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Eu não entendo

por henrique pereira dos santos, em 18.11.21

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A coisa que mais me faz confusão, desde o início da pandemia, é a demisão voluntária dos jornalistas.

Para gerir uma epidemia, qualquer epidemia, uma das questões fundamentais é avaliar o grau de ameaça que a epidemia representa.

Isto é válido para as nossas epidemias, mas claro que é válido também para as epidemias relacionadas com a produção pecuária, com a conservação da natureza - sim, gerir a conservação do lince significa compreender as epidemias regulares das populações de coelho, por exemplo - e, já agora, embora não lhes chamemos epidemias mas pragas, para as que afectam as culturas de plantas.

Por isso, para mim, seria evidente o interesse dos jornalistas em saber quem é mais afectado pela doença e quem morre da doença, para termos uma ideia de grupos de risco e grau de ameaça para a sociedade, no momento em que for preciso tomar decisões sobre a gestão da epidemia.

De entre as informações mais úteis para caracterizar a mortalidade e, consequentemente, o grau de ameaça, estão três informações, das quais apenas uma é de fácil acesso, embora muitas vezes mesmo essa seja omitida.

A primeira, mais fácil, razoavelmente conhecida, é a da idade das pessoas que morrem. É completamente diferente ter uma doença que afecta sobretudo os mais velhos, como a covid, que mata sobretudo os mais velhos, mas também os muito novos, como a gripe ou que mata os mais velhos, os mais novos e, estranhamente, os jovens adultos, como era o caso da gripe espanhola.

A segunda, praticamente impossível de obter em Portugal de forma fácil, é a distinção entre morte por covid e morte com covid. A distinção nem sempre é fácil e, muitas vezes, vários factores concorrem para a morte, podendo a covid ser o empurrão final de uma situação que é, em si, de extrema fragilidade. Neil Ferguson falava, desde o início da epidemia, em metade a dois terços de mortes de pessoas que, em qualquer caso, dada a sua condição de saúde, morreriam no prazo de um ano, mas a produção e divulgação de informação sobre este aspecto, pelo menos em Portugal, é praticamente nula, não havendo distinção entre mortes com covid e mortes por covid.

A terceira, directamente relacionada com a anterior, e por isso já referida acima, é a da condição de saúde dos que são registados como mortos covid. Conheço várias pessoas com idades acima dos 90 anos que tiveram covid e não tiveram problemas de maior com a doença, sendo absolutamente inqualificável a forma como se apresenta a covid em idades elevadas como uma quase sentença de morte. Sem entrar em linha de conta com a condição prévia dos infectados, ainda antes das vacinas, a verdade é que a mortalidade em lares com elevadas incidências dificilmente subia acima dos 10% a 15%, ou seja, sete a nove em cada dez infectados, internados em lares, o grupo mais susceptível e de maior risco, não morriam da doença, mas evidentemente eram levadom a passar umas semanas aterrorizados pela ideia de que a covid em idades elevadas é quase uma sentença de morte. Ora a informação sobre este assunto, que é fulcral para definir o grau de ameaça que a doença representa para a sociedade, não existe e, estranhamente nunca é exigida pelo jornalismo.

Eu não entendo, mas não entendo mesmo, o que nos conduziu a este jornalismo de derrotados, a esta demissão do jornalismo informativo em benefício do jornalismo de emoções, mas talvez seja apenas mais um sintoma de sociedades de abundância, em que há muito conforto a perder se quisermos arrsicar qulquer coisa na vida.



25 comentários

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De balio a 18.11.2021 às 09:27


Eu não entendo, mas não entendo mesmo, o que nos conduziu a este jornalismo de derrotados


Possivelmente terá sido o facto de os jornalistas terem sempre em mente que estão muito perto da derrota, tal é a situação de insolvabilidade financeira e de precariedade profissional em que muitos jornais e jornalistas (sobre)vivem.
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De balio a 18.11.2021 às 09:32


A segunda [informação], praticamente impossível de obter em Portugal de forma fácil, é a distinção entre morte por covid e morte com covid.


Eu creio que esta informação é difícil de obter não somente em Portugal mas também noutros países, e não somente com covid mas também com outros vírus e bactérias.


Determinar exatamente a causa da morte de uma pessoa idosa é muito difícil e, em última análise, pouco útil (porque, já tendo morrido, nada os poderá ressuscitar).



Os meus três familiares próximos que já morreram, para todos eles, eu só tenho uma ideia pálida daquilo que, exatamente, os matou.


A maior parte das pessoas idosas morrem, em última análise, de velhice.
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De Carlos Sousa a 18.11.2021 às 11:39

Neste momento em Portugal o jornalismo está reduzido ao jornalixo, mas infelizmente não é só cá, é no mundo inteiro.
Não se compreende que a Áustria e a Alemanha façam uma perseguição criminosa aos não vacinados, como fizeram com os judeus na segunda guerra mundial, e não haja um único jornalista que denuncie esta barbárie. 
Com tanto organismo, com tanta ONG, onde é que estão os direitos humanos afinal?
O que é que está por detrás desta paranóia mundial?
Será que estão à espera de uma guerra civil a nível mundial?
Pôr novos contra velhos, vacinados contra não vacinados, trabalho contra teletrabalho. Qual será o objectivo destas clivagens?
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De balio a 18.11.2021 às 17:23


Não se compreende que a Áustria e a Alemanha façam uma perseguição criminosa aos não vacinados


Não os perseguem. Simplesmente, limitam-lhes a liberdade mais do que aos restantes cidadãos.


