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Eduardo Jorge

por henrique pereira dos santos, em 03.12.18

Eduardo Jorge é tetraplégico e cansou-se de ser tratado como se o que quer fosse menos importante que o que os outros querem para o ajudar.

No essencial, cansou-se de tanta gente achar normal que para ter alguém escolhido por si, para tratar de si, o Estado lhe entregue no máximo 93 euros, mas se em vez de estar na sua casa, ao cuidado de pessoas que ele próprio escolhe, estiver numa instituição, o Estado paga mil euros à instituição, não é portanto uma questão de falta de dinheiro, é mesmo uma escolha nossa, de sociedade.

E quando o Estado, perante tão evidente aberração, começa a pensar na hipótese de talvez lhe entregar o dinheiro e o deixar escolher se prefere estar numa instituição ou em sua casa, aos cuidados de quem escolher, o Estado começa a impôr regras absurdas, como escolaridades mínimas e outras que tais, quando não quer, ele mesmo Estado, escolher a pessoa que cuida dele.

Por isso resolveu fazer um protesto que, no limite, punha a sua vida em risco, à porta da Assembleia da República, até que os poderes publicos olhassem para o assunto.

Lá foi Marcelo, levando uma Secretário de Estado consigo e talvez agora os poderes públicos se mexam. António Costa, com a cobardia que o caracteriza, não apareceu, como nunca aparece nestas circunstâncias. Ferro Rodrigues, na sua irrelevância, manteve-se irrelevante.

Tudo isto, no entanto, é relativamente menor (não para o Eduardo Jorge, claro, mas para todos nós), o que verdadeiramente nos deveria preocupar resume-se numa questão central: montar e aplicar um sistema de apoio à deficiência envolve centenas, quando não milhares de pessoas, desde técnicos, financeiros, decisores, etc..

Assim sendo, como é possível que nós todos, como sociedade, não sejamos capazes de produzir uma solução melhor que entender que mais importante que a vontade das pessoas directamente interessadas é a vontade do Estado em cuidar das pessoas directamente interessadas, da forma como o Estado entender?

É verdadeiramente deprimente que seja precisa a imensa coragem de Eduardo Jorge para nos confrontar com o imenso conforto da nossa pequena cobardia de não levantar ondas, não questionar os pequenos poderes instituídos no dia a dia, acabando por aceitar coisas que qualquer pessoa de bem considera evidentemente inaceitáveis, só porque nos parecem pequenas e não parecem ter muita importância quando comparadas com a fome no mundo.

Seríamos um país bem mais decente se fôssemos mais exigentes com as sarjetas mal mantidas e nos deixássemos de tanta atenção aos prémios de turismo do país e se nos preocupássemos mais com as vidas concretas das pessoas da nossa rua, ao menos nos intervalos dos esforços que dedicamos a resolver as grandes questões do mundo.

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12 comentários

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De Luís Lavoura a 03.12.2018 às 11:23

O Estado entrega mil euros à instituição, mas isso inclui cama, mesa e roupa lavada. Ou seja, inclui todo o sustento do Jorge. Não se pode comparar esses mil euros com os 93 euros para o cuidador, que não são supostos pagar a cama, a mesa e a roupa lavada (que ficam a cargo do Jorge). Ou não é assim?
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De Anónimo a 03.12.2018 às 14:45

Você devia ter vergonha na cara.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 04.12.2018 às 18:49

Luís,

A questão aqui é que é o Eduardo que deve decidir o que quer fazer aos mil euros.
henrique
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De Luís Lavoura a 05.12.2018 às 11:22

Não vejo porquê.
Na minha terra conheci duas idosas, acamadas e inválidas. Ambas tinham familiares a viver por perto. Uma delas, os familiares (pobres) não tomavam conta dela; iam lá a casa diariamente pessoas da Segurança Social que ajudavam a fazer a limpeza e levavam refeições quentes à senhora. Outra, tinha familiares (ricos) que tomavam conta dela, a alimentavam e lhe lavavam o quarto e a roupa; a Segurança Social não fazia nada. Ou seja, a Segurança Social apoia quem precisa e na medida do que precisa, não dá dinheiro a quem não precisa.
Alguns paraplégicos necessitam de mil euros para estarem numa instituição que tome conta deles. Outros paraplégicos, felizmente, não precisam de uma instituição, apenas precisam de um apoio, que custa menos de mil euros, então esse apoio deve ser-lhes dado, mas não mil euros.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 05.12.2018 às 19:50

Porque é a vida dele.
O Estado está disponível para gastar mil euros com ele, mas impõe que seja como o Estado quer, não lhe permite decidir que, com os mesmos mil euros, eu pode optar por uma solução que prefere.
A que propósito é o Estado a decidir, se é a vida dele que está em causa?
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De Luís Lavoura a 03.12.2018 às 15:05

Uma boa razão para o Estado dar o dinheiro à instituição e não o dar ao Jorge é que, se o desse ao Jorge, ele poderia ser roubado por algum seu familiar.
No filme "Feios, porcos e maus" há uma cena em que toda uma família pobre italiana vai conjuntamente com a avozinha dessa família ao guichet da Segurança Social para receber o cheque mensal a que a avozinha tem direito. Esse cheque serve, na prática, para toda a família comer - a avozinha vive na miséria.
Nada garante que, se os mil euros fossem dados ao Jorge, um seu familiar não ficasse com praticamente a totalidade deles, em troca de uns cuidados de muito má qualidade prestados ao Jorge.
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De Anónimo a 03.12.2018 às 17:09

DESTA VEZ...TEM UM BOCADINHO DE RAZÃO, MAS NAS TAIS ASSOCIAÇÕES QUE COBRAM OS TAJS MIL EUROS, NÃO HÁ  DA PARTE DO ESTADO A VERIFICAÇÃO   PONTUAL  DA  ASSISTÊNCIA PRESTADA?
NÃO   P ODERIA  ESSA "VERIFICAÇÃO"  SER DOMICILIARIA?
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De Luís Lavoura a 03.12.2018 às 17:26

Poder podia, mas seria muito mais cara.
Fica muito mais barato ao Estado verificar a idoneidade e qualidade dos cuidados prestados numa instituição que acolhe (digamos) 100 pessoas, do que verificar a idoneidade de 100 cuidadores diferentes em 100 casas diferentes.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 04.12.2018 às 19:12

É um argumento válido, mas como sabes, também pode ser roubado pela instituição ou mesmo pelo Estado.
Isso resolve-se com fiscalização, presença de proximidade dos serviços de apoio e repressão, não se resolve decretando que Eduardo Jorge é incapaz de saber o que é melhor para ele
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De Anónimo a 03.12.2018 às 17:40

Atenção 1000 euros para cuidar é pouco faltam os sábados domingos ferias e a noite, e claro a comida agua luz e telefone, mesmo renda de casa etc. . É um grande problema para o Rogério fora da Instituição  
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De Martim Moniz a 04.12.2018 às 10:20

O que está mesmo na "moda" é pedir "mundos melhores" em tecno-foruns( e outros foruns,o orçamento paga as viagens todas e as estadias inclusiva a feiras do livro mexicanas) pois o resto ( o país e afins) é hoje em dia paisagem para os "iluminados" que nos (des)governam.
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De Anónimo a 05.12.2018 às 10:53

O Martim Moniz não foi o que ficou entrancado no portão para deixar passar a invasão até morrer?!
Como  é que alguém se vai preocupar em limpar  sarjetas neste tempo moderno?!

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