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Do teatro

por henrique pereira dos santos, em 01.08.18

Num comentário que fiz noutro lado, acabei a juntar a exclusividade da deputada Catarina Martins com a exclusividade do presidente de câmara António Costa.

Na verdade são coisas muito diferentes.

António Costa usou uma interpretação criativa da lei para aceitar que o pagamento de serviços pela produção de comentário político na quadratura do círculo fosse paga como direitos de autor, o que lhe permitia receber 7 mil euros por mês por essa prestação de serviços, e cinco mil como presidente de câmara em exclusividade (doutra maneira o seu ordenado como presidente de câmara seria metade), para além de um benefício fiscal simpático. É uma típica esperteza saloia para sacar mais dinheiro ao contribuinte, nada mais que isso, matéria que em Portugal é mais um medalha que um estorvo.

Quando Catarina Martins simula uma venda à família de uma empresa da qual é dona em 50% para se poder apresentar como deputada em exclusividade (podia ter mantido a actividade de empresária, foi uma opção de Catarina Martins) tenho poucas dúvidas de que o que a motivou não foi o poder encaixar qualquer coisa mais pela exclusividade, mas o teatro político a que o Bloco se entrega desde a sua fundação: era preciso distinguir politicamente os deputados do Bloco, exclusivamente empenhados na representação política dos seus eleitores, sem quaisquer interesses económicos pessoais à mistura e, para isso, era fundamental ser deputada em exclusividade de funções, ou as funções paralelas serem daquelas que não causam mossa ao discurso do Bloco, como professor numa universidade pública, artista e coisas assim.

Toda a história da Catarina empresária parece-me um assunto menor e um fait divers, mais que isso, para mim, como eleitor, prefiro saber que os que me representam são pessoas como eu e não heróis, parece-me muito mais tranquilizador.

Nem mesmo a utilização de fundo europeus e coisas que tal me parece levantar qualquer dúvida: eu posso achar que seria bom que andássemos mais de transportes públicos, ao mesmo tempo que perante situações concretas me pareça que ir de carro é a melhor solução, isto é, parece-me absurdo exigir uma coerência total entre o que se defende e o que se pratica (o que seria se todos os católicos praticantes de Portugal se decidissem por uma prática radical do que defendem).

O problema de Catarina, e de qualquer dirigente de partidos assentes no sectarismo da superioridade moral, é mesmo a sua preocupação com o teatro, é a sua opção de pretender elevar a fasquia moral a um nível que é o dos santos, e não o das pessoas comuns, adoptando uma imagem pública que nem sempre corresponde à vida real das pessoas.

A vida dos dirigentes do Bloco é entendida como um símbolo político e não como aquilo que é: a vida normal de pessoas normais.

Para essas, as pessoas comuns, como a Catarina e eu, era incomparavelmente mais razoável, tranquilo, digno e etc., que Catarina simplesmente lidasse de forma transparente com a sua condição de empresária, em vez de a procurar esconder em esquemas manhosos envolvendo a família.

Tal como no caso de Robles, o problema de Catarina não está no que fez, que é banal, está essencialmente correcto e não levanta problemas, está no que diz sistematicamente e no embuste do discurso do Bloco, um discurso completamente desfasado da realidade e da vida das pessoas comuns, tornando o Bloco no partido mais populista que existe em Portugal.

Às vezes corre mal, quando se torna evidente a distância entre o discurso sobre a vida dos outros e a vida quotidiana de cada um de nós.




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