Cá em Portugal já se fez a mesma coisa, por exemplo quando se impôs "cercas sanitárias" a Ovar, à região de Lisboa, a Rabo de Peixe e a outros sítios.


E na Áustria parece que a coisa não é assim tão má, os não-vacinados podem continuar a ir trabalhar ou a ir ao supermercado. Não podem ir ao restaurante ou ao cinema, mas isso não é assim tão grave. Em Portugal já estivemos bem pior.
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De Fernando Costa a 18.11.2021 às 17:55

Esta é uma pergunta que eu também gostava de ter resposta. Na europa não há um único país com bom senso na gestão da pandemia, todos sem exceção seguiram o caminho de restrições e passes covid. Não acredito em teorias da conspiração, mas começa a ser cada vez mais difícil não acreditar!
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De lucklucky a 19.11.2021 às 17:55

A Suécia é okay. Depois temos Leste.
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De Anónimo a 18.11.2021 às 12:42

Exacto. Como bem equaciona não temos jornalismo informação. Temos "jornalismo" propaganda.
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De lucklucky a 18.11.2021 às 16:43

"A coisa que mais me faz confusão, desde o início da pandemia, é a demisão voluntária dos jornalistas."



Eu não. 
Primeiro é preciso perceber que quase ninguém  vai para jornalismo para o fazer . A maioria dos jornalistas são na verdade padres da única religião que resta no Ocidente: 
A Política. O acreditar na Política como o caminho da salvação.


Assim vão para levar a palavra dos Socialismos ao povo pois o Socialismo tem o âmbito totalitário das religiões mesmo que estas deixem uma parte aos deuses, é sempre o todo do mundo e o todo das pessoas o seu âmbito. Logo tudo o que reforce o poder do Estado tem o benefício dos jornalistas desde que no contexto da Esquerda esta tenha o poder estrutural na sociedade. Se não tiver esse poder estrutural os  jornalistas regressam rápido ao é "proibido proibir..."
São hoje os jornalistas que constroem a moral da sociedade, logo não é de admirar que atraia quem queira fazer proselitismo, educar o povo com a sua moral. 
O telejornais ou as "news" são a missa onde se diz quais são os pecados e as boas acções. A SIC, a TVI, RTP, etc. as igrejas... 
Lá fora é o mesmo. Pois a facilidade de comunicação facilita a cópia.

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De balio a 18.11.2021 às 17:25


Há que compreender que a pandemia é ótima para os jornalistas. Dá-lhes um tema que lhes permite encher múltiplos telejornais.
Hoje ao almoço a televisão estava ligada na Correio da Manhã TV. Basicamente, toda a duração do almoço foi ocupada com a pandemia. 45 minutos nonstop a falar da pandemia. É ótimo ter uma coisa assim!
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De Anónimo a 18.11.2021 às 18:42

Boa tarde HPS
Com a respectiva vénia, assino por baixo.
Salvo melhor opinião, um dos problemas mais graves da nossa democracia, que nunca será saudável, madura, sem OCS livres, independentes, que pesquisem, que informem com rigor e factualmente e que tenham também áreas de opinião própria.
É evidente para muitos que deveria haver interesse nos jornalistas em saber quem é mais afectado pela doença e quem morre da doença. Mas, como abordado em alguns comentários, a realidade da esmagadora maioria dos OCS acarreta uma dependência terrível, e são poucos os que não se dobram.
António Cabral
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De lucklucky a 19.11.2021 às 17:59

"Mas, como abordado em alguns comentários, a realidade da esmagadora maioria dos OCS acarreta uma dependência terrível, e são poucos os que não se dobram."



Continuo a não perceber como se pode escreve esta frase, como se para se ser jornalista não fosse já necessário ser polítizado. 
Os OGS nascem para fazer política não nascem para informar.
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De Carlos a 18.11.2021 às 19:13

Tem toda a razão. Eu, quando os pivôs das tv estão a dar notícias do número de mortos e dizem que foram vítimas do covid, desligo-lhe logo o som ou mudo de canal. Podiam dizer simplesmente que essas pessoas morreram com covid, mas, como militantes do terror que são, atiram sem dó: vítimas do covid.  

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De Anónimo a 18.11.2021 às 19:54

«A coisa que mais me faz confusão, desde o início da pandemia, é a demisão voluntária dos jornalistas.»


Não é demissão, é comissão. Comissionados pelos Poderes que lhes pagam para espalhar a pandemia do medo.
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De Susana V a 18.11.2021 às 23:36

E a quarta pergunta é: quantos dos cerca de 10000 infectados diariamente ficaram realmente doentes? Ou seja quantos dos novos infectados são apenas testes positivos? 
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De Manuel da Rocha a 19.11.2021 às 15:20

O que significa "ficar doente"? Uma dor de cabeça? Uma dor nos rins? 
Nos assintomáticos, é 100% certo que tem algum sintoma, pode ser uma ligeira dor de cabeça, temperatura corporal elevar-se um pouco gerando suor, dores musculares ligeiras... 
Os "verdadeiramente doentes", são os internados. Os piores são os que precisam de cuidados intensivos. 
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De lucklucky a 19.11.2021 às 18:00

"Nos assintomáticos, é 100% certo que tem algum sintoma"



Sabe que assintomáticos quer dizer que não há sintomas?

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