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Donoso e Tocqueville: as conclusões do liberalismo

por Daniel Santos Sousa, em 17.08.23

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É curioso que dois liberais tenham testemunhado o mesmo evento, a “Primavera dos Povos” de 1848, contudo arrancando conclusões diferentes. Falo de Donoso Cortès e Alexis de Tocqueville. Ambos eram aristocratas católicos que percorreram animados as premissas do liberalismo, concluindo com o passar do tempo em posições antagónicas que os demarcaram. Na biografia separava-os quatro anos de existência, de resto vivenciando as décadas atribuladas do princípio do século XIX. Contudo, um episódio em comum marcou-os no ano de 1848, em Paris: o testemunho da revolução que fez cair a monarquia de orleãs e instituiu a desordem das barricadas, um mesmo Marx sublinharia o paradoxo ao constatar que a "história repete-se primeiro como tragédia e depois como farsa."

Na esteira dos princípios Donoso renasce convencido dos erros das revoluções e da insuficiência do liberalismo. Momento assinalado na carta ao conde de Montalembert, em 1849, oferecendo a pista ao seu pensamento político: "Mi conversión a los buenos principios se debe, en primer lugar, a Ia misericordia divina, y después, al estudio profundo de las revoluciones".

Enquanto que Tocqueville se definirá como um "liberal de uma nova espécie", Donoso, que começou como liberal, rompe com o movimento, aderindo ao ultramontanismo. A partir das premissas católicas formula uma das maiores teorias do pensamento político do século XIX: "en toda gran cuestión política va envuelta siempre una gran cuestión teológica.”

Mas ambos os autores concordam num ponto, que a religião é essencial à sociedade, apenas divergem na conclusão. Talvez porque Donoso pensa como teólogo e Tocqueville como sociólogo: “porque el espíritu católico, único espíritu de vida, no lo vivifica todo: la enseñanza, los gobiernos, las instituciones, las leye sy las costumbres.” O fundamento da liberdade está na moral e esta necessita da Fé. Tocqueville professa: "La liberté n'existe pas sans morale, ni la morale sans foi".

Onde Tocqueville encontra virtudes na moderação do sistema representativo, Donoso vê apenas a “gangrena” das civilizações: “El principio electivo es de suyo cosa tan corruptora que todas las sociedades, así antiguas como modernas, en que ha prevalecido, han muerto gangrenadas."

Ambos ficam horrorizados com as barricadas e o terror revolucionário constatando na formação de uma nova força política: o socialismo, como Tocqueville não deixará de notar: "J’y vis la société coupée en deux: ceux qui ne possédaient rien, unis dans une convoitise commune; ceux qui possédaient quelque chose, dans une commune angoisse."

Donoso não tem uma ideia muito distinta, ainda que no seu âmago possa acompanhar outras proposições, como deixou explicito em carta ao cardeal Fornari: "el catolicismo no es amigo de las tiranías ni de las revoluciones, sino que sólo él las ha negado; no sólo que no es enemigo de la libertad, sino que sólo él ha descubierto en esa misma negación la índole propia de la libertad verdadera."

Daqui arrancou Donoso as suas ilações formuladas num texto memorável "Discurso Sobre a Ditadura". Na constatação do autor,  esta surgia como uma ultima ratio à ignominia da revolução. Enquanto Tocqueville rejeitava qualquer tipo de tirania, fosse de uma maioria contra uma minoria, fosse de uma minoria contra uma maioria, Donoso não deixa de proclamar como é necessário a ditadura de cima, porque esclarecida, contra aquela que vem debaixo, anárquica e destrutiva, deixando as linhas magistrais que Carl Schmitt recuperaria no século XX para o seu decisionismo: "Se trata de escoger entre la dictadura que viene de abajo y la dictadura que viene de arriba; yo escojo la que viene de arriba, porque viene de regiones más limpias y serenas; se trata de escoger, por último, entre la dictadura del puñal y la dictadura del sable; yo escojo la dictadura del sable, porque es más noble."

Em suma, Donoso poderia concluir a partir da sua conversão e da negação do liberalismo diferentemente de Tocqueville, e em comunhão com De Maistre e Bonald, não pela necessidade de uma "revolução contrária", mas efectivamente apelando, ao "contrário de uma revolução."


4 comentários

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De pitosga a 17.08.2023 às 20:33


Daniel Santos Sousa,
Muito bom texto. Visões e contrastes.

Continue.
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De Anónimo a 18.08.2023 às 20:19

"no sólo que no es enemigo de la libertad, sino que sólo él ha descubierto en esa misma negación la índole propia de la libertad verdadera."  No alvo.


Parabéns pela lembrança dos que merecem ser lembrados.
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De balio a 18.08.2023 às 21:34

É-me difícil entender o que possa o "liberalismo" de aristocratas católicos (!) do século 19 a ver com o liberalismo de aqui e agora.
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De O apartidário a 19.08.2023 às 09:35



19 ago. 2023, 00:21 no Observador

Como cá o dr. Costa, o sr. Sánchez mostrou em Espanha que, no que toca à Ibéria, a esquerda não volta a perder eleições. O método é simples. Se o partido socialista (o deles ou o, salvo seja, nosso) ganha com maioria absoluta, os socialistas vão naturalmente para o governo. Se ganha com maioria relativa, os socialistas aliam-se a meia-dúzia de fanáticos disponíveis e vão para o governo. Se perde, os socialistas aliam-se a duas dúzias de fanáticos com toda a sorte de exigências e vão para o governo. O observador distraído diria que o principal partido da “direita”, o PSD ou o PP, beneficia de iguais regalias, mas o observador distraído está enganado.

Isto porque algures nos finais de 2015 entrou em vigor na Península uma lei não escrita, excepto em boa parte dos “media” e nas cábulas dos comentadores avençados, segundo a qual o principal partido da “direita” não pode fazer alianças ou acordos à toa. Aliás, não pode fazer alianças ou acordos de todo, sob risco de “normalizar” (o termo em voga) as forças de “extrema-direita”, conceito nebuloso e flexível que compete aos socialistas estabelecer. Os socialistas podem, e devem, juntar-se a comunistas, trotskistas, independentistas, terroristas, mercenários e, se for o caso, canibais moderados. Os não socialistas estão impedidos de se juntar a qualquer força política a que os socialistas chamem “radical”. “Radical”, no léxico oficioso, não é o partido que nega a existência do Gulag, tenha cadastro na ETA ou reclame a implosão da própria soberania: é apenas o partido que facilite o acesso da “direita” ao poder, ou a “direita” em geral. Conforme as centrais de propaganda dos socialistas explicam pedagogicamente, é assim que funciona o parlamentarismo.

Engraçado: da penúltima vez que vi, as democracias parlamentares eram diferentes. O partido mais votado formava governo e o rival ia para a oposição. Tratava-se de um sistema simples, quiçá simplório, com a agravante de permitir que, de quando em quando, a “direita” vencesse de facto. Sucede que o bem-estar dos povos, ainda que contra a vontade destes, não aconselhava a perpetuação de semelhante desordem e impunha acções urgentes que a impedissem. Vai para oito anos, o dr. Costa, um videirinho típico, estendeu o tapete a trupes de heróicos resistentes à liberdade e o resto é história, a história de duas democracias recentes que resolveram partir em marcha acelerada rumo aos encantos da América Latina.

Alberto Gonçalves no Observador
https://observador.pt/opiniao/o-jogo-que-a-direita-aceitou-perder/

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