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Escolas

por henrique pereira dos santos, em 21.05.21

Luis Aguiar-Conraria escreve hoje um bom artigo no Expresso, usando os resultados de um estudo a que já qui fiz referência, de Nuno Palma e Jaime Reis, em que compara resultados da Primeira República com resultados do Estado Novo, no que à educação diz respeito.

Resumindo, a história é igual ao legado escolar do Marquês de Pombal e dos Jesuítas: no papel, os primeiros (quer deste parágrafo, quer do anterior), são muito mais modernos, arejados e cheios de ideias certas, no terreno, os segundos (quer neste parágrafo, quer no anterior), têm muito, muito melhores resultados.

Vem isto a propósito da publicação de avaliações das escolas hoje.

Como de costume, lá aparecem os herdeiros da primeira república e do Marquês de Pombal (ver o editorial de Manuel Carvalho no Público, um jornal que, como o algodão, não engana), a explicar como os resultados que demonstram a crescente desigualdade e falta de coesão do sistema de ensino, em que as escolas dos ricos têm sistematicamente melhores resultados, contribuindo para a reprodução social, não resultam das boas ideias que defendem, mas sim das circunstâncias que amanhã têm de mudar.

Mudança essa que prometem desde sempre, sem se lembrar que amanhã é sempre longe demais (sobretudo para as vítimas actuais das suas boas intenções).

Havia, e ainda há embora de forma cada vez mais residual, um mecanismo concreto, que funcionava, que era mais barato ao Estado que as alternativas, e que era excelente a criar escolas em que ricos e pobres se misturam, aumentando as oportunidades dos pobres não herdarem a pobreza dos pais: os contratos de associação.

Por razões que a razão desconhece, os que defendem que o ensino estatal obrigatório com a escolha limitada a quem tem dinheiro para a pagar (que são os mesmos que defendem o fim das parcerias publico-privadas nos hospitais, apesar da evidência dos seus bons resultados, quer para doentes, quer para contribuintes, com o mesmo argumento de que a escolha só deve existir para quem a possa pagar), defendem o fim dos contratos de associações, ao mesmo tempo que vertem copiosas lágrimas pelos resultados daí resultantes.

Fazem-me lembrar os trotskistas que se queixam amargamente do estalinismo der dado muito má fama ao comunismo, como se os resultados do processo para criar sociedades comunistas não tivesse sido sempre, sempre o mesmo, onde quer que tenha sido experimentado (aqui chegados, argumentam que é mesmo essa a questão, experimentar outra vez, agora da maneira certa, sem que se perceba que mecanismos novos garantem resultados diferentes).

Em relação às escolas (e à saude), a ideia de que só quem tem dinheiro para pagar deve poder escolher só pode ter um resultado: o reforço progressivo de uma educação dual, em que os ricos beneficiam das suas possibilidades de escolha e a oferta beneficia de poder melhorar a sua qualidade pelo facto de haver quem esteja disposto a pagar mais por essas melhorias, criando um processo que de diferenciação de ricos e pobres, que se auto-alimenta.

Nas escolas (como na saúde) isto só se resolve proibindo a escolha, ilegalizando o ensino (e saúde) privada e obrigando toda a gente a frequentar o ensino (e os sistemas de saúde) estatais ou, adoptando o caminho inverso de que os contratos de associação e a ADSE são demonstrações: financiar o acesso dos mais pobres ao ensino e saúde privadas, na mesma medida em que o Estado gastaria recursos para fornecer directamente estes serviços.

Depois do Marquês de Pombal diminuir em 90% a população escolar do país, depois da primeira república ter liquidado o melhor (e territorialmente espalhado) ensino do país da mesma forma e com o mesmo tipo de argumentos, este governo resolveu seguir o mesmo processo de reduzir o acesso dos mais pobres ao melhor ensino possível, com os resultados que vamos vendo aparecer cada ano.

A esperança reside no facto de que de todas as vezes, a seguinte foi menos brutal e estúpida que a anterior, mas já era tempo de perceber que, ainda assim, é estúpido ter como referência de políticas públicas a propriedade das paredes das escolas (e hospitais) em vez do acesso dos mais pobres a serviços de educação (e saúde) que podem escolher, eliminando a restrição económica do próprio à escolha.



12 comentários

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De Anónimo a 21.05.2021 às 10:06

o governo tem feito o que pode para acabar com os colégios
ainda falta liquidar 40
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De pitosga a 21.05.2021 às 21:03


HPS,
Sabe-me ler estes seus últimos escritos. Lógicos e pacíficos.
Não são para burros.

