Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




"Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto"

por henrique pereira dos santos, em 25.09.21

Sou um leitor frequente, ou mesmo muito frequente, dos artigos de Leal da Costa no Observador.

A razão é simples: quer eu esteja de acordo, quer não (e muitíssimas vezes não estou), são artigos informados, com informação solidamente sustentada, e racionais.

Tanto quanto percebo, a raíz para não estar muitas vezes de acordo com Leal da Costa acho que é muito bem caracterizada por estes dois parágrafos:

"Em dezembro de 2012, como já fazia há muitos anos e seguramente por ter tido a sorte de crescer no meio das “gentes” da medicina preventiva, disse que “se nós, cada um dos cidadãos, não fizermos qualquer coisa para reduzir o potencial de um dia sermos doentes, por mais impostos que possamos cobrar aos cidadãos, o SNS será, mais tarde ou mais cedo, insustentável” e continuei afirmando, “numa altura em que temos uma elevadíssima carga fiscal que nos é imposta pela necessidade de manter os serviços públicos, é importante que a sustentabilidade do SNS comece a ser encarada como obrigação de cada um de nós”. Na resposta, chamaram-me de tudo. Houve um palerma que me considerou lobotomizado num artigo de opinião que um semanário não se importou de publicar, insultando até a minhas capacidades de médico, ouvi um ex-secretário de estado, também médico, dizer que eu deveria estar “bêbado” e as associações de utentes reagiram com repúdio denodado à minha proposta de que os cidadãos fizessem alguma coisa para adoecerem menos e, por essa via, libertassem recursos e onerassem menos o SNS.

E há um grupo concertado de negacionistas, agregados em torno de corporações como aquelas que fabricam, distribuem e vendem tabaco, álcool e outros produtos de reconhecida nocividade que vão passando incólumes e até são protegidos pelos poderes instituídos. Negam conscientemente e de forma reiterada, mentindo, as maleficências que causam – neste caso as tabaqueiras superam largamente as empresas do álcool – sempre na posição de vítimas de difamação ou tentando colocar-se como agentes da solução do problema que criam. O problema tem números e é a morte anual de milhões de pessoas, muitas mais do que aquelas que a COVID-19 já matou."

Ou melhor, a raiz das minhas discordâncias está na ideia, não explícita aqui, mas explícita noutros artigos, que é legítimo proibir, ou restringir fortemente, o consumo de produtos ou os comportamentos dos indivíduos em nome de um bem maior que é a saúde pública.

Em rigor, eu estou de acordo com esta ideia, quando entendida como uma resposta excepcional a situações excepcionais.

Já não estou quando o argumento é o de que: “se nós, cada um dos cidadãos, não fizermos qualquer coisa para reduzir o potencial de um dia sermos doentes, por mais impostos que possamos cobrar aos cidadãos, o SNS será, mais tarde ou mais cedo, insustentável”.

E não estou de acordo por duas ordens de razões.

Em primeiro lugar, a sustentabilidade ou não do sistema de saúde é uma opção política dos cidadãos e não está fora da discussão política normal sobre a afectação de recursos, não há nada na saúde que faça dela um valor acima de qualquer outro valor social: ao nível do indíviduo, eu posso querer rebentar com a minha cabeça com LSD e ninguém tem nada com isso, ao nível da comunidade, a comunidade pode preferir gerir os problemas sociais associados ao consumo de drogas de muitas maneiras diferentes, e é no debate e decisão política que se faz a ponderação de interesses públicos contraditórios.

A segunda ordem de razões é mais explícita nos dois parágrafos que citei: a escolha dos demónios que consideramos como inaceitáveis é também uma escolha política que tem de ser politicamente escrutinável, não pode basear-se em estatísticas de saúde desgarradas do resto. Leal da Costa escolhe aqui o tabaco e o alcool, mas não refere o açucar e o sal, por exemplo. Naturalmente, seria preciso saber por que razão escolheu esses dois e não os outros dois, responsáveis por números ainda mais terriveis nas estatísticas de saúde.

Acresce que não podemos discutir as estatísticas de forma excessivamente parcelar: é verdade que o tabaco contribui grandemente para a despesa em saúde na medida em que está associado a doenças que custam rios de dinheiro aos contribuintes, mas ao mesmo tempo é responsável por um nível de impostos que corresponde ao princípio, mais que justo, do utilizador/ pagador e, surpreendentemente, como está associado a menores esperanças de vida, contribui para a sustentabilidade dos sistemas de pensões.

Bem sei que o parágrafo anterior pode ser lido como chocante, mas note-se que estou a enunciar factos e não a fazer juízos morais, e só olhando para os números associados a tudo isto é que a discussão ganha racionalidade.

Mas peguemos agora no exemplo do alcool: um dos princípios que Leal da Costa enuncia no seu credo, é o de que "A eliminação da pobreza deve ser o primeiro objetivo da política de saúde". Pois bem, quando se adopta uma política maximalista de redução do consumo de alcool em nome da saúde - e não querendo discutir a velha ideia de que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose - estamos mesmo dispostos a atirar para a miséria milhões de produtores de vinho, aceitando, por exemplo, a destruição do património mundial do vale do Douro em nome da saúde? E o mesmo se diria das terras altas da Escócia e muitos outros lados?

