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Disparate, e dos muito grandes

por henrique pereira dos santos, em 16.01.25

Estranhamente, para mim, continua a haver um monte de gente com uma fé inabalável no combate para a gestão do fogo, apesar de em contextos urbanos, em Portugal, haver fortíssima regulamentação para a prevenção de fogos.

Comecemos por este boneco:

limite extinção.jpg

O boneco não é dos melhores para o que pretendo, mas serve para explicar aos incautos que há limites de extinção dos fogos e que é muito fácil a um fogo estar a lavrar gerando tanta energia que não há meios de extinção capazes de o parar, e que esses limites são rapidamente atingidos num fogo que está a desenvolver-se num contexto meteorológico favorável ao fogo, com combustível disponível.

Basta que haja combustível disponível (o que significa, seco) e os ventos sejam fortes (e secos) e o fogo desenvolve-se para lá da capacidade de extinção e, frequentemente, provocando uma chuva de faúlhas à sua frente, tornando o combate um mero sistema de mitigação de efeitos, muito limitado e eficaz em circunstâncias particulares pontuais.

Ou seja, assentar um sistema de gestão de risco que assenta num instrumento que não funciona nas condições em que é mais preciso, a mim parece-me bastante estúpido (havia um manda-chuva dos bombeiros que dizia que o sistema de protecção funcionava optimamente em 98% das ignições, omitindo, naturalmente, que os 2% de ignições em que o sistema não funciona, são responsáveis por mais de 90% da área ardida e dos efeitos negativos dos fogos).

Passemos agora a outros dois bonecos:

fogos e meios.jpg

fogos e meios 2.jpg

Os dois bonecos refectem a realidade de que o crescimento dos meios de combate não se traduz em diminuições relevantes da área ardida, traduz-se na diminuição do número de fogos, isto é, menos fogos que são maiores, mais perigosos e mais intensos.

O estranho, bem visível num dos bonecos, é que a alteração do padrão de fogo, de mais fogos, mais contidos e menos intensos, para menos fogos, menos controláveis, maiores, mais intensos e nmais destrutivos, resulta da acumulação de combustível (combinada com condições meteorológicos extremas em curtos períodos).

Ora essa acumulação é, frequentemente, favorecida por políticas públicas obcecadas pela supressão do fogo, sejam medidas regulamentares, seja o reforço de meios de combate e o que se vê num dos bonecos é exactamente que após o resultado dessas políticas (um ano especialmente mau de fogos) é o investimento no reforço dos meios de combate nos anos seguintes (e poderia usar aqui o boneco clássico que relaciona a produção legislativa com a área ardida em cada ano, que vai no mesmo sentido) e outras coisas igualmente absurdas, que parcialmente, contribuem para o que cenário futuro seja ainda pior.

Ou melhor, o que é absurdo é que apesar da evidência de que gerir fogos é gerir contexto (o que é a política corrente nos fogos urbanos, pacificamente), continuemos placidamente a ignorar que o contexto dos fogos florestais está a piorar (não, não é por causa das alterações climáticas, cujo efeito não sabemos qual vai ser nos fogos porque se é verdade que pode haver um futuro com mais dias favoráveis ao fogo, também é verdade que esse futuro pode diminuir a produtividade primária, diminuindo a acumulação de combustível) e a executar políticas públicas que ignoram o contexto económico e social que favorece a acumulação de combustível, isto é, que piora o contexto.

Vir falar de combate quando estão a ocorrer fogos extremos, dizendo que o que é preciso é reforçar os meios de combate e a sua eficiência, é mesmo um disparate e um disparate monumental.


4 comentários

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De Carneiro a 16.01.2025 às 18:17


"políticas públicas que ignoram" - exactamente. Ou pior, não existem ou negligenciam a realidade e as consequências.



Tragicamente o único horizonte de quem de responsabilidade é o presente ou o dia depois deste. Pensar, projectar e acautelar futuro é coisa em desuso, não rende grandes maquias e votos.

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De Sérgio Gonçalves a 16.01.2025 às 22:53

Por curiosidade, no primeiro gráfico o que ISO e BUI?
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De henrique pereira dos santos a 17.01.2025 às 08:15

Dr Google responde: "ISI: Índice de Propagação Inicial | Initial Spread Index", "BUI: BUI (Índice de Combustível Disponível) - resulta da combinação do DMC e do DC, representando a quantidade total de combustíveis disponíveis (partículas médias e grossas) para a combustão e a propagação do fogo. Este índice é fortemente dependente do teor de humidade dos vários componentes do leito combustível".
Resumindo, nas ordenadas está a velocidade a que o fogo se desenvolve inicialmente (fortemente dependente das condições meteorológicas, nomeadamente vento) e nas abcissas a disponibilidade de combustível (fortemente relacionado com a quantidade de combustíveis finos e secura).
Sem imagem de perfil

De Ricardo Sebastião a 17.01.2025 às 11:26

"Vir falar de combate quando estão a ocorrer fogos extremos, dizendo que o que é preciso é reforçar os meios de combate e a sua eficiência, é mesmo um disparate e um disparate monumental."


É um disparate, mas é perfeitamente racional. Porque o interesse dos lobbies do setor é em primeiro lugar e acima de todos os outros o reforço de verbas. E é nesse momento que, a reboque da comoção pública, é mais fácil extorquir dinheiro aos poderes públicos.

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