anónimo a 30.07.2019 às 23:25

Excelente e divertido.
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De Manuel Rosas a 31.07.2019 às 00:49

Tem toda a razão no que diz. Calados eram uns poetas (o Louçã, o Tavares e quejandos).
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De Anónimo a 31.07.2019 às 10:21

Os políticos e a demagogia. Os factos não interessam para nada. 

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De Luís Lavoura a 31.07.2019 às 12:30

A maioria dos artigos de opinião nos jornais são escritos por avençados, os quais são pagos para (ou pelo menos têm a obrigação de) fornecer artigos de opinião com determinado tamanho com uma determinada regularidade. É claro que este arranjo seria sabotado se o jornal tivesse o direito de, volta e meia, recusar o artigo de opinião recebido; nenhum escriba aceitaria um contrato em que, volta e meia, depois de ter estado a puxar pela cabeça para produzir uma opinião qualquer, visse essa opinião recusada e fosse forçado a ter que produzir outra. É claro também que opiniões produzidas desta forma - à pressão, por obrigação - nem sempre sairão muito perfeitas, muito pensadas, nem muito adequadas aos factos.
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De Anónimo a 31.07.2019 às 23:59

Parabéns pelo magnifico texto.FL e MST escrevem semanalmente sobreo que nã conehceme com um prisma estupidamente ideológico.GSB
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De Anónimo a 05.08.2019 às 13:41


Muito Bom!
Explícito e bem justificado.
Cumprimento-o
ao

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