Ou afinal temos de ponderar seriamente?

Não tenho nada contra a ideia de que é legítimo aos estados procurarem influenciar os comportamentos das pessoas para que sejam mais saudáveis, seja por razões financeiras, seja porque uma boa saúde é uma condição importante de qualidade de vida, desde que se respeite a liberdade das pessoas não quererem seguir os conselhos que lhes são dados.

O que tenho, isso sim, é contra a ideia de que a saúde é um valor absoluto que se sobrepõe a outros valores, incluindo ao valor do sagrado direito à asneira.



8 comentários

Sem imagem de perfil

De balio a 25.09.2021 às 15:50

"o mesmo se diria das terras altas da Escócia"


São casos diferentes. O vinho é produzido a partir de uvas, as quais são produzidas em grande parte porque se trata de uma cultura que não necessita de irrigação. Trata-se de aproveitar terras pobres que para nada mais serviriam do que para fazer crescer videiras. O uísque, pelo contrário, é produzido a partir da fermentação de cereais, nomeadamente a cevada, que podem ser diretamente consumidos. A cevada é um cereal que sustenta muita gente - por exemplo, no Tibete. Consumir uísque é desperdiçar um cereal muito nutritivo.
Sem imagem de perfil

De balio a 25.09.2021 às 15:54

É verdade que o consumo de tabaco contribui grandemente para as despesas de saúde, mas em compensação poupa imenso nas despesas com pensões de reforma. O cancro do pulmão mata depressa e, geralmente, sem remissão; muitos cancros do pulmão nem chegam a ser tratados porque, quando são detetados, já é demasiadamente tarde. As pessoas morrem com cancro do pulmão na casa dos 60 anos de idade, evitando que a sociedade lhes tenha que pagar dispendiosas pensões de reforma. Basicamente, trabalham e são produtivas até 6 meses antes de morrerem. O que é muito bom para a sociedade.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 26.09.2021 às 09:29

Inacreditável que o Balio não dê conta da monstruosidade que escreveu. 
E nem vale a pena explicar-lhe porquê: está fora do seu alcance.



Sem imagem de perfil

De José Sargaço a 26.09.2021 às 15:16

Já para não falar no dinheiro que cada fumador paga em impostos.
balio, uma fumador que consuma dois maços de cigarros, diariamente, entre os 16 e os 60 anos quanto contribuirá em impostos para o Estado?
O consumo de tabaco (segundo balio) até devia ser incentivado e os teimosos que não apanhassem cancro de pulmão até aos 60 anos, o Estado providenciaria umas câmaras de gás ou eutanásia ou lá como é que chamam ao assassinato estatal de velhos e doentes.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 26.09.2021 às 00:52

Yes Prime Minister e o Tabaco :)
https://www.youtube.com/watch?v=WJIMffhpZRw



Leal da Costa parece ser uma pessoa perigosa, totalitária.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 27.09.2021 às 10:15

Teremos que analizar cada lei individualmete, caso a caso. 
Tentar ver se comportamentos por um prisma da sua rentabildae económica não faz muito sentido, senão a pornografia infantil e o tráfico de drogas duras, com os milhões que trazem seriam as profissões mais benéficas do mundo. E parece consensual não são.
Todos temos direito à asneira e a saúde não é um bem absoluto, mas quando são os outros que pagam o nosso direito à asneira a coisa fica mais confusa.
Nunca fui fumador e durante anos ninguém me perguntou se queria estar em locais de trabalho, restaurantes e cafés a fumar o fumo dos outros, estive em reuniões de trabalho em que a atmosfera dentro das salas parecia nevoeiro,.Ainda bem que que se restringiu o direito à asneira de certas pessoas, porque esperar pela comprensão delas era capaz de ser demorado.
Quanto à classificação de fascistas aos que se nos opõem, há quem considere que não querer discutir a saúde como bem supremo é fascismo, e há quem considere que querer proibir touradas e trazer o assunto para a praça pública é fascismo. Pode-se discutir o que é fascismo mas tradicionalmente nunca se chega a lado nenhum..
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 27.09.2021 às 15:49

Sugiro que leia o post com mais atenção para evitar comentários sem qualquer relação com o texto que escrevi.
Henrique Pereira dos Santos 
Imagem de perfil

De jpt a 28.09.2021 às 08:18

Que bom texto, muito obrigado.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Nuno

    Pelo menos foi honesto quando disse que não contas...

  • Anónimo

    Compete ao Estado zelar por nós, dizem. Mas, e se ...

  • Anónimo

    Tempos difíceis se aproximam e o Costa põe o corpi...

  • Anónimo

    https://blasfemias.net/2021/10/26/vai-se-a-ver-a-c...

  • Anónimo

    Subscrevo. Um período de má memória que vai deixar...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2006
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D