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Sejamos claros: para os media portugueses, com as televisões à cabeça, Donald Trump é mentiroso e estúpido (aliás, como os americanos), xenófobo, misógino, perigoso e imprevisível. Toda a «informação» transmitida pelos media portugueses sobre as primárias americanas enferma desta convicção. Sob a força desse preconceito, dessa aflição subjectiva, os media portugueses tornam-se, assim, objectivamente estúpidos (porque não veem, não ouvem e não compreendem o que extravase essa monomania) e objectivamente mentirosos (porque o que se passa extravasa aquilo que eles contam).

 

O discurso de Donald Trump, há meses, perante o American Israel Public Affairs Committee teria dado a quem porventura tivesse tido acesso a ele uma oportunidade de verificar como o candidato republicano é competente na explanação de um programa e no anúncio de mensagens fortes e dirigidas a problemas concretos, perante plateias não necessariamente receptivas. Ontem, no discurso de aceitação da nomeação para candidato à presidência americana, Trump teve a primeira oportunidade de apresentar as suas ideias, não apenas à  plateia republicana, mas à plateia de todos os Estados Unidos. Presos na sua narrativa sobre xenofobia e autoritarismo, os media portugueses não compreenderam, obviamente, a eficácia do discurso.

 

Em termos gerais, o discurso de Trump seguiu três tónicas principais: ele é o campeão do «little people» contra os interesses instalados (a que sempre cola Hillary Clinton); ele é o campeão da lei e ordem, contra a apatia e o politicamente correcto; ele é a novidade que a América ainda não experimentou para regressar à riqueza e ao respeito internacional.

Ora, acontece que estas três linhas de força confrontam directamente problemas americanos muito reais e sentidos, elas encontram ouvidos muito receptivos entre as vítimas do desemprego, do congelamento de salários e da ascensão social, dos recentes surtos de violência racial de origens diversas, dos atentados terroristas mais antigos ou o mais recente contra um bar gay, da deslocalização de empresas, e despertam a atenção entre os descontentes com as trapalhadas e desastres no Médio Oriente ou a ameaça chinesa...

 

Em termos nacionais e específicos, o discurso de Trump conteve mensagens muito claras, interessantes e calendarizadas para importantes sectores específicos dos eleitores. Ele dirigiu-se directamente a operários, comerciantes, pequenos empresários, agricultores, e à população afro-americana, e à população latino-americana (sim, ao contrário do que dizem os media portugueses, Trump tem políticas e apoiantes nesses sectores), às mulheres na sua situação familiar e profissional, à comunidade gay (suscitando um aplauso numa convenção republicana!!!) e aos evangelistas (para prometer liberdade de expressão política a todas as confissões religiosas). E com propostas claras e calendarizadas falou de saúde, educação e economia, dirigindo-se à população em geral, mas também, claramente, num gesto apaziguador para com o eleitorado republicano tradicional.

E mais: a história familiar, pessoal e profissional de Trump tornam a sua abordagem destes problemas particularmente crível.

 

Em termos de política externa, Trump foi ainda mais claro: muito mais relevante do que o aniquilamento do estado islâmico, «agora, já», ele prometeu o fim das políticas de «nation building», essa atitude de «farol da democracia» que meteu os EUA (e o Mundo) em trágicas trapalhadas no Iraque, na Síria, na Líbia e no Egipto. Os media portugueses verão seguramente nisto «isolacionismo» e «egoísmo» (não haveria como ganhar: o contrário seria «imperialismo»). Qualquer pessoa razoável apenas suspirará de alívio.

 

Ou seja: eu verei a convenção democrata com igual atenção daqui a uma semana, mas não me parece, para já (a julgar até pela confrangedora pobreza das suas réplicas tweetadas), que Hillary se aguente no balanço. 

 



21 comentários

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De João Távora a 22.07.2016 às 19:17

Ó José, a escreveres sacrilégios assim, suspeito que vais ter que viver na clandestinidade. Sorte (?) não teres conta nas redes sociais, que tinhas que piar mais fino. Não me comprometas que eu tenho quatro crianças para criar.

