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Est modus in rebus

por henrique pereira dos santos, em 06.03.21

A ideia de que não queremos uma quarta vaga está na base de se manterem as escolas fechadas na actual fase da epidemia.

Comecemos por clarificar uma questão.

É possível haver um agravamento da situação até meio de Maio de modo a voltarmos a ter Janeiro em Abril?

Sim, é possível.

É provável?

Não, nada provável.

É sobre a dimensão dessa probabilidade que me proponho escrever.

Em primeiro lugar convém lembrarmo-nos de que a utilidade dos modelos é directamente dependente da qualidade das escolhas que os modeladores fazem e da qualidade dos dados que são usados na modelação e o que tem sido claro é que os modelos nos quais nos temos baseado para tomar decisões não têm demonstrado grande utilidade, de tal maneira a realidade nega as projecções feitas.

Convém ter uma enorme cautela no uso que fazemos deles de tal maneira as métricas em que se baseiam são complexas e falíveis.

Por exemplo, o famoso R, que serve para medir em que medida os casos dão origem a novos casos, precisa de informação sobre a duração da infecciosidade depois de contágio, a probabilidade de uma pessoa infectada contagiar uma terceira e a densidade de contactos.

Se o primeiro critério está razoavelmente estabelecido, os outros dois são muito mais difíceis de estabelecer, sobretudo porque o que é preciso não é informação sobre os contactos em geral, mas sobre os contactos que realmente dão origem a contágios, sobre os quais sabemos relativamente pouco.

Sabemos que cruzarmo-nos da rua com outra pessoa, que acontece frequentemente, tem uma baixíssima probabilidade de dar origem a um contágio. Pelo contrário, estar mais de quinze minutos, num local fechado e mal arejado, a menos de dois metros de outra pessoa, é bastante menos frequente e reduz muito o número de pessoas com que o infectado contacta mas, por outro lado, tem uma probabilidade muito mais alta de gerar um contágio.

Não sabemos muito mais que isso, portanto é natural que os modelos, que consideram contactos gerais e não contactos efectivos, gerem resultados sem qualquer aderência à realidade, sobrevalorizando a importância de evitar todos os contactos e desvalorizando a importância de evitar contactos de elevado potencial para gerarem contágios.

Por isso talvez seja bom concentrarmo-nos nos três factores clássicos da epidemiologia para tentar avaliar o risco de nos deixarmos de confinamentos e, sobretudo, de confinamentos cegos, de elevado custo certo e vantagens incertas, como instrumento para evitar putativas quartas vagas: agente, hospedeiro e condições ambientais.

E por que as condições ambientais têm sido sistematicamente relegadas para um cantinho qualquer, gostaria de lembrar as diferenças entre Janeiro e Fevereiro, tal como descritas pelo IPMA:

"O mês de janeiro, em Portugal continental, classificou-se como muito frio e seco/ O mês de fevereiro, em Portugal continental, classificou-se como muito quente e muito chuvoso.

As três primeiras semanas de janeiro foram extremamente frias com valores da temperatura máxima e mínima do ar muito inferiores ao valor da normal climatológica 1971-2000.
Este episódio de tempo frio foi caraterizado:
• pelo carácter prolongado (mais de 3 semanas);
• pela persistência de vários dias consecutivos com temperaturas negativas (+ de 10 dias consecutivos em 1/3 das estações) em particular nas regiões do interior norte e centro;
• pelo desconforto térmico associado às baixas temperaturas (nalguns dias potenciado pela intensidade do vento);
• pela abrangência territorial,
Todos estes aspetos tiveram importância nos possíveis impactos que terá tido na população, em particular na saúde.

De destacar ao longo do mês [de Fevereiro] os valores diários da temperatura mínima do ar sempre acima do valor médio mensal, exceto nos dias 7 e 22. Nos dias 1, 2 e 11 de fevereiro os valores foram muito superiores à normal (> +5 °C).
Em relação à temperatura máxima do ar verificou-se alguma variabilidade durante o mês, sendo de realçar 2 períodos: 4 a 9 de fevereiro com valores diários sempre inferiores à normal mensal, seguido por um período com valores consecutivamente acima do valor médio (11 a 19).
O valor médio da quantidade de precipitação em fevereiro, 158.7 mm, corresponde a 159 % do valor normal 1971-2000 (100.1 mm)".

Fixemos então a ideia de forte contraste entre as condições ambientais de Janeiro e Fevereiro (a que se junta o crescimento progressivo do foto-período a partir de 21 de Dezembro, claro), que quem nos pastoreia, de maneira geral, ignora.

