Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Deixem os preços subir (e descer)

por henrique pereira dos santos, em 29.03.23

Sobre as razões gerais pelas quais a medida do IVA zero é, em si mesma, uma má solução, escuso de escrever, várias pessoas têm falado ou escrito sobre isso com mais propriedade que eu, como por exemplo, o Filipe Charters de Azevedo neste artigo de que cito um parágrafo cristalino: "Durante a pandemia, um amigo ofereceu-se para fazer compras para uma vizinha idosa. Esta senhora recusou a ajuda, dizendo que precisava fazer as compras sozinha porque não sabia o que estava em promoção. A vizinha comprava o que estava mais barato, substituindo batatas por cenouras, porco por frango ou peixe congelado, e assim por diante. Esta sábia senhora percebeu o óbvio: não há uma lista de compras fixa, mas um orçamento a ser gerido com base nos preços marcados nas prateleiras".

Outra das pessoas que mais têm "protestado" com esta medida populista e errada tem sido Luis Aguiar-Conraria, que foi quem me chamou a atenção para um aspecto que me deveria ter saltado à vista logo à primeira, o que não aconteceu (em minha defesa tenho a declarar que não ligo muito ao que este governo diz porque sei que raramente o que diz é para levar muito a sério).

É verdade que já me tinha rido com a discriminação entre os beneficiados feijão frade e vermelho, em relação aos preteridos feijão branco, manteiga, catarino, luar, etc., tendo até comentado com a minha mulher que aparentemente toda a gente é a favor da conservação da biodiversidade agro-pecuária e das pequenas produções que garantem a diversidade paisagística, mas na primeira oportunidade alteram administrativamente o preço relativo a favor do feijão encarnado em relação ao chícharo, só porque é preciso inventar um número político qualquer.

Concluímos que aparentemente há hoje muito mais gente a favor de ervilhas com ovos escalfados que de favas com chouriço.

Foi o Luís que me chamou a atenção para a discriminação da carne de cabrito e borrego em relação ao frango, porco e vaca.

Naturalmente, sendo a negociação com a CAP, que representa a produção agropecuária comercial cuja competitividade depende essencialmente do preço, o resultado final corresponde ao alinhamento de interesses do governo - dizer que mantém os preços baixos -, da produção industrial - a que compete pelo preço -, e da grande distribuição - a que vive do preço.

Tudo o resto, as externalidades ambientais e sociais positivas, a defesa das pequenas produções, da biodiversidade, da gestão do fogo e da paisagem, tudo o resto deixou de ter a menor relevância porque o governo, boa parte da comunicação social e as oposições (incluindo a oposição liberal que se deixou enredar nesta discussão sem defender de forma clara que a manipulação administrativa de preços relativos é errada e ineficiente) resolveram cavalgar o populismo inerente aos períodos de inflação alta.

Baixar impostos sobre o consumo para controlar a inflação já é uma política errada, mas tem ao menos as virtudes inerentes a uma baixa de impostos (nesse caso não deveria ser temporária), agora baixar impostos sobre consumo com base em escolhas do governo que deixam de fora a alimentação infantil e privilegiando o melão face aos pêssegos, ameixas, figos ou uvas, peço imensa desculpa, mas para além de ineficiente, para além de privilegiar os modos de produção com maiores externalidades negativas e menos externalidades positivas, parece-me também bastante estúpido.


14 comentários

Sem imagem de perfil

De balio a 29.03.2023 às 10:47


Muito bem escrito e muito certo.
É uma medida populista em toda a linha, incluindo na escolha dos alimentos cujo IVA se baixa: aqueles que são mais suscetíveis de dar contentamento ao maior número de pessoas. Por isso se escolhe o melão e pretere as uvas, por isso se escolhe a carne de vaca e pretere a de cabra.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 29.03.2023 às 11:53


Não há uma lista de compras fixa... ah pois, não conseguem comer pão, há sempre bolos.