Abraço!
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De José Mendonça da Cruz a 22.07.2016 às 23:09

Meu caro João, é natural que a minha formação e prática jornalística choque de frente com a de quem se recusa a olhar e tentar compreender. No «tempo novo» tudo o que seja tentar olhar e compreender é, obviamente, sacrílego e perigoso. Ah... e anti-patriota, é claro.
 Abraço!
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De António Monteiro a 23.07.2016 às 07:24

Eu sempre alertei para a possibilidade de Donald Trump ganhar, mas ninguém me ouviu...
Olhar para as eleições americanas com olhos de europeu, não ganha eleições (lá)...


António Monteiro
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De JS a 22.07.2016 às 19:36

Muito bom. Acesso a uma plateia maior por cá, esqueça. Tropeça na fasquia.
Por cá a H. Cliton ganhava com uma perna às costas. (no pun intended).
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De José Mendonça da Cruz a 22.07.2016 às 23:22

... sendo que não há melhor pun do que o unintended
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De carlão a 22.07.2016 às 20:46

É isso, jovem, toca a apoiar o maluco e a lançar o mundo numa guerra.
Qualquer pessoa de bom senso quer isso.
Palmas para esta publicação.
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De José Mendonça da Cruz a 22.07.2016 às 23:14

Jovem não, longe disso.
Apoiar o maluco não vejo como. Compreendo que o seu olhar e o seu juízo não vão além das poses do Trump, da linguagem gestual e corporal do Trump, do cabelo e da popa do Trump.
E como é que o Trump lança o mundo numa guerra, vejo menos ainda, depois do compromisso de retirar a América do papel de «farol da democracia» e «construtora de nações» que, como vimos, resultaram tão bem no Iraque, na Líbia, no Egipto e na Síria. 
Mas pronto, bom senso para si e os media portugueses é isto: não ouvir nem perceber nada, olhar para as escolhas surpreendentes de milhões de pessoas e decidir: «Ah, são todos estúpidos!»
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De carlão a 23.07.2016 às 14:00

mas não está na cara que este sujeito é outro Bush? não é evidente para todos que é um cowboy ignorante e tresloucado para quem o mundo é a América e o resto é só o resto? promete acabar com o Daesh! O daesh está a rezar para que ele ganhe. Gostava de saber o que é que não percebe nisto. Também será bom que ganhe a Le Pen em França?
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De Nuno a 22.07.2016 às 21:04

Já os políticos portugueses, que são fantásticos para media portugueses, o melhor que conseguem, é mandar o país várias vezes para a bancarrota.
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De Nelson Reprezas a 22.07.2016 às 22:17

Finalmente, uma visão inteligente do tema. E cumprimento-o por isso.
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De José Mendonça da Cruz a 22.07.2016 às 23:21

Obrigado. Sobretudo quando, confesso, não esperava mais que reacções descabeladas à la Galamba e demais carroceiros
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De carlão a 23.07.2016 às 17:10

É muito inteligente, é. Eu que sou de esquerda mas não sou cego, não recomendaria o Maduro a ninguém, enfim.
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De hajapachorra a 22.07.2016 às 22:27

Entre um candidato péssimo e uma candidata péssima vem o Mendonça e escolhe. Recuso-me a escolher entre cavalgaduras como costa e passos. Bom proveito para quem gostar do género ou estiver necessitado
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De José Mendonça da Cruz a 22.07.2016 às 23:15

Se fosse eu a escolher, não sendo americano e segundo os meus interesses, perguntava-me: quem -- Trump ou Clinton -- me promete uma política externa mais razoável e segura? Compreende a resposta?
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De PiErre a 23.07.2016 às 09:36

O hajapachorra não entende nada.
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De Hajapachorra a 24.07.2016 às 00:11

Se fosse a escolher... Qual o interesse da 'sua' resposta a uma pergunta absurda? Vá, não deixe as meninges em ferida.
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De André Miguel a 23.07.2016 às 20:16

Finalmente uma análise como deve ser. Parabéns.
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De Anónimo a 24.07.2016 às 19:00

Pedro. Eu não gosto dele. Mas uma prima minha que é investigadora numa das faculdades em NY disse- me,não menosprezes o Trump!. Ele tem um império solido.Sabe rodear-se de pessoas altamente qualificados.
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De l. rodrigues a 25.07.2016 às 12:38

