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Enxurradas e erosão

por henrique pereira dos santos, em 14.09.22

A propósito das enxurradas destes últimos dias e, em especial, da que provocou prejuízos sérios numa aldeia de Manteigas, acabei metido numas discussões sobre fogos, erosão, enxurradas e afins.

Essencialmente o que procurava explicar, nessas discussões, é que a gestão de enxurradas, cheias repentinas e etc., era essencialmente um problema de hidráulica, que convém não ser confundido com a gestão do solo.

Em grandes bacias hidrográficas, a cobertura do solo faz muita diferença na gestão das grandes cheias, essencialmente por retardarem a chegada da água aos pontos críticos, permitindo "achatar a curva" (que prazer que me dá usar esta expressão neste caso) e reduzir o pico de cheia.

As grandes cheias não resultam de uma chuvada especialmente intensa num curto espaço de tempo, como acontece nas enxurradas características das bacias torrenciais, em que as cheias são quase repentinas, com uma capacidade de transporte enorme, mas muito rápidas e curtas.

As grandes cheias resultam de precipitações acumuladas ao longo de um tempo relativamente longo em que o que chove é mais que o que se infiltra no solo ou se encaixa em zonas de alagamento.

Na gestão das grandes cheias, a gestão da bacia hidrográfica é relevante, quer para gerir a velocidade de escoamento criando rugosidades, obstáculos e derivações, quer para gerir a capacidade de encaixe, através de zonas que podem alagar, sem prejuizo, armazenando água que depois é libertada fora do risco de cheia.

Claro que há limites para a criação desta capacidade de encaixe, em especial se o período de chuva for suficientemente prolongado para ir enchendo os "depósitos", e depois sobrevier uma precipitação intensa, os depósitos, estando cheios, não desempenham a função de encaixe.

Só que, numa enxurrada, tudo de passa de forma mais intensa e mais rápida, em bacias hidrográficas com fraca capacidade de encaixe.

Nestas circunstâncias, o revestimento do solo da bacia hidrográfica só tem relevância até ao seu ponto de saturação, que é atingido muito rapidamente, se a chuva for mesmo intensa (e a velocidade de infiltração é sempre baixa, em relação ao que chove, portanto pode ser descartada nas contas que pretendem medir o risco).

Os obstáculos e a rugosidade, que são úteis nas grandes cheias para "achatar a curva" dos caudais, têm aqui uma relevância menor e podem ter o efeito contraproducente se o efeito de retenção não for suficiente para impedir o movimento descontrolado da água, visto que esses obstáculos (árvores, arbustos, edifícios, postes, infraestruturas, carros, etc.) podem ser incorporados na enxurrada, tornando-a ainda mais destrutiva.

Foi isto que se passou na aldeia de Sameiro, e passar-se-ia, provavelmente, com ou sem fogos a montante (talvez houvesse diferenças marginais, que duvido que alterassem o resultado final, que dependeu essencialmente de uma chuvada muito intensa e curta, a que se somou o bloqueio do canal de escoamento, por más opções urbanísticas).

Questão muito diferente, gerida por factores completamente diferentes, é a da erosão do solo.

Há uma equação universal de perda do solo (está sempre em discussão e vai sendo alterada aqui e ali), sobre a qual se pode ter aqui uma visão equilibrada, da wikipedia. Há outros factores que provocam erosão do solo, mas o mais relevante, para a generalidade das situações socialmente relevantes, é a água e esta equação diz respeito à erosão provocada pela água, apesar de se chamar universal.

Como se pode ver com mais pormenor na página para que fiz ligação, há seis factores, na equação e o objectivo da equação é estimar a perda média anual de solo num determinado local, coisa completamente inútil para a discussão de enxurradas e seus efeitos.

A gestão do solo, uso do solo e técnicas usadas, que inclui o efeito dos fogos sobre o coberto vegetal, apenas influencia dois dos seis parâmetros e, mesmo assim, com elevadas incertezas que obrigam a que os seus valores sejam determinados empiricamente (com certeza há aproximações que simplificam a sua aplicação).

Os grandes fogos de Verão, nas nossas condições - não confundir com os fogos controlados, cujos efeitos são substancialmente diferentes -, são um problema sério do ponto de vista económico e social, mas são relativamente pouco impactantes do ponto de vista ambiental - cuidado com esta generalização, os efeitos do fogo variam muito em função das circunstâncias concretas em que ocorre o fogo -, com duas relevantes excepções: 1) o seu papel na expansão de espécies invasoras pirófitas, como acácias e háqueas, para citar as mais preocupantes; 2) a calcinação da matéria orgânica do solo, com o consequente atraso na regeneração do solo.

Há duas razões principais que me levam a não considerar a erosão do solo como um problema ambiental maior decorrente dos fogos do Verão: 1) À escala da paisagem, grande parte da erosão que se verifica em algumas encostas alimenta a acreção das zonas de acumulação, contribuindo para uma maior recuperação dos solos nessas áreas; 2) Mais importante, para que haja perda de solo relevante, é preciso que haja solo, e as áreas mais susceptíveis à erosão, em que ocorrem incêndios, são áreas de solos esqueléticos sem qualquer perda relevante possível de um solo que não existe.

Misturar os problemas decorrentes das enxurradas (que são problemas de curto prazo que se prendem apenas com a capacidade de encaixe de bacias hidrográficas torrenciais e os erros de ocupação de solo que ignoram o poder destrutivo das enxurradas - porque são fenómenos que ocorrem com muitos anos de intervalo, é fácil esquecer) com a gestão do solo e da erosão (e a necessidade de investir no aumento de matéria orgânica nos nossos solos - daí a necessidade de transferir os fogos de Verão, terríveis para a matéria orgânica do solo, para fogos de Outono/ Inverno/ Primavera, inócuos para a matéria orgânica do solo), é misturar alhos com bugalhos.

Daí não viria mal ao mundo se esta falta de cultura de gestão da paisagem não se traduzisse em políticas erradas e desperdício permanente de recursos, nomeadamente na repetição dos mesmos erros, ano, após ano, após ano.



2 comentários

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De entulho a 14.09.2022 às 19:16

o solo seco funciona como telha nas enxurradas.
no meu caso as folhosas, colocadas pelos serviços florestais, foram as primeiras a arder em 2013 e substituídas por acácias invasoras de difícil exterminação.
'siga o enterro!'
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De Antonio Maria Lamas a 15.09.2022 às 07:36

Ontem, num telejornal qualquer, o jornalista justificava a enxurrada com a falta de árvores que tinham "desaparecido" com o fogo e mostrava imagens da serra de uma vasta área de mato queimado, para ilustrar a asneira.
A seguir entrevistou os autarcas e ninguém mencionou as construções em cima da ribeira. 
Não admira que estas tragédias se repitam todos os anos

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