Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Do milenarismo

por henrique pereira dos santos, em 13.05.19

Ontem reagi a esta afirmação de um amigo meu "Não há Planeta que aguente a dimensão e a rapidez destas transformações" dizendo que "há 50-60 anos que o movimento ambientalista promete o apocalipse para amanhã.
No dia em que for a sério já ninguém ligará nenhuma".

Daqui resultou uma troca de argumentos que, dispensando o folclore, se resume ao facto de para mim ser um enorme erro trocar as pessoas pelo planeta na afirmação inicial, ao deslocar o foco do que está em causa nas questões ambientais.

Pelo meio apareceu o sectário habitual nestas coisas que em vez de tentar compreender os argumentos dos outros, imediatamente tenta encaixar as opiniões divergentes numa caixinha ideológica extremista para poder sair da argumentação difícil e racional e passar directamente ao julgamento moral.

No caso concreto, tentaram logo encostar-me aos negacionistas climáticos quando eu não tenho nada, mas rigorosamente nada, que me ligue aos negacionistas das alterações climáticas ou das relações entre a nossa actividade e essas alterações.

Como em muitos outros assuntos, não tenho bagagem de conhecimento e cultura que me permita ter opiniões próprias sobre tudo que o que envolve alterações climáticas, falta-me conhecimento de física para perceber integralmente os artigos que se publicam, falta-me conhecimento de clima para interpretar as implicações do que leio, falta-me conhecimento de economia e sociedade para avaliar todas as implicações de um assunto extraordinariamente complexo e, por último, falta-me a assitência do divino espírito santo que permite que crianças de dezasseis anos compreendam o que eu não compreendo ao ponto da Assembleia da República preferir ouvi-las em vez de ouvir os chatos e velhos que andam há trinta ou quarenta anos a tentar compreender o problema e todas as suas implicações.

Ou seja, neste assunto, como em muitos outros, eu dependo inteiramente do instável consenso sobre o que se sabe e não sabe sobre a matéria, portanto em caso algum poderia estar do lado dos que negam o que a esmagadora maioria dos que estudam o assunto conseguem produzir como consenso provisório e instável.

Acresce que nisto estou inteiramente de acordo com o que o Miguel Araújo diz neste artigo, já com dez anos: "há que ser responsável na gestão das incertezas e assegurar que as decisões adoptadas sejam as que minimizem o risco de cometer erros graves. Ora as medidas de mitigação que se propõem são, na grande maioria dos casos, de tipo “win-win”. Ou seja, são políticas que são positivas quer haja alterações climáticas ou não e o custo social que advém de lhes conferir prioridade é bastante inferior ao custo social de não as implementar num cenário provável de alterações climáticas".

Mais que isto, comer 100 gramas de carne diariamente, ou expandir a produção de carne à custa das matas tropicais, ou ser ineficiente no uso de energias fósseis são más opções sociais, independentemente da questão das alterações climáticas, isto é, procurar uma gestão eficiente dos recursos é bom em si mesmo, independentemente de isso contribuir ou não para mitigar as consequências sociais das alterações climáticas previstas.

Daí a minha hipersensibilidade aos discursos milenaristas ao apocalipse amanhã: o que está em causa são opções sociais, a terra, a natureza, o planeta estão-se bem nas tintas para nós, a conservação da biodiversidade é um problema humano, não é um problema para as espécies que se extiguem.

Ora ao lado dos riscos associados às alterações climáticas, ou extinção em massa de espécies, temos de pôr o facto de que a pressão da actividade humana sobre os recursos naturais resultar da satisfação de necessidades das sociedades humanas, cujos resultados, actualmente, se traduzem no período histórico em que menos gente (proporcionalmente) passa menos fome, mais gente se libertou da miséria, de centenas de doenças, umas fatais outras incapacitantes, mais gente consegue manter a qualidade de vida controlando os efeitos negativos das doenças e por aí fora.

O problema seria simples, como acharia, por exemplo, uma criança de dezasseis anos que se pronunciasse sobre o assunto, se de um lado estivessem os maus e gananciosos e do outro as vítimas (incluindo essa categoria com alto poder totalitário e manipulador que é a da vítima futura e da vítima sem voz), mas acontece que, infelizmente, não é assim, de um lado e do outro estão pessoas que passam fome, que vivem miseravelmente, que não têm maneira de se defender da hostilidade do mundo, incluindo a hostilidade dos seus semelhantes mais fortes e poderosos.

Reduzir a utilização de agroquímicos é, em si, bom, mas não porque as coisas naturais sejam melhores que os produtos tecnológicos - não há coisa mais natural que a morte e a doença, Sócrates, o legítimo, morreu a beber uma cicuta 100% natural sem corantes nem conservantes - mas porque desconhecemos todas as implicações da manipulação dos processos naturais.

Mas só é bom até ao ponto em que as alternativas possam tornar os produtos alimentares tão mais caros que seja reduzido o acesso dos pobres a uma alimentação minimanente satisfatória e esta limitação não pode ser esquecida na discussão.

Argumentações apocalípticas sobre o que a Terra sofre ou não sofre, sobre encharcar a Natureza de venenos, e outros que tais só servem para criar ainda mais confusão em assuntos muito complicados, confusão essa que habitualmente serve alguns confusionistas sem escrúpulos que usam este tipo de argumentos para justificar moralmente o seu verdadeiro desprezo pelas pessoas concretas que, ao seu lado, sofrem e morrem por não ter recursos para uma vida digna.



