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Retirei o título de um comentário de Ana Cristina Leonardo, que será uma citação de Rousseau (citado de cor e não verificada por mim porque agora não me interessa nada para post que a citação certa não seja, eventualmente, esta).
Quando li o comentário vi que me tinha caído no colo o título de um post que estava a magicar e que não sei se é uma característica portuguesa (eu tenho sempre muita dificuldade em atribuir à cultura de um país este tipo de características, acho sempre que somos todos basicamente iguais, reagimos é a estímulos diferentes) ou se é da natureza humana.
O post surgiu de uma pequena (e interessante) conversa sobre um bom artigo de Nuno Palma no ECO.
Nessa conversa, despreocupadamente, surge um dos argumentos clássicos da conversa sobre a evolução da educação durante o Estado Novo: "No ensino primário o EN até teve a originalidade de fazer de Portugal o único país da Europa onde a escolaridade obrigatória passou de quatro para três anos, para as meninas.". Noutros pontos da conversa surgem repetem-se os argumentos clássicos sobre o Estado Novo e a educação.
O ponto onde queria chegar é este: todos nós aprendemos na escola que o Marquês de Pombal foi um reformador do ensino e que no Estado Novo havia uma política deliberada para manter o analfabetismo em Portugal.
Há um ror de anos que repetimos exaustivamente estas ideias (no caso do Marquês, há mais de duzentos anos).
E no entanto, o Marquês reduziu a população escolar em 90% (só se retomando a população escolar de meados do século XVIII em 1930, já com Salazar), e Salazar escolarizou em 20 a 30 anos a quase totalidade da população em idade escolar, partindo de valores miseráveis, em torno dos 15 a 20% no fim da primeira república.
Deve ser esta nossa vontade de jamais deixar que os factos influenciam as nossas opiniões que tornam tão fácil ao actual Governo manter, no essencial, a política do Governo anterior (as diferenças, para além da propaganda, são essencialmente na calibração dos impostos, mudando impostos directos para impostos indirectos) ao mesmo tempo que todos os dias o espaço público está cheio de demonstrações de que o Governo anterior, ao contrário do actual, tinha uma política horrorosa, de cortes cegos, que levavam à emigração, à destruição do Serviço Nacional de Saúde, à asfixia da cultura (da cultura, Senhores, há lá coisa mais perversa que cortar na cultura e não haver um ministério da dita), sem que o facto dos valores da emigração serem basicamente os mesmos, dos cortes de investimento serem basicamente os mesmos, das dificuldades do Serviço Nacional de Saúde serem, pelo menos, os mesmos, ou da penúria na cultura ser a mesma, afecte minimamente a narrativa oficial.
No fundo, no fundo, nós gostamos mesmo de ser aldrabados, os factos são uma coisa demasiado chata para se perder tempo com eles.
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