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Era bom que a saúde fosse mais um negócio

por henrique pereira dos santos, em 11.12.25

"Não é da benevolência do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles tem pelos próprios interesses. Apelamos não à sua humanidade, mas ao seu amor-próprio, e nunca falamos lhes falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que eles podem obter".

Lembrei-me desta famosa frase de Adam Smith enquanto o médico se exasperava com o tempo que perdia à espera de resposta do computador.

Eu peço desculpa por este compasso de espera, mas de cada vez que dou uma ordem, tenho de ficar à espera de resposta muito mais tempo do que devia, isto é desesperante, aliás, está tudo desesperante no Serviço Nacional de Saúde, e por causa disto, a consulta que devia demorar 20 minutos demora 25 (na verdade o médido disse quarenta, mas não quero exagerar porque bastam estes 25% a mais de tempo do médido para o argumento do post, apesar de confirmar que a consulta estava quase duas horas atrasada), o que quer dizer que fica muito mais gente por atender, que depois se vai acumular nas urgências, etc., disse o médico.

Se, por deficiência de software, de servidor ou de terminal (este tem 20 anos, dizia o médido apontando para o seu computador), ou de tudo junto, um médico demorar mais 25% do tempo que deveria, isto significa que o recurso mais escasso do Serviço Nacional de Saúde (neste caso, médicos, mas pode ser qualquer um dos profissionais de saúde) tem perdas de produtividade catastróficas para o desempenho global do SNS (não sou eu, imagine que isto é assim em todo o lado e veja o que isto significa de desperdício de tempo, continuava o médico desesperado, tão desesperado que desistiu de fazer uma operação simples de transferência de uma marcação para o dia anterior no seu computador para entregar a tarefa a terceiros, permitindo-lhe começar a consulta seguinte).

É aqui que entra Adam Smith: o interesse próprio do médico é despachar o doente dentro de um tempo razoável e respeitando a boa prática clínica, e coincide com o interesse do doente, mas acontece que não é o médico que pode organizar o seu trabalho e fazer opções de investimento que lhe permitam aumentar a produtividade (que, em qualquer caso, não resulta em benefício próprio, quando se consegue qualquer melhoria).

Os interesses de quem decide investir na base informática, na simpatia do atendimento, na rapidez do socorro, na contratação de mais profissionais, numa melhor definição funcional que permita ao médico concentrar-se no que ninguém pode fazer por ele, deixando a terceiros actividades como marcar consultas e outras burocracias, podem não coincidir com os do médico e do doente.

Isso é verdade, tanto no sector público, como no sector privado, mas há uma diferença relevante: nenhum investidor estará satisfeito quando sabe que um investimento em A dá um retorno de 1 e um investimento em B dá um retorno de 10 e alguém decide investir em A.

Investir em médicos, o mais escasso, diferenciado e valioso recurso de qualquer sistema de saúde, para depois o seu tempo se escoar à espera de resposta do sistema informático, é uma coisa que muito mais facilmente acontece num sistema em que a melhoria da produtividade não pode ser apreendida pelo gestor que num sistema em que as melhorias de produtividade resultam em mais retorno para a gestão e o capital.

O facto da saúde ser um negócio (quem diz a saúde, diz a educação, a alimentação, a cultura ou o que quer que seja) tem um problema claro: quem não tem recursos não acede aos bens e serviços resultantes desse negócio.

Juntar foie gras a uma sopa de castanhas não está ao alcance de qualquer um, mas isso não resulta num problema social, já se alguém não tem acesso ao sistema de saúde por falta de dinheiro, a sociedade entende isso como um problema que deve ser corrigido.

Só que isso não implica retirar a saúde do mundo dos negócios, pelo contrário, é o mundo dos negócios que produz o essencial dos que as sociedades necessitam, incluindo saúde, educação, etc., o fundamental é criar mecanismos de acesso que resolvam a falta de recursos para comprar os bens e serviços fundamentais.

A saúde ser um negócio é bom e aumenta fortemente a probabilidade dos serviços de saúde serem prestados de forma mais eficiente, isto é, obter os mesmos ou melhores resultados com menos recursos.

Garantir o acesso a quem não pode pagar depende da boa vontade de terceiros, mas é do interesse próprio do homem do talho, do padeiro e do cervejeiro que, prioritariamente, devemos esperar o jantar.


67 comentários

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De henrique pereira dos santos a 12.12.2025 às 14:44

Eu não tenho esse tipo de problemas, vou, como a humanidade que pode escolher, ao sistema de saúde norte coreano onde não há problemas desses e funciona tudo maravilhosamente bem.

Experimente e vai ver que fica cliente, não é por acaso que toda a gente que tem dinheiro suficiente vai tratar-se à Coreia do Norte.
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De Anónimo a 12.12.2025 às 15:17

Não parece é que esse seja o tema.
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De Anonimo a 12.12.2025 às 21:37

A resposta do hps foi assertiva e factual. Já o seu comentário de factual tem pouco, apenas contém ideologia. 
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De Anónimo a 12.12.2025 às 19:04

Pois. Acontece que a ironia não contradiz nem esclarece: 
 
No privado em o paciente não tendo dinheiro não há tratamento nem cura, em chegando ao limite coberto por seguro, finito o tratamento.


Sendo assim e enquanto não ocorrerem alternativas, o SNS é de longe o melhor que já aconteceu no País. 
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De henrique pereira dos santos a 13.12.2025 às 09:19

A sua ideia de que o Estado tem sempre dinheiro é desmentida pela qualidade de atendimento na saúde de países como a Venezuela, Cuba ou a Coreia do Norte e é, frequentemente, demonstrada em circunstâncias concretas dos serviços estatais de saúde, como é o caso das listas de espera, de urgências encerradas, de problemas no socorro médico, etc., etc., etc..
O facto dos mercados não serem perfeitos a não ser nos livros de economia, não significa que a alternativa aos mercados seja melhor.
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De Anónimo a 13.12.2025 às 13:43






Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte ?!

