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Eucaliptocratas, diz ele

por henrique pereira dos santos, em 24.06.17

Normalmente não perco grande tempo com o que escreve Francisco Louçã, mas nestes dias tenho-me cruzado com uma ou outra coisa que escreve sobre fogos, como aconteceu hoje como texto que está no Público onde usa o neologismo que eu trouxe para o título do post.

Resolvi pois fazer um post sobre a profunda ignorância em que assentam discursos como este que, se fossem apenas de Louçã, não traziam mal ao mundo.

Infelizmente, por razões históricas e sociais, a diabolização do eucalipto tem fundas raízes sociais, acabando por influenciar o desenho de políticas públicas de uma forma completamente irracional.

Ouçamos pois os intocáveis (na intensa cobertura noticiosa, quantas vezes foram ouvidos bombeiros da Afocelca, operacionais das celuloses, responsáveis pela gestão do eucalipto, responsáveis por agrupamentos de produtores, como a Unimadeiras ou a Abastena, grupos de certificação florestal das associações de produtores?), através de uma mistura entre comentários informais do meu amigo Henk Feith, penso que director florestal da Altri Florestal (uma das duas celuloses que existem no país), que assinalarei entre aspas, e comentários meus, sem aspas. Mesmo tendo havido situações em que o meu português já foi corrigido, e bem, pelo Henk, num ou noutro pormenor pode haver um certo desvio do padrão da língua, dado que a língua materna do Henk é o neerlandês (holandês para os amigos, mas não para os próprios falantes da língua).

"se tirarmos os eucaliptos da paisagem portuguesa, também tiramos a única corporação profissional de bombeiros florestais do país da equação. Sabiam que 95% das intervenções de combate a incêndios da corporação Afocelca são fora do património das empresas de celulose. Já imaginaram as estatísticas dos incêndios em Portugal sem Afocelca? Estive estes dias no incêndio de Gois. Os únicos bombeiros que eu vi combater os fogos na floresta foram os Espanhois,que estiveram connosco a combater. Os colegas Portugueses estavam todos juntos às casas à espera do fogo lá chegar. É assim que está definida na estratégia da ANPC. Eu não discordo das prioridades estabelecidas, discordo com a estratégia para as concretizar. Para defender as casas, é preciso combater o fogo na floresta, e não ficar á espera dele junto das aldeias."

"Estivemos trÊs dias a combater e o dano (em propriedades da Altir, entenda-se) ficou limitado a 14 hectares numa propriedade de 600, dos quais 200 de pinheiro bravo e 400 de eucalipto (Propriedade Vale Lapão, por sul do parque eólico). Mas o que travou o incêndio foram as plantações de eucalipto, porque quando o incêndio la bateu em força vindo do sul, rapidamente abrandou e foi controlado por nós. Estivemos três dias a combater o incêndio fora da propriedade, sem apoio de ninguém a não ser os Espanhóis na segunda feira, em áreas abandonadas, com eucaliptos e pinheiros. Quando chegou à área devidamente gerida (por nós), o assunto ficou resolvido em poucas horas. E sim, passámos lá mais 24 horas para controlar reacendimentos, algo que também mais ninguém faz. E sim, meus colaboradores tiveram lá 36 horas seguidas a combater, a defender a sua casa, sem olhar para cansaço nem família. Porque eles sim acreditam na floresta Portuguesa e estão dispostos para a defender contra tudo e todos. Como era costume no mundo rural há décadas"

"Para nós, uma taxa de incêndio de 0,5% é aceitável em termos de gestão empresarial (é um KPI clássico). Acima disto, o dano por incêndio começa a constituir-se uma ameaça à sustentabilidade da nossa atividade empresarial. Ficámos acima deste valor em 2003, 2005, 2016 e 2017 (já). Mas em média estamos abaixo deste valor. Bem abaixo (0,3%). Estou convencido se a floresta que nos vizinha fosse gerida como a nossa, ficávamos facilmente abaixo dos 0,1%. Extrapola isto para o panorama nacional..."

