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Desfazer antigos mitos: o reinado de D.João V

por Daniel Santos Sousa, em 20.03.23

 

Visão | D. João V, o rei que mandava em tudo

A historiografia oitocentista tudo fez para denegrir este grande monarca, da pena de Oliveira Martins saíram os maiores impropérios em desenhos obscuros de um rei "beato" e "lúbrico". Toda a historiografia positivista deixou traços grotescos do soberano que hoje facilmente se desmentem. Contemporâneo de D.João V, o baiano Sebastião da Rocha Pita, autor da "História da América Portuguesa" (1730), legou a imagem de um rei devoto e generoso, qualidades que a condição exigiam para o exercício do bom governo. As acções personalisticas do rei demonstram mais o seu carácter prático do que a preocupação em construir uma doutrina, a "monarquia absoluta" obscurecida pela pena de doutrinadores liberais deixará esquecer a grandiosidade da sua política. É verdade, acuse-se, que deixaram de se convocar Cortes a partir de 1720, todavia, o rei concedia audiências públicas três vezes por semana, nas quais atendia não só a nobreza como qualquer concidadão. A protecção das fronteiras e das rotas comerciais com o Oriente e com o Brasil foram sempre a prioridade. Ao longo do século XVIII os vice-reis da Índia foram sempre homens de inegável mérito e, com o impulso da Companhia de Jesus, Portugal construiu uma verdadeira cultura internacional.

O fausto das entradas dos enviados portugueses às cortes europeias ajudou a conquistar a paridade de tratamento com as grandes potências da época. Junto à Santa Sé investiu igualmente a afirmação do reino, com momentos de maior tensão também, valendo a insistência e capacidade diplomática de D.João V para em 1748 lhe ser atribuído o título de "Rei Fidelíssimo".

No quadro das artes e da cultura, ao contrário do que a historiografia positivista proto-republicana alimentou, descobre-se uma verdadeira política artística. Muito do ouro brasileiro foi investido, não em caprichos pessoais, mas em belas colecções de pintura e gravura. Foi o criador da Academia Real da História, o que demonstra o empenho do monarca pela cultura. Na Real Academia ajudou a desenvolver o desenho, a gravura e a impressão em Portugal. As práticas de legitimação da monarquia foram sendo reformulados, desde a disciplina da sociedade de corte, à criação de espaços de representação, como o Palácio e Convento de Mafra, onde disponibilizou a mais representativa biblioteca do país, a par com a Biblioteca Joanina, na Universidade de Coimbra. Majestosa e imponente, Mafra é o emblema por excelência do reinado joanino, exemplo da política artística perdulária e expoente máximo do barroco. A corte Joanina alcançou assim a preeminência cultural, o reino consolidou a independência e granjeou o respeito internacional ombreando com as potências da época.


13 comentários

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De Zé Onofre a 20.03.2023 às 23:51

Boa tarde
Se em vez das representações aurificas ao Papa para obter um título "honorífico" de "rei fidelíssimo";
Se em vez do aqueduto das Águas Livres, tivesse abastecido Lisboa com canalização menos onerosa, o principia dos vasos comunicantes;
Se em vez do sumptuoso convento de Mafra;
Se em vez de imitar Versailles com o Palácio de Queluz;
Se em vez de gastar recursos com a "compra" de um "Patriarca" para Lisboa, tivesse utilizado esses recursos no desenvolvimento industrial, comercial, na agricultura, na marinha, talvez ainda hoje Portugal fosse respeitado como um país que soube aproveitar o "saque" do ouro do Brasil. 
Talvez, hoje, produzíssemos o suficiente para não andar a toque de caixa de FMI, UE, e outros.
No meio do despesismo inútil escapam «Academia Real da História» que «ajudou a desenvolver o desenho, a gravura e a impressão em Portugal».
   Zé Onofre
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De JPT a 21.03.2023 às 09:38

Ou, como diziam os outros, na vida de Brian: "what have the romans ever done for us?"
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De passante a 21.03.2023 às 01:00

A historiografia oitocentista tudo fez para denegrir


Vê-se muito alegados historiadores a tentarem muito obviamente denegrir o passado recente por interesse ideológico ou venal.


Se não fosse agora haver aspirina, eu duvidava seriamente do "progresso histórico", e assumia que apenas temos vendedores de banha da cobra a apregoar o seu produto.



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De Francisco Almeida a 21.03.2023 às 09:17

Algures entre o panegírico do autor e a exegese negativista do comentador Zé Onofre, situar-se-à a verdade.
Já agora, quem procure em autores brasileiros, verá que D. Pedro I do Brasil, o que tem a enorme estátua no Rossio, não tem uma boa imagem e, ao invés, a boa imagem está em D. João VI, o rei mais caluniado e mais vilipendiado da história de Portugal.
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De balio a 21.03.2023 às 09:26


um rei devoto


Onde uns vêem uma pessoa devota, outros vêem uma pessoa beata.
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De balio a 21.03.2023 às 09:28


a insistência e capacidade diplomática de D.João V para em 1748 lhe ser atribuído o título de "Rei Fidelíssimo"


E ao bispo de Lisboa foi atribuído o título de "patriarca", o qual é uma raridade no catolicismo (no qual parece que só há quatro "patriarcas").
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De balio a 21.03.2023 às 09:31


"lúbrico"


Chegou aos nossos dias a carta enviada pela rainha, então ainda uma adolescente, à sua mãe (uma estrangeira), a relatar a noite em que D. João V, então ainda príncipe, a desflorou. Ele tinha 16 anos, salvo erro, ela era, creio, um pouco mais velha. Tinham-se casado ainda crianças. A rainha conta a sua mãe que D. João V fez as coisas todas que devia fazer de forma muito competente.
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De balio a 21.03.2023 às 16:23

Peço desculpa, o episódio referido acima não foi com D. João V. Creio que foi com o seu filho D. José. Esse é que se casou somente com 13 anos de idade, com uma miúda de 11, que somente desflorou uns anos mais tarde, para satisfação dela que viu que ele tinha feito tudo como deve ser e comunicou o facto à mamã.
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De pitosga a 21.03.2023 às 10:51

Bom. Poderia ser Muito Bom...
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De Anonimo a 21.03.2023 às 12:02


Os Países Baixos ex-Holandas também fizeram vida do comércio ultramarino, agora estão como estão (e depois de terem mamado com umas guerras valentes no seu território), enquanto nós estamos pobres. O azar explica muito.
Por outro lado, não têm palácios de Mafra ou Mosteiros dos Jerónimos, portanto é complicado saber quem saiu por cima.
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De Anonimo a 21.03.2023 às 13:40


"Mafra é o emblema por excelência do reinado joanino"
Exacto. Muita sumptuosidade, muito espectáculo...
Seriamente, os republicanos pouco melhor fizeram. Não será propriamente do sistema político que os nossos problemas emanam.


Ainda hoje uma senhora sindicalista apelava ao aumento de salários. As empresas aguentam. Claro que a EDP, a Galp e a Sonae aguentam, mas estas são uma minoria, Portugal está repleto de "empresas" que mais não são que trabalho por conta própria ou perto disso, que vivem dia-a-dia, e que rebentariam na utopia de Esquerda.



Problemas de séculos, respostas imediatas. Pacotes e Observatórios.
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De Anónimo a 21.03.2023 às 18:46

Acho que esta publicação consegue ser das coisas mais absurdas que já li este ano. E a competição tem sido forte.

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