Abraço
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De Anónimo a 21.05.2021 às 22:38

A propriedade das paredes das escolas..
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De Anónimo a 22.05.2021 às 07:16

Jacobinos! Herdeiros do Pombal, introdutor da Maçonaria em Portugal. É tudo!
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De Anónimo a 22.05.2021 às 21:48

Do pouco que sei, concretamente, do estado actual do ensino em Portugal respigo apenas estes factos:
- Uma netinha que estuda no ensino oficial, aos quase 9 anos de idade, desconhece ainda algumas partes da tabuada e está deficiente na leitura e escrita; estuda numa escola do ensino oficial.
- Uma notícia da Televisão referia que: numa lista oficial (a que detestavelmente chamam "ranking" do ano 2020) a escola do ENSINO OFICIAL com melhores resultados ficou em trigésimo sétimo (37º) lugar, atrás das do Ensino Particular.
- Na minha última, e recente, ida ao mais conhecido "Hipermercado" sito em Telheiras, fui atendido por uma simpática jovem (20~25 anos) que desconhecia totalmente o significado do termo "vasilhame".


Pelo que concluo que Portugal caminha, a passos largos, para uma abjecta escravatura, sem dar por isso.


Será que os nossos governantes, a quem pagamos principescamente, estão todos CEGOS E SURDOS?
Ou será isto feito de PROPÓSITO? 
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De Anónimo a 23.05.2021 às 15:19

"Depois do Marquês de Pombal diminuir em 90% a população escolar do país, depois da primeira república ter liquidado o melhor (e territorialmente espalhado) ensino do país da mesma forma "

O que terá a primeira republica liquidado em 1910 (135 anos depois de o marquês ter sido arredado) se só havia uma única universidade em todo o império e tínhamos uma taxa de analfabetismo a rondar os 80% na metrópole contra os 5% que poderíamos encontrar entre os nossos vizinhos da europa ocidental.
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De Anónimo a 23.05.2021 às 22:02

A Universidade de Évora a funcionar desde o séc. xvi dirigida pelos jesuítas durante mais de 200 anos, assim como grandes Colégios, tudo isso acabou com a expulsão dos jesuítas e doutras congregações religiosas, assim como a perseguição ao clero em geral do pelo Marquês de Pombal. Como sabe uma das razões do seu ódio aos jesuítas, sobretudo, advinha do facto de estes terem um espírito pragmático, científico, independente, portanto não se submetia facilmente à tirania do Pombal, antes o enfrentavam! Obviamente este traçou-lhes o "destino"...  Com o fecho das escolas/colégios houve uma dramática diminuição de alunos com acesso ao ensino e esse facto teve consequências dramáticas para o país, pois  reduziu consideravelmente o número de estudantes que poderiam ter entrado nas Universidades.
Mas outras razões havia para esta perseguição ao clero: a sua militante irreligiosidade advinha do facto de ele dever "obediências" ao ideário da maçonaria (introduzida por ele em Portugal) que considerava que o Ensino devia estar sob o controlo do Estado. Introduziu também a censura, que teve grande destaque no tempo de Pombal.
Embora ele tenha feito importantes mudanças no ensino, vou transcrever-lhe este texto esclarecedor:
 "A expulsão dos jesuítas representou um desastre sem igual na educação em Portugal. Os jesuítas forneciam educação gratuita a perto de 20 mil alunos, tendo praticamente o monopólio da educação não superior. Portugal só voltará a ter este número de alunos no início do século XX, quando a população é o dobro da daquela época !

A Universidade de Évora, por exemplo, que havia sido fundada no séc. XVI pelo cardeal D. Henrique, pertencente aos jesuítas, foi extinta, e a  Universidade de Coimbra sofreu profunda reforma, sendo modernizada. Devido à expulsão dos jesuítas e consequente fim das suas escolas o número de alunos que chega à universidade baixa enormemente nos tempos do Marquês de Pombal, de 3 mil na universidade de Coimbra mais 1,5 mil na universidade de Évora em poucos anos a universidade sobrante, a de Coimbra fica apenas com 500 alunos."
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De Anónimo a 24.05.2021 às 23:25

Ok, assumindo que o Marquês era um malandro destruidor do ensino isso continua a não ser grande justificação para que entre 1777 e 1911 este pais ter tido apenas uma universidade para todo o imperio e entrado no século XX com uma taxa de analfabetismo completamente obscena. 
A expulsão do Jesuítas poderá ter sido um grande golpe para o nosso ensino mas a França também expulsou os Jesuítas e chegou ao inicio do século XX com apenas 5% de analfabetos contra os nossos 80%
Também não explica que antes das maldades do Marquês tivéssemos apenas duas universidades em todo o imperio, incluido o Brasil, quando os espanhois que apesar de também terem expulso os Jesuitas, foram a partir do século XVI  preenchendo a sua parte do continente Americano e as Filipinas com universidades. Muitas delas existem até aos dias de hoje. 