"em 2017 estamos já acima dos 0,5%. Em Figueiró e Penela fomos fortemente atingidos. Estive lá. Foi impossível de travar devido à falta de gestão de grande parte da área que ardeu. Curiosamente, uma plantação nossa de 2015, Feteira, passou intocado enquanto tudo em redor ardeu. Em breve voupublicar no YouTube um vídeo sobre o efeito benéfico das plantações recentes nos incêndios, com um exemplo correto de um incêndo em 2016 em Castelo Branco"

Por umas contas que fiz aqui em cima do joelho, se a média nacional de área ardida ficasse pelos 100 mil hectares previstos (e não fica), a taxa de incêndio que teríamos no país, para comparar com os 0,3% desta empresa de celulose, seria um pouco mais de 1,5% se contarmos os matos, e entre os 3 e os 3,5% se contarmos só os povoamentos. Fiquemos pelos 1% (se é verdade que o que interessa é a área total de povoamentos, também é verdade que tipicamente mais de 50% da área ardida são matos) para comparar com os 0,3% e concluímos que o Senhor Louçã, do fundo do seu sofá, responsabiliza pelos fogos em Portugal os que ele chama de eucaliptocratas, isto é, as pessoas que conseguem ter uma taxa de incêndio de 0,3% para comparar com o que nós, como sociedade, temos para apresentar em termos nacionais, 1% (contas muito por baixo).

"eu defendo uma visão de "créditos de biodiversidade", em que as espécies produtivas como eucalipto, pinheiro bravo, pinheiro manso e sobreiro suportam a gestão das espécie "não-comerciais". Um pouco como o mercado de carbono, mas para floresta nativa. Uma fábrica que emite CO2 tem de comprar créditos de carbono; uma floresta comercial pode ter de comprar créditos de floresta de conservação. Quem planta 10 ha de floresta de produção tem de ter ou financiar 1 ha de floresta de conservação. Assim, o investimento florestar impulsiona a conservação da floresta. Em vez de proibir, promove-se o equilíbrio."

Ou seja, o eucaliptocrata que anda há três dias a bater com os costados no meio do fogo (não, não é na estrada, à volta das aldeias, é mesmo lá, nos sítios em que sabem que há oportunidades criadas pela gestão para parar o fogo), afinal defende uma solução de onerando a exploração permite financiar a conservação, mas o senhor Louçã, do fundo do seu sofá, acha que o mais eficaz é proibir a actividade económica que permite a libertação de recursos para a gestão, entregar mais não sei quantos milhares de hectares ao abandono que potenciam a dimensão social catastrófica dos fogos, liquidar a mais eficiente e a única estrutura profissional de bombeiros florestais e diminuir o rendimento de 400 mil pequenos proprietários.

Eucaliptocratas, diz o senhor Louçã. Obrigado Henk, obrigado Tiago Oliveira, e muitos outros, direi eu.

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7 comentários

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De Fernanda de Oliveira a 03.07.2017 às 20:24



O autor procede aqui à negação do problema do eucalipto. Isso não resolve o problema dos incêndios nem evita o sofrimento brutal e a morte que eles impõem. De igual modo, faz o elogio da indústria da celulose no combate aos incêndios. Esse louvor também nada resolve. Todos sabemos que a indústria cuida bem dos seus eucaliptais, eles são a sua galinha dos ovos de ouro. O que não retira a essas celuloses uma grande quota parte de responsabilidades nos incêndios. Porquê? Sabemos que a Altri e a Navigator não se fornecem só nos seus eucaliptais mas também nos eucaliptais de 400 mil pequenos proprietários, a maioria deles sem certificação florestal. São esses eucaliptos que são problemáticos. Resumindo: SIM, o problema está no eucalipto, mesmo que não seja o dos eucaliptais das celuloses.

Dizer que "se tirarmos os eucaliptos da paisagem portuguesa” deixa de haver “a única corporação profissional de bombeiros florestais do país” não faz sentido. Com efeito, é a presença do eucalipto que causa a necessidade dessa corporação. A corporação não seria necessária se não tivessemos eucalipto. Por outro lado, se “95% das intervenções de combate a incêndios dessa corporação são fora do património das empresas de celulose”, nem por isso deixam de o fazer para proteger apenas aquilo que é seu. Sabemos que a Altri não é a Santa Casa. Sim, tem toda a razão, sem essa corporação arderiam muitos mais eucaliptais. Arderiam os da Altri.