Tradicionalmente, a política externa tem tido muito pouco peso nas eleições americanas, creio. 
De qualquer modo, Trump parece ser um candidato populista no pior dos sentidos, dizendo simplesmente o que a sua audiência do momento quer ouvir. 
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De slade a 25.07.2016 às 12:40

Para tentar compreender tenho primeiro de ver claro, o que o tipo-Trump não permite (pois não pode permitir). Se fosse possível ver claro, a contradição seria óbvia, a demagogia não pode colar com a racionalidade.
A clareza que o autor deste post vê nas palavras do tipo-Trump só é possível porque, do limbo onde o tipo-Trump se coloca, já há muito o autor deste post escolheu no que acreditar.
O problema não é a eficácia do discurso, é a sua validade; ou, se não queremos ir tão longe, a sua possibilidade. O discurso de Trump simplesmente não é possível. É postiço por ser postiço. Cabe tudo num poço sem fundo, é certo, mas e depois?
Hillary é falsa logo na sua conceção, reconheço-o, mas essa falsidade é também a sua legitimidade; enfim, como disse antes, a sua inequívoca possibilidade. Vai por onde pode ir, pois não é possível ir para todo o lado ao mesmo tempo.
No meio disto já não sei quem o conservador! Julgava que era o autor deste post, mas afinal parece que sou eu...
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De José Mendonça da Cruz a 25.07.2016 às 23:16

Meu caro slade, depois das boas vindas que sempre terá, deixe-me confessar que a única coisa que me faz não ter pena de o ver usar um pseudónimo é o pseudónimo que escolheu, o vale entre picos (ou será extremos?), não com certeza a acepção de pimpão que «slade» também pode ter.
Este slade do pseudónimo lembra-me aqueles meus amigos-amigos com quem discordo em praticamente tudo. E que desisti de converter, e eles a mim. Mas a impressão que vai deixando é que apesar do pseudónimo centrista, afinal não se sente bem no slade, está mesmo incómodo. Primeiro, porque lança rótulos e juízos categóricos com grande ligeireza sobre quem não pense como ele; segundo, porque antes puxa para um dos extremos -- que é o contrário do meu. Se não fosse assim, como explicar que o Trump seja o tipo-Trump (uma maneira sofisticada de ficar preso na rama, ou seja, nas boquinhas, linguagem gestual e penteado do homem) e a Hillary seja a «possibilidade inequívoca», que é uma maneira elegante de dizer que não sabe que pensar dela porque ela pouco tem a dizer?
Pois é. Arrumar o Trump no tipo-Trump é um método mais elegante do que o rasteiro preconceito da comunicação social, mas é a mesma exacta maneira de ficar cego e surdo. Só um preconceito extremo permite este raciocínio: «não percebo o que o Trump diz; se eu percebesse o que o Trump diz eu teria que aprovar; se acaso gostasse restar-me-ia achar que é impossível; para meu descanso, mais mais vale achar impossível e chamar-lhe tipoTrump». 
A chatice é que aquilo que para os cegos e suros é impossível, para muitos eleitores é o que tantas vezes pediram e ninguém ouviu: regulação da imigração (e ela está desregulada, com prejuízo até dos legalizados, que, portanto, ouvem Trump), ordem nas ruas (e não é uma ideia mesquinha; até Nova Iorque deixou de se rir e agradeceu quando Giuliani devolveu a cidade à normalidade do asseio, e do prazer de passear à noite, ir ao teatro e jantar); segurança (ou seja, aniquilação do EI e menos aventuras externas); um módico de proteccionismo (porque as deslocalizações roubaram situações e futuros); além de algumas promessas concretas, claras e possíveis, entre outras a de salário igual para trabalho igual às mulheres, ou de protecção aos gays.
O problema é esse mesmo, o da possibilidade: muitas das promessas de trump são tão simples (diga «primárias» quem preferir a expressão), tão possíveis, que até a CNN (tão imparcial e objectiva como a Sic cá) se assustou. Pelos vistos, o slade também.
Sempre atento, venerando e a considerá-lo.
Um abraço

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