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E doentes, há?

por henrique pereira dos santos, em 26.09.20

Sim, claro que há, mas raramente são o centro da informação sobre a epidemia.

Por puro acaso, nos últimos dois ou três dias tenho estado em frente a uma televisão na altura em que o telejornal (uma jornalista da SIC, com quem conversava de vez em quando, corrigia-me sempre que eu falava do telejornal da SIC, porque o telejornal era da RTP, mas é como o cimbalino no Porto, que nem sempre é tirado em máquinas Cimbali) principal da SIC falava da covid - que aliás ocupa grande parte do notíciário - e acabo sempre a ir verificar os dados dos países que vão sendo citados, de tal forma a imagem com que fico do que ouço na televisão é distante da que tenho na cabeça, resultante de uma visita diária matinal aos números. A coisa é de tal maneira que fico com genuínas dúvidas sobre se terei visto bem os dados.

Por exemplo, quer Espanha, quer a Suécia eram citados ontem como países onde estão a ocorrer crescimentos imensos da epidemia, quando o que se vê nos gráficos é o que está abaixo.

sue mor.jpg

sue cas.jpg

esp mor.jpg

esp cas.jpg

O mesmo se passa com o Observador, que agora se entretém, dia sim, dia sim, a fazer umas coisas sobre os recordes de casos que todos os dias são batidos.

Ao mesmo tempo, o mesmo Observador, publica este texto de opinião em que se lembra, e bem, o que é a intervenção médica clássica e como ela tem vindo a ser prevertida com invenções que nunca foram aplicadas antes e cujos efeitos benéficos estão por demonstrar, enquanto os efeitos negativos são já evidentes.

Sobre o fundamento das medidas preconizadas pelo fascismo sanitário - cujas consequências estão muito bem descritas por João Távora num post do Corta-Fitas anterior a este - tenho visto poucas coisas, em Portugal, mais esclarecedoras que esta entrevista de Filipe Froes.

Comecemos pelo desligamento da realidade social que Filipe Froes demonstra, logo ao início da entrevista, ao mostrar uma máscara nova, dizendo que acabou de a trazer do hospital. Eu sei que é um pormenor ínfimo, mas a verdade é que Filipe Froes está a demonstrar a natural cegueira do privilegiado em relação ao seu privilégio. Filipe Froes, que defende o uso de máscara em numerosas situações, e defende que esse uso seja feito de acordo com regras sanitárias muito estritas, incluindo a sua substituição frequente por outra nova, está a explicar que milhares de pessoas que ganham muito menos que Filipe Froes estão a pagar-lhe as máscaras que usa, mesmo em contextos privados como o de uma entrevista. Ao fazê-lo com a desenvoltura de quem acha isso natural, está a demonstrar não ter a menor ideia, ou pelo menos o menor respeito, pela dificuldade que milhares de pessoas de muito baixos rendimentos terão para usar três ou quatro máscaras por dia, acrescentando uns 50 euros por mês de despesas aos seus magros orçamentos. Esse problema nem sequer existe para Filipe Froes e portanto desconhece que por mais obrigatório que seja o uso de máscaras, elas nunca vão ter o efeito que pensa pela simples razão de que as pessoas as usarão de formas totalmente erradas, não garantindo os tais efeitos positivos que alguma literatura descreve, no pressuposto de que as máscaras são usadas correctamente.

Como disse, este é um pequeno pormenor, mais relevante é o paralelismo de bom senso que Filipe Froes estabelece ao considerar que não sendo possível fazer testes de evidência com grupos testemunha no uso de máscaras e saltos de pára-quedas, é razoável equivaler a atitude de não usar máscara à atitude de saltar de um avião sem pára-quedas. Não sou eu que estou a exagerar, é mesmo este o nível da argumentação usada para fazer a defesa do fascismo sanitário.

Mais grave é, por exemplo, uma leitura totalmente ilegítima de um estudo publicado na Lancet ali por volta dos 11 minutos da entrevista, em que Filipe Froes simplesmente sugere que o estudo que cita diz que as máscaras podem oferecer uma protecção de risco de infecção até 85%, quando na verdade não é nada disso que o estudo diz, sendo extraordinária a forma como lê uma parte do estudo, até que introduz, sem aviso, uma conclusão sua, que o estudo não suporta.

Saltemos por cima da sua opinião de que os portugueses não podem ser responsáveis por si próprios e portanto têm de ser protegidos por iluminados como Filipe Froes, razão pela qual a gestão da epidemia feita pela Suécia nunca poderia ser usada em Portugal e saltemos pelas fábulas das centenas de milhar de óbitos que existiriam se a abordagem fosse outra, que Filipe Froes se escusa de demonstrar ou fundamentar seriamente (é absolutamente inacreditável a resposta à objecção de que a percentagem de jovens em cuidados intensivos é muito reduzida, uma evidência impossível de negar, a que Filipe Froes resolve responder com uma piada de mau gosto, dizendo que para os que lá estão a percentagem é 100%).