Pensei que a ideia era o SNS de Portugal.


Depois essa de o Estado ter sempre dinheiro, francamente...


Quanto ao resto;


O SNS foi uma das melhores realizações ocorridas no Portugal pós Abril.


Não nasceu perfeito, não é perfeito, provavelmente passarão muitas Luas antes que o seja, se é que algum dia o será.


De qualquer forma, já garante assistência médica e  comparticipação em medicamentos a milhares de Portugueses. 


Também é uma referência Internacional de que Portugal pode justificadamente se orgulhar.


Admito que cause engulhos muito embora nunca tenha visto uma justificação do porquê.


Aliás nem se vê onde está a questão; quem preferir assistência Privada e em tendo posses que o permitam, faz favor; fiquem com o caminho todo e as melhoras.
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De Manuel a 13.12.2025 às 23:26

Pelos vistos não sabe a real  história da criação do serviço nacional de saúde. 
Era bom que soubesse.
Na minha caixa de previdência antes do 25 de Abril evidentemente que já tinha assistencia médica para mim e para a familia, comparticipação nos medicamentos alguns até era total, e nas muitas outras caixas de previdência igualmente.
Os beneficiários da minha caixa de previdência que funcionava bem (podiamos escolher entre os médicos que tinham acordo e eram vários o que levava a que quando precisávamos não tínhamos que esperar para consultas) não aceitámos a integração no sns e fizemos greve até garantir a autonomia relativa da nossa caixa de previdência, já sabiamos que  sendo integrados no sns iriamos ficar muito pior servidos na assistencia na saúde. 
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De Anónimo a 14.12.2025 às 11:16

Ora deixe-me disso. 


Sabe perfeitamente que antes do 25 ABR só alguns grupos beneficiavam de sistemas assistenciais, e depois o Sistema SNS alargou a cobertura a toda a População.


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De Anonimo a 12.12.2025 às 21:23

Eu idem não tenho esse tipo de problemas, vou, como a humanidade que pode escolher, ao sistema de saúde norte americano onde não há problemas desses e funciona tudo maravilhosamente bem.

Experimente e vai ver que fica cliente, não é por acaso que toda a gente que tem dinheiro suficiente vai tratar-se à América do Norte
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De henrique pereira dos santos a 13.12.2025 às 09:23

A verdade é que vai muita gente ao sistema de saúde americano, que é o sistema mais inovador, que produz mais patentes e que tem os tratamentos de ponta mais avançados, ao contrário do que acontece na Coreia do Norte, na Venezuela ou em Cuba (Cuba tem, para uma parte ínfima da população, cuidados de saúde razoáveis).
Isso não significa que esteja tudo bem, o sistema americano tem um problema de acesso muito sério que deixa quase um quinto da sua população sem acesso ou com acesso difícil a cuidados de saúde, do que resultam indicadores globais de saúde da população piores que em muitos outros países.

Como já escrevi acima, o facto de um sistema ter problemas não significa que as alternativas são melhores, a falácia habitual dos estatistas.
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De Anonimo a 13.12.2025 às 12:04

Haverá mais europeus a recorrer aos serviços de saúde americanos ou americanos a aceder aos serviços universais europeus? É pesquisar...
Como já escrevi acima, o facto de um sistema ter problemas não significa que as alternativas são melhores, a falácia habitual dos neoliberais.
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De henrique pereira dos santos a 13.12.2025 às 12:31

Repare, eu não disse que um sistema é melhor que o outro, só disse que nos sítios de onde os privados são excluídos, o problema não fica resolvido.
Quem está aqui há tempos infindos a tentar dizer que os sistemas estatais são melhores, usando a falácia habitual de dizer que há problemas de acesso quando se paga (grande descoberta) é que tem a responsabilidade de explicar em que medida sistemas pouco eficientes dão melhores resultados.
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De henrique pereira dos santos a 13.12.2025 às 12:33

Quanto à pesquisa, esta é a resposta da inteligência artificial (que não vou verificar porque a pergunta, em si, é absurda):
"Não há dados exatos que comprovem um fluxo maior de americanos para tratamento na Europa do que europeus nos EUA, mas a tendência é que mais europeus vão aos EUA por tratamentos específicos ou tecnologia avançada, enquanto americanos vão à Europa para reduzir custos (especialmente medicamentos e procedimentos) devido aos preços mais altos nos EUA, embora isso dependa muito do país europeu e do tipo de cuidado. A Europa oferece acesso mais amplo e, muitas vezes, mais acessível, enquanto os EUA têm inovação e especialistas, mas preços exorbitantes. "
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De Anonimo a 13.12.2025 às 18:35

Tem razão,  o hps


Pode comprovar a sua pesquisa aqui


https://grcglobalgroup.substack.com/p/the-rise-of-medical-tourism-why-americans
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De Anónimo a 13.12.2025 às 15:06

Mas o que sugere é que se deixe sem cuidado médico os que não podem pagar ficando o Sistema de Saúde para a parte da Sociedade que pode.


Chama-se inclusão, presumo
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De Anónimo a 14.12.2025 às 11:29

Do ponto de vista dos Portugueses, da maior parte dos Portugueses, é que o Sistema de Saúde USA, fica um bocado longe.


Além disso o bilhete do autocarro é caro.


Mas claro que quando formos todos ricos iremos á consulta na América.

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