E ignora por duas razões principais: porque a complexidade que este factor introduz nos modelos assusta os modeladores, e porque quando algum responsável resolve chamar a atenção para isto, como fez Marta Temido recentemente, apanha pela frente uma imprensa ignorante e preguiçosa a quem a complexidade da realidade assusta, sendo mais fácil dizer que tudo o que se passa no mundo é da responsabilidade dos governos ou dos interesses e qualquer complexidade que se introduza no discurso é uma cortina de fumo para fugir a responsabilidades.

A sazonalidade da covid, nas nossas condições, é uma evidência visível em qualquer gráfico de casos ou de mortes em 2020 para que se olhe, e portanto, embora haja neste momento alguns países europeus a aumentar o número de casos e mortes, é muito pouco provável que em Portugal se repitam as condições ambientais que coincidiram com o período de elevadíssima incidência da doença.

Gostaria de reforçar que não estou a dizer que foram essas condições ambientais e, muito menos, só essas condições ambientais, as responsáveis pelo surto de Janeiro, estou apenas a dizer que existe uma correlação evidente e que na criação de cenários prováveis para o futuro não é razoável esquecer essa correlação, cuja ligação com a incidência da doença tem sólidas bases teóricas, é certo, mas não está inteiramente estabelecida.

Quanto aos outros dois factores, o agente e o hospedeiro, podemos admitir que possa haver uma evolução desfavorável do agente, com as novas variantes, mas o facto é que o aumento da prevalência das novas estirpes é coincidente com a descida do número de casos (quer aqui, quer no Reino Unido), o que quer dizer que o efeito negativo da maior transmissibilidade foi abafado por outros factores, ou seja, é controlável.

Quanto ao hospedeiro, para além do efeito das condições ambientais na susceptibilidade do hospedeiro (matéria razoavelmente estabelecida na literatura para este tipo de doenças, mas quase sistematicamente ignorada, com a excepção do que citei do IPMA e do relatório de mortalidade de Janeiro feito pelo Instituto Ricardo Jorge), o facto é que a incidência elevada que ocorreu diminuiu a susceptibilidade da população.

Mais que isso, a elevada mortalidade, tendo ocorrido sobretudo nos grupos mais vulneráveis (pessoas com muitos anos e comorbilidades) também diminui o risco futuro no sentido em que há uma percentagem menor da população em grupos vulneráveis. Eu sei que este parágrafo pode ser lido por muita gente como sendo falta de atenção e cuidado para com as pessoas que morreram e os seus familiares, mas não é nada disso que se trata, é de procurar racionalizar as emoções para que todos possamos ficar melhor no futuro, em vez de sobrecarregar o futuro com más decisões porque não se pode escrever que, objectivamente, a população de risco diminui depois de uma elevada mortalidade.

Ou seja, quer pelas razões internas de evolução do surto - aumento da população imunizada e diminuição da população susceptível -, quer pelas razões ambientais, como baixa probabilidade de repetição do cenário meteorológico da última semana de Dezembro e das três primeiras de Janeiro e o aumento progressivo do fotoperíodo, com o que isso significa de aumento dos ultra-violetas, a probabilidade de termos em Abril um cenário semelhante ao de Janeiro é muitíssimo baixa.

O risco não é zero e a estranha evolução na República Checa, por exemplo, obriga-nos a ter cautelas e atenção aos números relevantes (não a indicadores atrasados como a ocupação de camas em cuidados intensivos, que é um factor dependente da evolução de outro cujo andamento conhecemos com três semanas de antecedência), só que os confinamentos cegos e generalizados vão tendo custos sociais progressivamente mais elevados, e utilidade no controlo do surto progressivamente menos relevantes.

É tempo de abrir as escolas, deixar o comércio abrir, focar atenções e recursos na protecção dos mais vulneráveis e seguir em frente, mesmo com algum aumento de incidência da doença.

O medo que estamos a demonstrar, potenciado por especialistas especiais que nunca tinham trabalhado sobre epidemias até há um ano, e que não sofrem grande coisa com as medidas que propõem, é apenas uma medida da nossa cobardia e desprezo pelos mais frágeis, não é nenhuma política para salvar vidas.

Sim, não queremos a quarta vaga na dimensão da que houve em Janeiro, mas não vale a pena fingir que a devastação social decorrente do que estamos a fazer vai ser um problema de menor dimensão que o que houve em Janeiro, mesmo medido apenas pela mortalidade.



