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Engano

por henrique pereira dos santos, em 24.08.20

Recentemente têm aparecido referências sugerindo, ou mesmo afirmando, que a história falará desta epidemia como um monumental engano que nos levou a adoptar uma cura bem mais prejudicial que a doença.

É muito cedo para ter certezas sobre isso.

Em qualquer caso, uma coisa é clara: há um conjunto de pessoas, muito minoritário, que desde o princípio defendeu que a epidemiologia clássica deveria ser a base da gestão da epidemia e que acrescentar à incerteza associada a qualquer epidemia de uma doença nova a incerteza de aplicação de medidas novas, nunca testadas, era uma opção ultra-arriscada.

Esta posição, perfeitamente legítima, foi completamente cilindrada, pela coligação em que se misturavam os que defendiam medidas inovadoras, uma comunicação social em pânico e que desistiu de cumprir a sua função de informar e políticos com medo de serem acusados de não terem feito tudo o que seria possível para salvar vidas.

Não é grave que aquela posição tenha sido contestada, o que é grave é que, acreditando piamente na necessidade de medidas radicais e tão rápidas quanto possível, a coligação maioritária tenha optado por não discutir diferentes pontos de vista, contendando-se em esmagar eventuais divergências.

Agora estamos todos a pensar como sair da armadilha em que nos metemos, com o grupo maioritário a propôr actuações que, no essencial, são aquilo que a epidemiologia clássica desde o início, sugeria.

Que se pretenda passar a ideia de que não é nada disto, a questão é que ninguém sabia nada de início e agora é que sabemos o que fazer, o que nos permite evitar novas medidas radicais e generalizadas, eu compreendo, mas que não é bonito, lá isso não é.

Se com isto aprendermos que na próxima epidemia (e haverá sempre epidemias) talvez não seja boa ideia irmos atrás de quem pretenda potenciar a incerteza da epidema com inovação de políticas nunca testadas, já não seria mau.



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