Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Quem, como eu, em Janeiro de 2009 escreveu isto, não precisa com certeza de bater no peito e manifestar vergonha pelo que Sócrates fez ou deixou de fazer.
Sócrates é um politico de primeira água.
Sócrates é um político excepcionalmente dotado, com uma capacidade imensa de ler o mundo à sua volta, de perceber as relações de força nos diferentes grupos sociais, de se focar no que realmente toca os seus eleitores e, uma qualidade rara e preciosa num político, com uma grande capacidade para correr riscos, muito bem calculados, é certo, mas sem medo de os correr.
Sócrates não deixa cair os amigos. É certo que exige deles uma fidelidade canina, até é capaz de lhes ouvir críticas, desde que essas críticas não tenham qualquer efeito prático na sua reputação e imagem, mas cumprida esta condição, é um amigo sólido com quem se pode contar.
Em contrapartida, rompida a relação de confiança, é inimigo temível.
Por circunstâncias fortuitas, li o Príncipe na altura em que tive mais proximidade com Sócrates (uma proximidade relativa, nunca trabalhei directamente com Sócrates, mas estava no topo de um organismo público tutelado pelo Ministério em que Sócrates era Secretário de Estado, embora não exercese uma tutela directa sobre o organismo em causa) e isso ajudou-me a perceber que onde eu lia um livro profundamente moral sobre o poder, Sócrates provavelmente teria à cabeceira um livro sobre a mecânica do exercício poder sem moral, não porque o livro não tenha moral, mas porque Sócrates é, claramente, amoral.
Quando Vicente Jorge Silva escreve hoje "Como foi possível que pessoas como António Costa ..., Augusto Santos Silva ou Vieira da Silva tivessem posto uma venda nos olhos e seguido cegamente José Sócrates", Vicente Jorge Silva parte de um pressuposto errado, o que de que essas pessoas teriam uma venda nos olhos quando voluntariamente seguiram Sócrates.
Se hoje Sócrates anda às voltas com a justiça isso não é vergonha nenhuma para a Democracia, como sonsamente diz António Costa, pelo contrário, é mesmo o mais bonito da Democracia ser o único regime em que um antigo Primeiro-Ministro (como Sarkozy ou Craxi, para dar outros dois exemplos da superioridade democrática) está a contas com a justiça pelo que fez ou deixou de fazer, e não porque os seus inimigos o substituíram no poder, sem que isso provoque qualquer derramamente de sangue.
Se hoje Sócrates anda às voltas com a justiça é porque usou a mais completa ausência de critério moral no exercício do poder para acumular fortuna de forma ilegal.
O que o distingue de António Costa é o facto de, aparentemente, António Costa demonstrar a mesma ausência de critério moral, como demonstrou esta semana ao aproveitar a maior fragilidade de Sócrates para lhe dar um pontapé, como se dá um pontapé a quem já está caído, apenas para acumular poder, o que é legal, e não para acumular fortuna ilegalmente.
Esta diferença não é irrelevante, claro, por alguma razão uma coisa é legal e a outra ilegal, mas o que convém não esquecer é que do ponto de vista da amoralidade, Sócrates, Costa, Santos Silva, Vieira da Silva e muitos outros, têm demonstrado uma grande convergência, facilitada e alimentada pela profunda cultura sectária que está instalada em boa parte da militância do PS (existe em todos os partidos e outros grupos sociais) e das redacções dos jornais.
A chocante amoralidade de Sócrates, que sempre foi evidente e clara para qualquer pessoa com um mínimo de critério moral na avaliação do exercício do poder, afastou-me rapidamente de qualquer proximidade com Sócrates.
É a mesma chocante amoralidade que me mantém afastado, radicalmente afastado, de qualquer proximidade em relação a Costa e à forma como exerce e constroi poder para si e para o seu grupo: aquilo a que, na ausência de julgamento moral, tem sido apontado como uma grande capacidade negocial e habilidade política de Costa (de que a súbita vergonha da cúpula do PS resolveu manifestar esta semana é apenas um exemplo arrepiante) não é mais que um uso do poder sem o menor pingo de critério moral.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.