</a></a> Também eu discordo da estratégia da Proteção Civil, ANPC, porque a única forma de proteger vidas, casas e florestas está na prevenção para a qual é imprescindível o fim dos eucaliptais caóticos, os tais de uma imensidão de pequenos proprietários, dos quais a Altri e a Navigator se alimentam.

Conhecendo as características de combustão da espécie é desonestidade intelectual pretender que o eucalipto “trava” incêndios, conforme afirma. Sabemos que o eucalipto é uma piroárvore: é conhecido o alcance das suas projecções e o comportamento dos seus óleos essenciais em incêndios. A explosão dos seus troncos é de tal ordem que os populares que o presenciaram no incêndio de Pedrógão Grande julgaram estar perante um“mini tornado” de chamas que rodopiavam incendiando tudo e propagando o incêndio de forma vertiginosa. Nós queimamos lenha nas suas lareiras e vemos que o eucalipto e o carvalho ardem de forma diferente. A lenha de carvalho (qualquer quercus) faz brasa sem sequer fazer chama. Compare-se com o eucalipto.

Põe o dedo na ferida quando argumenta que “se a floresta que nos vizinha fosse gerida como a nossa, ficávamos facilmente abaixo dos 0,1%". Repito: sabemos que não são os eucaliptos da Altri e da Navigator que ardem. Não são esses mas são outros. São eucaliptos (que engordam as celuloses). Portanto, na minha opinião, as celuloses são, com certeza, co-responsáveis pelo que acontece nos fogos florestais: sofrimento irreparável, morte de pessoas, crime contra o ambiente e contra o património. A Altri tem um problema grave: não assumir as suas responsabilidades. É bom que trate desse problema.

Finalmente, relativamente ao eucalipto, a afirmação "o efeito benéfico das plantações recentes nos incêndios" é falaciosa. Justo seria dizer que plantações responsáveis minimizam a possibilidade de ocorrência de incêndios incontroláveis.

Se a Altri não quer a diabolização do eucalipto, encare o problema de frente. Diga a verdade sobre essa árvore. Assuma que o eucalipto é uma árvore problemática em caso de incêndio. Não nos atirem areia para os olhos.



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De henrique pereira dos santos a 04.07.2017 às 09:40


A área de eucaliptal representa 13% da área ardida.
A área agrícola representa 14% da área ardida.
O que sugiro, admitindo que a sua lógica faz sentido, é que se acabe com a agricultura porque sempre se actua sobre 14% da área ardida, em vez de 13%.
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De Renato a 04.07.2017 às 12:20

Não entendi esses números. Na floresta, os eucaliptais representam apenas 13% da área ardida? E o que entende aí por "área agricola"? pode fazer um link para esse estudo?
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De Anónimo a 04.07.2017 às 17:19

Eu já cheguei a fazer inventários florestais tanto para o grupo da altri,portucel,soporcel e inventario nacional.o problema não são as empresas.é a forma como o particular gere a sua floresta PK metem compaços apertados.quando na realidade eles os compactos tem k respeitar as suas medidas.
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De Renato a 04.07.2017 às 23:16

Ah, pois é, amigo, isso e outras coisas. A plantação de eucalipto em Portugal é uma comédia trágica que impressiona qualquer silvicultor estrangeiro que nos visita, quanto mais um investigador. Mas pronto, não se pode dizer mal da plantação do eucalpito, que isso é diabolizá-lo, coitado, e ele fica traumatizado. E prejudica a liberdade de plantação do eucalipto, claro. Mas não se preocupe que o eucalipto é mais resistente ao fogo do que a teca, a gente é que semos todos burros.
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De Renato a 05.07.2017 às 12:51

Ó, mas eu não me referia ao senhor Engenheiro Paulo Fernandes e a mais meia dúzia criteriosamente seleccionada, obviamente.

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