6 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.05.2019 às 10:32

desde a última glaciação que o planeta tende para o desastre
os vgans roduzem mais metano que as vacas
nesta civiliza Cão
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.05.2019 às 12:14


Só para lhe dizer, mais uma vez, que concordo consigo e que, muitas vezes, desconfio dos pregadores de desgraças, custando-me a aceitar que algumas questões que afectam o planeta não sejam resolvidas satisfatoriamente.

Escrevo isto a pensar nos plásticos. Eu considero que a invenção do plástico foi uma das maiores invenções da humanidade e que, graças ao plástico vivemos hoje muito melhor do que os nossos avós. 

Repare-se que o plástico pode ser reciclado n vezes. O problema é o seu abandono de qualquer maneira, conspurcando a terra, os rios e os mares.

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 13.05.2019 às 12:21

(continuação)

O meu ponto é este: porque é que os nossos governantes não punem quem não faz a conveniente separação dos lixos? Para mim, isso seria uma coisa facílima: as nossas autoridades passavam a controlar o despejo de lixos nos contentores, perseguindo aqueles que misturando tudo, o vidro, o plástico e outros materiais com os lixos doméstico que se decompõem e que podem ser usados como fertilizantes, aplicando coimas aos incumpridores, de valor elevado aos relapsos. Estou convencido que, dessa forma e dentro de pouco tempo, todo o plástico seria reciclado, assim como o vidro, assim como os resíduos da construção civil – os resíduos industriais são de controlo muito mais fácil, assim as nossas autoridades queiram.

As Câmaras municipais poderiam fornecer sacos (recicláveis) para a separação dos lixos e tomar a seu cargo o a punição dos infractores. Essa prática não daria votos?  Eu acredito que dava.

E desculpe o espaço e o tempo que lhe roubei. 

Imagem de perfil

De Sarin a 13.05.2019 às 14:24

Não é fácil usar a lógica para analisar e debater matérias sensíveis.


Porque as matérias são sensíveis não por elas mas pelos que se exaltam ao debatê-las. E a exaltação interfere no debate porque de um lado está a lógica e do outro a emoção - usar a lógica com arrepanhares de cabelos, contra ou a favor, não funciona.


Permita-me o abuso.


https://sarin-nemlixivianemlimonada.blogs.sapo.pt/o-trigo-e-o-pao-que-o-diabo-amassou-35285?thread=194517



Uma outra forma, ou talvez a mesma, de olhar a questão.
Sem imagem de perfil

De Iletrado a 15.05.2019 às 19:48

Caro Henrique Pereira dos Santos
«(...) comer 100 gramas de carne diariamente, ou expandir a produção de carne à custa das matas tropicais, ou ser ineficiente no uso de energias fósseis são más opções sociais (...)»
Considero notável que alguém que combate as ideias comunistas tenha ideias comunistas. Só um comunista é que se arroga de saber definir o que é uma boa opção social. Afinal sempre precisamos de «pais dos povos» que nos digam o que comer e o que fazer para obtermos essa comida? Já não chega ter de aturar a panca dessa cambada de cretinos que se julga Deus para nos proibir de comer açúcar, sal, gordura e outras porras que fazem mal que se farta? A este ritmo, não falta muito para que alguém afirme, sem rir, que a comida e a bebida não podem ter nem vitaminas nem minerais, pois o seu excesso pode provocar doenças mortais. Ainda vão obrigar a Unicer a vender água das Pedras Salgadas devidamente destilada e desmineralizada...
Qual é e quem define a quantidade de carne que se deve comer diàriamente para ser uma boa opção social? 10 g? 80? 5? 0,5? E esse valor é fixo, independente das pessoas, ou depende do sexo, da idade, da altura, do peso, da actividade física da pessoa? E esse valor é independente da presa, i.e., 5 g de carne de bovino é equivalente a 5 g de carne de galináceo? E os enchidos, estão incluídos nesse racionamento?
Porque razão expandir a produção de carne à custa da matas tropicais é mau? Então e se essa mata tropical fôr cortada para produção de milho, já é bom? Já agora, temos matas tropicais? Assim de repente, só consigo pensar no Alentejo, talvez...
E como se define a ineficiência no uso de energias fósseis? É que a única ineficiência no uso de energias fósseis que conheço consiste em queimar petróleo para garantir que a ineficiência na produção de electricidade através das energias da moda não provoque cortes no fornecimento de energia eléctrica.
Boas pedaladas.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.05.2019 às 22:56

Eu defendi a proibição do que quer que seja? Do seu ponto de vista todas as opções são indistintamente boas ou más do ponto de vista social?
Por exemplo, não vacinar as crianças é socialmente tão bom como vacinar?

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Anomalia de um bronco.Depois passa, o Partido limp...

  • Anónimo

    Nas TVs os comentadores (apurada seleção de esquer...

  • Anónimo

    Abriu a caça. Afinal isso acontece a quem não sabe...

  • Artur Campos

    Eu estudei a disciplina de ciências e geografia no...

  • Artur Campos

    Papa Francisco...diz-vos alguma coisa ??


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D