Mas o que verdadeiramente caracteriza esta entrevista é a afirmação (por volta do minuto 30) de que as excepções de evolução grave da doença em jovens são em muito maior número na covid que na gripe. Isto é simplesmente falso - eu sei que Filipe Froes responderá que não é da gripe mas das pneumonias que as pessoas morrem, como se não estivesse mais que demonstrada a associação entre os picos de gripe e doenças pulmonares e a morte subsequente às respectivas complicações - e claro que Filipe Froes sabe que a mortalidade nos grupos etários mais baixos é muito maior por causa das gripes e doenças semelhantes que por causa da covid, isso está perfeitamente documentado neste momento.

O que isto quer dizer é que não se trata de ignorância (como dizia recentemente um comentador dos meus posts, Filipe Froes sabe mais disto num dedo mindinho, e a dormir, que eu inteiro acordado, o que é verdade), trata-se da execução de uma missão evangélica (como são características as referências à honestidade própria, à imensa dedicação, às horas de trabalho, à sua intervenção na salvação dos seus semelhantes, ao longo de toda a entrevista, por oposição à corrupção moral de todos os que discordam do profeta) que, como é normal no tipo de pessoas que se atribuem a si próprios missões transcendentes, não hesita em recorrer à mais evidente mentira para salvaguardar a grande missão (pungente, a forma como Filipe Froes leva a mão ao peito para falar das pessoas cujo prognóstico foi agravado pela falta de resposta do sistema de saúde, em consequência da estratégia de gestão da epidemia adoptada, para logo concluir que isso são meros danos colaterais da salvaguarda de um bem maior para todos).

E, no entanto, ao fim deste tempo todo, ficamos sempre com uma pergunta por responder: e doentes? Quantos há em cada momento? Com que consequências? Com que evolução?

Não sabemos porque médicos resolveram esquecer-se de que o doente é o centro da sua preocupação, para se passarem a preocupar com resultados de testes laboratoriais.

Se alguma vez eu tivesse dúvidas sobre as vantagens da democracia face à tecnocracia e, consequentemente, das vantagens de ter pessoas comuns a fazer política e influenciar as decisões para todos em detrimento do excesso de peso dos especialistas, esta epidemia ter-me-ia ter tirado todas as dúvidas: eu não quero o evangelista Filipe Froes a tomar decisões sobre a minha vida sem que para isso tenha passado pelo processo de legitimação social que são as eleições.



13 comentários

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De Antonio Maria Lamas a 26.09.2020 às 11:16

Excelente.
Deve ser porque a sua ( e de muitos outros) opinião está fora da bolha é que nunca mais o convidaram para TV alguma. Nem por causa do Covid nem por causa dos incêndios, pelo que se viu de cobertura nos telejornais, terão sido pouco mais que fogueiras de S. João.
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De Anónimo a 26.09.2020 às 16:22


Entre uma população que já está a sofrer do sindroma de Estocolmo, media que foram comprados (cá com os 16 milhóes do Sr Costa mas o mesmo se fez em outros países) para não mais fazer que campanha do medo e supressão de opiniões - e factos - divergentes, políticos que todos contentes rebentam com os restrições orçamentais porque - COVID - e querem impor medidas de regimes totalitários, farmacêuticas e lobbies que capitalizam brutalmente com fundos comunitários e de todos os Estados, parece que ninguém está interessado em ouvir.
Ainda hoje está a ocorrer em Londres uma manifestação imensa de pessoas que denunciam a situação. Vão ser rotulados como habitualmente de conspiracionistas, anti-vacina, extrema-direita, o que mais se lembrarem, só porque a comunicação não  consegue esconder o facto que - são muitos. E em muitas outras capitais europeias.

São talvez os mesmo que quando invadiram o Iraque, vieram para a rua denunciar a tão óbvia mentira das armas de destruição maciça. Ou os mesmos que votaram o Brexit. Que "estranheza". São certamente todos pessoas maluquinhas ou mal-informadas, afinal a nossa televisão dá-nos tudo o que precisamos. Deve ser a informação deles que não presta, ou então são todos burros.
O que agora se está a fazer, não é menos óbvio do que as WMD do Iraque. E quando terminar já não fará diferença como começou, porque o problema social e económico estará gerado, com multidões de pessoas desempregadas e descontentes prontas a receber a "verdade" que os salve.
A gripe chinesa mata pouco mais pessoas que uma gripe normal. Tudo o resto, no campo da saúde, social ou económico, será consequência das acções dos responsáveis políticos e médicos. Já morre mais gente por falta de assistência devida ao COVID do que do próprio COVID.
É tão óbvio e feito às claras que até dói. A informação oficial está repleta de evidências.
Deixo 3 ponteiros para quem quiser fazer as perguntas certas:
"USA Official CDC Weekly report on COVID"
https://www.cdc.gov/nchs/nvss/vsrr/covid_weekly/index.htm#Comorbidities
"Fox News: Milwaukee County: 410 of 412 COVID deaths were due to other causes"
https://www.bitchute.com/video/WUckUHM0md3M/
(este só está no bitchute porque foi "prontamente" censurado do Youtube - o bitchute tem algumas coisas boas mas infelizmente também muito "lixo")