O "cabaz" do Costa é uma valente tanga. Na linha do cabaz da habitação
Sem imagem de perfil

De balio a 29.03.2023 às 12:13


A vizinha comprava o que estava mais barato, substituindo batatas por cenouras, porco por frango ou peixe congelado, e assim por diante. (https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/por-que-nao-gosto-do-iva-zero-16079531.html)



Pois está muito bem, é muito inteligente, mas a imensa maioria das pessoas, em matéria alimentar, não se consegue comportar assim. Os seres humanos são muito esquisitos em matéria alimentar: em todas as culturas, (a grande maioria d)as pessoas comem certas coisas e recusam comer outras, mesmo sabendo que elas são comestíveis. As pessoas têm pouca flexibilidade em matéria de escolha dos alimentos: só querem consumir aquilo que estão habituadas a consumir. As pessoas comem certos vegetais e não comem outros, comem certas proteínas e não comem outras.
Sem imagem de perfil

De Antonio Sérgio a 29.03.2023 às 14:54

Uma boa teoria, mas absurda, como comprova a historia. Provavelmente debitada por alguém que nunca passou necessidades (graças a Deus). 


Quando a comida falta (ou orçamento é curto ) a flexibilidade para comer o que há é total. Por isso na Venezuela, não faz muito tempo, até flamingos e papa-fomigas eram parte do menu.  



Por cá, com tantos governantes e comentadeiros adeptos mesmas politicas, já estivemos mais longe.
Sem imagem de perfil

De balio a 29.03.2023 às 15:33


Está bem, certo, mas aquilo que esta medida populista do atual governo pretende é, precisamente, que a maioria do povo português não tenha que sair da sua "zona de conforto", ao contrário daquilo que o povo venezuelano teve que fazer. (Ao fim e ao cabo, o governo de António Costa construiu-se por oposição ao de Passos Coelho, não é verdade?) O que esta medida populista pretende é que a maioria do povo português possa continuar a, confortavelmente, comer todos os dias aquilo que sempre comeu, sem ter que fazer nenhuma alteração incómoda à sua dieta.
Sem imagem de perfil

De Anonimo a 29.03.2023 às 15:41

Mas qual zona de conforto?

Baixam o porco, o frango e a vaca porque são as carnes mais consumidas, e são as mais consumidas porque são as mais baratas. Ou iam baixar o borrego, o pato e o veado?
Alteração incómoda à dieta? Vai mas é comer brioche.
Sem imagem de perfil

De marina a 29.03.2023 às 16:09


"A solução para a carestia da vida é a maior liberalização dos mercados (municipais?), uma revisão do acesso aos mercados abastecedores, de forma a promover uma entrada de pequenos produtores e de maior concorrência nacional e internacional. Um maior controlo dos contratos de fornecimento de produtos da grande distribuição, revendo cláusulas abusivas e não apenas e só o controlo de preços na prateleira. Se quisermos e pudermos descer impostos, a opção tem de ser em toda a cadeia, a todos os players permitindo que as pessoas façam o seu ajustamento."



este é a parte do texto que prefiro...compro na praça legumes e fruta, cebolas a 1.3 , batatas a menos de 1 euro , uvas , na época a 2 euros ou menos  etc

e se formos tarde , os preços baixam , para não terem de levar mercadoria para casa..
é uma pena  os "poderes públicos"  terem-na "sofisticado"  com tanta exigência , os agricultores de sobrevivência já não podem já vender lá.


um problema com a "lista de compras"  é que muita gente já não sabe cozinhar nem tem imaginação culinária ,  compra pré feito.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 29.03.2023 às 16:09

Folgo ver que algumas pessoas já começam a perceber que este é um regime ferozmente populista.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.03.2023 às 21:34

Vamos esperar pelas próximas sondagens... para ver se isso já se reflecte.
Imagem de perfil

