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Estado de sítio (18)

por João Távora, em 10.04.20

escola_mascaras.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 15.472 casos, 435 vítimas mortais

Cá por casa a vida segue as suas rotinas, um pouco claustrofóbicas convenhamos. Esta manhã fui fazer a minha corrida higiénica com o meu filhote pequeno (tem treze anos e algum buço), que a custo consegui arrancar da sua cama modorrenta. Talvez porque estivesse uma manhã radiosa, mas também porque as pessoas têm de encontrar equilíbrios para suportar o confinamento, cruzámo-nos com bastantes pessoas e famílias que esticavam as pernas pelas ruas habitualmente desertas do interior de São Pedro do Estoril. Estou em crer que para o miúdo teria sido bastante mais estimulante fazer uma corrida com os seus colegas de escola, mas quem não tem cão caça com gato. E ele daqui a uns anos vai gostar de recordar estas cumplicidades forçadas. Na terça-feira o colégio dele dá início a aulas virtuais com horários estabelecidos, coisa que ajudará a imprimir alguma ordem na gestão dos seus estudos. (O retorno da Telescola a ser transmitida pela RTP Memória é uma parábola impagável sobre o nosso atraso de vida).
A propósito da "equilibrada" decisão do governo quanto à reabertura das escolas em Maio: quantas semanas mais aguentarão as famílias, muitas delas mal estruturadas, com crianças e adolescentes encafuados em apartamentos 24 sobre 24 horas?
Ontem fui a Cascais tratar de assuntos inadiáveis e ao abrir a caixa do correio do meu escritório fui surpreendido ao encontrar lá um livro que me fora prometido em tempos por um bom amigo, um reaccionário à moda antiga: “A Marcha de Radetzki” de Joseph Roth. Um raio de luz que entrou no meu confinamento.   
A propósito de raios de luz, ontem o dia também ficou marcado pelo facto da ministra Graça Fonseca à conta da indignação geral ter cancelado um sinistro banquete, desculpem, “concerto” de uns quantos “artistas” amigos que se preparavam para se lambuzar com um milhão de euros do erário público. A oligarquia não vai roubar para a estrada porque está habituada a fazê-lo do sofá, mas desta vez não deu. Nem tudo são desgraças.
De resto os telejornais continuam locais de má frequência. Esperar pelo Paulo Portas ou por uma pergunta inteligente do Miguel Sousa Tavares é penitência injustificada mesmo na Semana Santa: insistem apresentar os números da epidemia nos diferentes países (com diferentes perfis demográficos e socioeconómicos, já para não falar do clima) como se a coisa se tratasse de um campeonato de futebol em que impera uma justiça poética dependente das virtudes dos artistas. Uma coisa parece-me evidente: em termos de seriedade e isenção o jornalismo português de massas é clubista e luta para não descer de divisão.

O mais importante é que hoje é Sexta-feira Santa em que os cristãos relembram com penitência e sobriedade o brutal tormento infligido a Jesus Cristo na sua morte redentora. Dia de recolhimento e oração para os crentes que preparam a Páscoa do Senhor. A esse respeito relembro uma freira cujo testemunho ouvi em tempos acidentalmente na telefonia, que tendo oferecido a sua vida a cuidar de raparigas com doenças mentais profundas, lembrava como a doença, o sofrimento e a morte se tornaram assuntos tabu que a nossa cultura do prazer efémero erradicou do nosso olhar numa inebriante alienação de nós próprios. A negação da nossa precária condição humana, noção essencial à inquietação existencial e procura de Deus. O pior é que, com a recusa de enfrentar a dor e a morte olhos nos olhos, de reprimir essa angústia saudável, somos levados a banalizar o Dom da vida, milagre extraordinário que deve ser sempre celebrado em grande júbilo, como os católicos não deixarão de fazer no próximo Domingo de Páscoa, da ressurreição de Jesus.

PS.: Magnífica a Via Sacra transmitida da Praça de S. Pedro e presidida pelo Papa com realização, cenarização e fotografia excepcionais, que não desmereceram as 14 meditações sobre a temática dos condenados e das prisões, da culpa da dor e da perdão. 



1 comentário

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De Anónimo a 10.04.2020 às 20:09


João Távora,
Muito bem
Abraço
ao

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