World Economic Forum: The Great Reset
https://www.weforum.org/great-reset/
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De V.Valente a 26.09.2020 às 12:10

Nao quer um tecnocrata a decidir a sua vida.  Mas se esse tecnocrata se chamasse Tegnell já estava tudo bem...
Haja pachorra !!!
O seu pupilo da noruega queixa-se que foram politicos a decidir..... o HPS queixa-se que foram tecnicos....
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De balio a 26.09.2020 às 17:59

Tegnell não decidiu da vida de ninguém. As pessoas no país dele sempre continuaram a ser livres de fazer o que quisessem. A embaixatriz do país dela até explicou aos portugueses que no país do Tegnell a constituição não permite suprimir liberdades como se faz em Portugal.
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De henrique pereira dos santos a 26.09.2020 às 23:53

Está a fazer comentários sobre alguma coisa que eu tenha escrito ou dito, ou está a fazer comentários sobre o que acha que eu diria se tivesse falado do que comenta?
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De balio a 26.09.2020 às 17:51


[as] máscaras nunca vão ter o efeito que pensa pela simples razão de que as pessoas as usarão de formas totalmente erradas, não garantindo os tais efeitos positivos que alguma literatura descreve, no pressuposto de que as máscaras são usadas correctamente



Não acredito que isto seja bem assim. Uma máscara, mesmo que usada incorretamente, mesmo que suja, certamente que fornecerá alguma proteção. Sendo que, aparentemente, o vírus se transmite preferencialmente quando uma pessoa expele ar com força (ao falar alto, gritar, cantar, etc), uma máscara em frente da boca, mesmo que mal utilizada, sempre diminuirá algo o fluxo de vírus que sai dessa boca.
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De balio a 26.09.2020 às 17:57


as vantagens de ter pessoas comuns a fazer política e influenciar as decisões para todos em detrimento do excesso de peso dos especialistas



Concordo totalmente com o Henrique neste ponto. No entanto, faço notar que são os partidos de direita que gostam de colocar especialistas, sobretudo médicos, em posições de poder sobre as pessoas, nomeadamente em questões como o aborto ou o suicídio assistido. São os partidos de direita que gostam de colocar um especialista em posição de impedir as pessoas de tomar uma opção livre sobre a sua vida.
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De lucklucky a 27.09.2020 às 11:40


No aborto há 2 vidas, 2 corpos, 2 barrigas e duas opções sobre a vida . Não compare o Aborto à Eutanásia.



lucklucky
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De voza0db a 26.09.2020 às 18:35


No último parágrafo entraste em estado de delírio... Tu, e eu e a restante manada de boçais tugas, JÁ ESTÁS a ter a "tua" vida condicionada por um bando de tecnocratas que nem para estrumar um Belo Campo de Erva servem, pois matariam toda a Erva...


Os políticos e governantes que estão no PODER, eleitos por uma minoria, são ignorantes até a dormir. E basta olhar para muitos deles que é fácil compreender que de Saúde e Bem Estar eles não entendem nada.


Quanto ao salafrário, corrupto e ignorante primeiro-ministro, deixo apenas o que ele afirmou publicamente em 28JUN20:

"Há uma enorme diferença entre uma vacina e um antibiótico. É que a vacina serve para nós ficarmos imunes aos vírus, os antibióticos é para combater os vírus"
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De Susana a 26.09.2020 às 19:20

Mais grave ainda do que ter o senhor especialista Froes a debitar mentiras e falsear discurso é não haver UM jornalista que lhe faça o contraditório. É confrangedor.
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De s o s a 26.09.2020 às 23:42

num texto (post) demasiado longo para ser lido a esta hora ( de sonolencia) .. Pergunto : qual é o seu problema ?
Nao concorda com o sujeito que refere, os seus leitores habituais saberao porque, eu nao. 
A terra é plana, defende o nao confinamento,  liberdade para a cpvid ? 
Tudo, nao é suficiente para eliminar a covid, "nada" tambem evidentemente que nao.
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De Makiavel a 27.09.2020 às 11:35

Um excelente contributo. Bravo, caro Henrique Pereira dos Santos. Destaco a dicotomia democracia versus tecnocracia.
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De Jota a 28.09.2020 às 13:12

Os Telejornais passaram a relatar com ferocidade os números de infectados, quando antes se falava de número de mortes diários. Agora este número é secundário, aparece como rodapé, pois provoca maior choque e alarme dizer milhares de infectados, com os recordes especialmente notados, do que dizer dezenas de mortes quando antes eram centenas ou milhares...

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