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Dez razões para a festa do Avante avançar

por João Távora, em 10.08.20

A ler esta magnífica síntese do Henrique Raposo (só não concordo com a última afirmação) que eu roubo descaradamente ao Expresso:   

Avante!: dez razões para a festa avançar

Primeira. A cultura de um país não pode ficar congelada por tempo indeterminado. A “guerra à covid” não pode ser como a “guerra ao terror”, isto é, a perpetuação por tempo indeterminado de estados de excepção arbitrários que colocam em causa a liberdade e, neste caso, a cultura. Quando é que isto acaba? Se não acabar, corre o risco de se perpetuar como qualquer outra máquina burocrática que se alimenta do medo. Por exemplo, quando voltarem a morrer 3 mil portugueses de gripe num espaço de poucos meses (2018/19), os fanáticos do #ficaremcasa voltarão a pedir medidas draconianas.

Segunda. Quando falo de cultura, não estou apenas a defender a sobrevivência económica do meio cultural (do artista ao carpinteiro), estou a defender o coração da sociedade. O belo e o bom estão cancelados. Uma sociedade que não vai ao teatro, ao futebol, à festa da aldeia ou ao cinema não é uma sociedade, é um agregado de indivíduos amedrontados sem laços entre si e a gerar o pior vírus do elenco virologista: o ódio e a desconfiança entre seres humanos. O homem é o grande vírus do homem. As famílias estão a partir. A sociedade está a partir. A empatia está a morrer. Neste momento, o olhar nacionalista contra o "outro" é maioritário, porque o "estrangeiro" é uma potencial ameaça viral.

Terceira. Temos de começar a fazer experiências-piloto com espetáculos com público, do futebol aos concertos. Sem público, a arte e os espetáculos não fazem sentido cénico e não são rentáveis. Sem arte e espetáculos, a sociedade vai morrendo. Neste sentido, parece-me que um evento organizado pela instituição mais habituada a multidões é o melhor caminho. A capacidade organizativa do PCP e o imenso espaço da Atalaia são dois argumentos fortes para deixarmos esta experiência-piloto avançar.

Quarta. Se querem proibir o Avante!, então têm de ir fechar as praias, porque praias cheias e caóticas são mais perigosas do que uma festa organizada pela mão de ferro do PCP.

Quinta. A bolha do medo tem de ser furada. A sociedade entrou num torpor que é, em si mesmo, mais perigoso do que o vírus. Olhe-se para o estado da saúde. O cancro mata cerca de 70 portugueses por dia, mas a oncologia está mortalmente atrasada devido ao pânico do #ficaremcasa. Ao contrário da covid, o sarampo é muito perigoso em crianças. Pois bem: por causa do #ficaremcasa, 13 mil bebés portugueses não receberam nos últimos meses a vacina do sarampo.

Sexta. Abrir o Avante! e outros festivais é um risco? Pois é. Não há vida sem risco. Só que o #ficaremcasa também é um risco. Aliás, é um risco superior à abertura. A fatura do #ficarmecasa está à vista de todos, e crescerá no futuro próximo. Porque é que há tantos centros de saúde ainda fechados? Porquê? As pessoas só não podem morrer de covid? Podem morrer à vontadinha de outras doenças? O #ficaremcasa trocou mortes inevitáveis por mortes evitáveis. Uma senhora de 85 anos com várias comorbidades vai morrer em breve, com ou sem covid. Uma mulher de 40 anos saudável só vai morrer de cancro da mama (ou outro), porque a oncologia foi bloqueada pelo #ficaremcasa, o mesmo #ficaremcasa que matou à sede os velhotes de Reguengos.

Sétima. É preciso abrir a prisão psiquiátrica que o #ficaremcasa criou no coração da sociedade e de cada lar, e que não afeta apenas pessoas com autismo ou Alzheimer.

Oitava. Os maiores defensores do #ficaremcasa fazem parte do funcionalismo público, ou seja, têm sempre o seu rendimento garantido. É por isso que não compreendem (ainda) a crise que já está aí. Para uma parte esmagadora deste país, a crise é uma "crise dos outros", como dizia há dias João Vieira Pereira. Os "outros? Aqueles que dependem da economia a funcionar, aqueles que dependem do fluir normal do público nas suas empresas e lojas.