4 comentários

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De balio a 06.03.2021 às 17:40

Entretanto, o número de novos infetados ontem sugere, e o de hoje sugere ainda mais, que a infeção está a começar outra vez a crescer, depois de mais de um mês em queda rápida.
Espero enganar-me, mas creio bem que não.
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De Anónimo a 07.03.2021 às 12:09

O desconfinamento clandestino já começou. É natural que haja um aumento, ainda que ligeiro e que irá aumentar paulatinamente. 
As pessoas já se juntam novamente, quer seja na rua, quer seja em casa uns dos outros. 
Muitas atividades encerradas praticam agora o serviço ao domicílio, como sejam os cabeleireiros, esteticistas, etc. Vão havendos festas e almoços clandestinos. Toda a gente sabe e as autoridades tentam não saber. 
É natural que assim seja, pois continuamos a fingir que estamos presos.
Vale mais abrir e gerir com realidade e pragmatismo do que estarmos a associar este aumento a variantes e bichos papão, com modelos de treta.
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De Elvimonte a 07.03.2021 às 13:19

Princípio fundamental onde a corrupção é generalizada e transversal: follow the money.
"Covid-19: politicisation, “corruption,” and suppression of science"

(https://www.bmj.com/content/371/bmj.m4425)


Quais as grandes economias mundiais que se afundaram com os confinamentos? Qual a grande economia mundial que lucrou? É só ver a evolução do PIB no ano passado em vários países.
Veja-se também o que nos diz um político europeu (mas podia ser americano): "European Leader Reacts to CCP Lockdown Reality" https://www.youtube.com/watch?v=hwnF4oAUoVc



Quais as empresas e individualidades que aumentaram a sua capitalização bolsista, os seus lucros e viram as suas fortunas multiplicadas? Pelo contrário, quem empobreceu, quem ficou arruinado, quem ficou desempregado?


Não é o medo a melhor forma de controlar e condicionar a populaça? Como se desenvolve uma campanha alarmista destinada a criar pânico e necessidades de produtos muito lucrativos que não seriam comprados de outra forma?


Veja-se o que nos dizem os Simpsons: https://newtube.app/user/MyAmericana/89K4HLe
Veja-se também "Reconstruction of a Mass Hysteria - The Swine Flu Panic of 2009" (https://www.spiegel.de/international/world/reconstruction-of-a-mass-hysteria-the-swine-flu-panic-of-2009-a-682613.html)


Alarmada e em pânico não reage a populaça de forma irracional? É ver-se esta forma original de combate à epidemia: https://www.youtube.com/watch?v=_PzsEk1zEzg


Para aumentar ainda mais o pânico e o alarmismo, não nos têm vindo ultimamente a pregar sobre os perigos que as variantes do vírus representam, atribuindo sem qualquer fundamento científico aumentos de casos a mutações específicas? Dizem-nos quantas são as variantes conhecidas e em que momento foram identificadas? 


Sobre estas últimas questões deixo de seguida alguns elementos esclarecedores.
"As has become evident, these few S gene mutations and some deletions are found in multiple genomic contexts (different clades in different countries) that may be an early indication for some potential advantage for these viruses but needs to be verified and does not necessarily mean change in clinical severity or transmission efficiency." (https://www.gisaid.org/references/gisaid-in-the-news/comment-on-recent-spike-protein-changes/)



http://prntscr.com/10f9cki

http://prntscr.com/10f9e10

http://prntscr.com/10f9fcg

(fonte: https://www.gisaid.org/phylodynamics/global/nextstrain/)


E sobre a ineficácia dos confinamentos três imagens: a primeira relativa à evolução da epidemia na região dinamarquesa da Jutlândia, onde 7 municípios implementaram confinamento rigoroso e 4 permaneceram abertos; as restantes relativas à evolução da epidemia nos estados vizinhos americanos de Dakota do Sul (sem confinamento, sem mácaras obrigatórias e com tudo aberto) e Dakota do Norte (com confinamento, máscaras obrigatórias, escolas e estabelecimentos não-essencias fechados). 


http://prntscr.com/10bfmrd (colhida do artigo científico "Lockdown Effects on Sars-CoV-2 Transmission – The evidence from Northern Jutland", https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.12.28.20248936v1.full).



http://prntscr.com/10elvsp - "casos" diários
http://prntscr.com/10em0aq - óbitos diários 

(fonte: worldometers)
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De Anónimo a 07.03.2021 às 16:06


Espanto-me que perca linhas e tempo neste poste com um instituto de bosta (segundo o baila bá é uma palavra sagrada da nossa politiquice).
O qu'eles gostam é de estar no palco reles das tvs, jornais e rádios.
Ninguém acredita neste serviço de caca.
Cumprimenta

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