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De Anónimo a 23.05.2021 às 22:38


Após o período de Pombal, já durante o liberalismo houve um certo relaxamento do anti-clericalismo e o ensino foi recuperado por algumas congregações religiosas.


Mas a 1ª República seguiu o ideário de Pombal, logo, liquidou o ensino da mesma forma e...exactamente pelas mesmas razões: perseguição religiosa e o controlo do ensino pelo Estado, laico, e sob influência agora do ideário republicano, jacobino,  prosseguindo os preceitos da maçonaria.

É lamentável o desconhecimento de certos factos e que sejam omitidas estas circunstâncias históricas no ensino actual. A História como ela foi. A maioria das pessoas desconhece "como" foi a 1ª República e o seu completo desastre e falência, com a completa destruição da economia feita em frangalhos. Aliás foi um período tão traumático e de má memória que originou o termo depreciativo ainda hoje usado "Isto parece uma república!"


Mas actualmente já cá estão os actuais herdeiros do jacobinismo militante para não se perder a "tradição"!
Arre que não arredam!!!
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De Susana V a 25.05.2021 às 17:35

O ensino público tem várias condicionantes que o colocam à partida em desvantagem para com o ensino privado, em termos de comparação de resultados globais:
1-  Impossibilidade de escolha do corpo docente (premiar e fixar os professores com maior mérito)
2- Impossibilidade de recusar alunos problemáticos e destabilizadores. 


Relativamente ao primeiro ponto parece-me um absurdo que uma escola não possa escolher o seu corpo docente (sendo depois responsabilizada pelos resultados).  Isto mostra que o sistema é totalmente desadequado aos desafios que tem pela frente.  O melhor a fazer seria implodir o ministério da educação e começar tudo de raiz (como aliás tinha sugerido o Nuno Crato antes de ser ministro). 
Relativamente ao segundo ponto, penso que não encarar de frente a questão das crianças problemáticas é uma cobardia do sistema actual. Estas crianças não podem andar de escola em escola, sem aprender nada e a impedir os outros de aprender. Ou se encontram turmas especiais que as ajudem a ultrapassar os seus problemas específicos ou se consideram inaptas para o ensino e se deixam sair. É impossível ensinar uma criança ou adolescente que não quer aprender e não quer estar na escola.   
Apenas por estas razões seria desde já complicada e de certa forma injusta a comparação directa entre os resultados médios das escolas privadas e das escolas públicas. O que não quer dizer que os rankings não devam ser públicos.

A questão das condições sócio-económicas vem depois. Quando os professores falham (ou as crianças são rebeldes ou preguiçosas) os pais com melhores condições socio-económicas reagem e revertem a situação (com apoio particular, por exemplo) enquanto que os restantes não o conseguem  fazer. Desta forma alguns alunos ficam irremediavelmente para trás. 


As minhas crianças frequentam o ensino público desde a primária. É espantosa a qualidade e dedicação da maior parte dos professores que tiveram. Muitos destes professores não pertenciam ao quadro da escola e iam rodando anualmente, para desconsolo dos pais.  Quando surgia um mau professor, nós, enquanto família, conseguíamos dar às crianças o apoio extra que era necessário. Outros pais não tinha o tempo e/ou as ferramentas necessárias e os miúdos iam ficando para trás.


Seria interessante perceber a estrutura das classificações, não apenas as médias mas os percentis. Serão os 10% melhores alunos das escolas privadas superiores aos 10% melhores alunos nas escolas públicas? Como seriam as médias sem os valores extremos (outliers)? 
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De lucklucky a 26.05.2021 às 05:39

Um dos problemas da escola é que não aceita diferença. Há criança que são muito mais física que escritas. Uma criança que gosta de trabalhar com as mãos em vez de "humanidades" está lixada.
Essa é aliás uma da razões porque as raparigas tem vantagem na escola tal como ela é. Uma das  "discriminações sistêmica". Como não interessa ao Jornalismo Marxista não existe.
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De Susana V a 26.05.2021 às 21:10

Tem alguma razão no que diz. Concordo que cada criança tem potencialidades únicas, algumas das quais são pouco valorizadas no contexto escolar. Mas isso é uma questão diferente totalmente diferente da que estava a referir...   

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