Nona. É talvez o ponto mais repugnante destes meses. A sociedade dividiu-se entre as pessoas que se sentem protegidas numa bolha que permite o #ficaremcasa e as pessoas que têm mesmo de #sairdecasa para sobreviver. E o sector protegido esmagou os sectores desprotegidos. Também por isso vale a pena apoiar a festa do Avante!, uma festa que, em teoria, é daquelas que têm de #sairdecasa. Mas, já agora, gostava de recordar uma coisa às pessoas que se sentem acima ao crise como se fossem um avião voando acima do clima: se não voltarmos a uma economia normal, a austeridade (isto é, cortes salariais na função pública) será inevitável. Um eterno #ficaremcasa mata a economia; com a economia estagnada, a receita fiscal baixa e, nesse cenário, mesmo com acesso aos mercados da dívida, a austeridade será inevitável.

Décima. A liberdade. É incrível a forma como a sociedade aceitou acriticamente os estados de emergência e as restrições. É urgente reforçar o lado da rebeldia e da liberdade numa sociedade tão paralisada, tão medrosa, tão obediente. Até vos digo uma coisa: se não tivesse a Iniciativa Liberal no boletim de voto, votaria PCP nas próximas eleições.



8 comentários

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De Luís Serpa a 10.08.2020 às 22:09

Texto brilhante. (O itálico é involuntário.)
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De Carlos Sousa a 11.08.2020 às 10:31

Belo texto. E concordo consigo, se não fosse a última frase era um texto excepcional. 
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De Anónimo a 11.08.2020 às 14:25

Loas ao pc. do anti-confinamento.
Quando apanharem o poder verás de que confinamentos são capazes.
História do séc XX tão próxima e já ignorada.
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De Francisco Carvalho a 11.08.2020 às 17:17

Só que o PCP faz a Festa não por essas convicções todas mas para sobrevivência política !!!
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De Luís Lavoura a 11.08.2020 às 17:36

A última frase do texto não é descabida: o PCP foi durante a pandemia, e anteriormente em muitas outras ocasiões, o partido que mais defendeu a liberdade - a seguir à Iniciativa Liberal, claro. O PCP votou contra os prolongamentos do estado de emergência. No passado, o PCP opôs-se, por exemplo, a leis que restringiam o financiamento dos partidos pelos seus militantes, a angariação de dinheiro pelos partidos através da organização de eventos, e o registo público por parte dos partidos dos seus militantes.
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De Anónimo a 12.08.2020 às 11:32

Cuidado! essa é a estratégia "pensada" pelo pcp, para alcançarem as metas por eles definidas, a longo prazo e sem pressa. Devagar, vão conquistando espaço e... pessoas. Há um lema de Lenin "um passo atrás para dar dois em frente" i.e. recuar ardilosamente ( ainda que temporariamente seja prejudicial ao partido) para rumar à vitória depois. Julgo que sejam os  anunciados "os amanhãs que cantam"!
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De Carmo Matos a 12.08.2020 às 22:38

Já todos vimos onde leva o negacionismo , Bolsonaro, Trump e Boris Johnson  mergulharam os respectivos países em números de mortes aterradores, infelizmente o PCP adopta a linguagem da direita populista e ignorante para defender p indefensável!
Ninguém tem licença para festas e festivais , é proibido juntar mais de 20 pessoas.
Qual foi a parte que o PCP não percebeu.
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De Carlos Sousa a 13.08.2020 às 19:35

E qual foi a parte do número de mortos de covid ser metade dos do ano passado com gripe que você não percebeu?
E porque é que você não fala da Suécia, que segundo a imprensa está mais bem preparada para a segunda vaga?
Quando a economia colapsar e não houver dinheiro para comprar comida como é que você vai fazer? 
Você sabe que ainda há pessoas em lay-off?
E que há pessoas que perderam o emprego e deixaram de pagar renda para terem dinheiro para comer?
Não seja fundamentalista, se você não se sente segura, será melhor proteger-se, ninguém a vai proibir, se não gosta de ajuntamentos, será melhor afastar-se, também ninguém a vai proibir, e deixe aos outros a capacidade de decidir, vai ver que esta pseudo pandemia acabará muito mais depressa. 

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