De Vagueando a 29.03.2023 às 17:54

Só acho estranho centrar-se toda a discussão da responsabilidade dos governos (nem sequer estoua referi-me a Portugal) de fazer com os preços não atinjam as classes de baixos rendimentos, de controlar Até à exaustão quem não cumpre o estipulado (neste caso meter o IVA que não cobrado ao bolso) e não se colocar também a pressão do lado de quem, sem ética, sem vergonha e cheio de ganância não cumpre as regras de mercado. Afinal, as empresas, os empresários o próprio povão, quer é fiscalização mas não quer ser fiscalizado. Chego a ter peno dos políticos e nem sei como há gente que ainda se predispõe a ir para cargos políticos.
Sem imagem de perfil

De Francisco Almeida a 30.03.2023 às 09:54

Num dado país existiam 100 consumidores e apenas dois artigos de consumo alimentar, a corvina e o robalo. Esse 100 consumidores repartiam-se igualmente, 50 preferiam corvina, 50 preferiam robalo. Mas de cada 50, metade era mesmo fã, outra metade era susceptível de mudar se as condições se alterassem. .
Um dia, o governo, para fazer combater a inflação, decidiu aplicar IVA zero à corvina e concertar com a produção e a distribuição para que não absorvessem a economia de custo. Como resultado, em relativamente pouco tempo, já existiam 75 clientes para corvina e apenas 25 para robalo, e a corvina começou a faltar nos balcões frigoríficos. Na comercialização da grande distribuição nada se alterou pois estavam vigiados pela ASAE, mas o pequeno comerciante, entre um cliente que também lhe comprava produtos mais caros e um cliente de subsistência, que comprava pequenas quantidades de um cabaz essencial, optava por vender ao primeiro. E esse não era o pior problema porque, não havendo ASAE que chegasse, alguns vendiam a quem pagasse mais e, sobretudo, a quem pagasse por fora, sem registo na caixa.
Claro que ambos, grandes e pequenos, aumentaram as encomendas ao grossista, só que este não podia repercutir esse aumento nos armadores pois quota de pesca da corvina estava preenchida. Assim o que se passou no pequeno comércio, transferiu-se de forma mais sofisticada mas com valores muito mais altos, para os grossistas e para os armadores.
(continua)
l
Sem imagem de perfil

De Francisco Almeida a 30.03.2023 às 09:56


(continuação)
Entretanto, o que acontecera ao robalo?
Num momento inicial, o retalhista viu-se a braços com robalo não vendido. Algum foi cedido a preço de custo a funcionários, algum, de comerciantes mais evoluídos, entregue a obras de solidariedade social mas uma boa parte estragou-se mesmo e foi para o lixo. Claro que o comerciante registou um prejuízo e tomou duas decisões. Diminuiu a encomenda ao grossista e aumentou a margem de comercialização.
Vendo as encomendas a descer, o grossista adaptou a frota, abatendo uma ou duas viaturas-frigoríficas e despedindo dois ou três motoristas. Mas como não podia encolher os armazéns, nem sequer reduzir proporcionalmente despesas fixas, também aumentou a sua margem de comercialização e, claro, diminuiu as compras aos armadores. Estes últimos, sendo muito difícil com o sistema de quotas, desviar os barcos para a pesca de outras espécies, abateram alguns barcos e mandaram para o desemprego algumas companhas.

Como resultados indirectos, aumentou o desemprego, aumentou a fuga ao fisco e incentivaram-se incumprimentos em preços, margens e quotas de pesca.
E o que aconteceu aos consumidores? Os ricos pouco foram afectados: na pior das hipóteses, em vez de férias no Tahiti, optaram por férias nas Canárias. Os pobres adeptos da corvina, em grande parte perderam o acesso ao produto. E ambos, partidários de corvina e partidários de robalo, passaram a comprar o robalo mais caro. Os que puderam, claro, pois a maioria teve de substituir o peixe congelado por sardinha, atum ou cavala de conserva.
(publicado no "Delito de Opinião")
Sem imagem de perfil

De marina a 30.03.2023 às 11:44


isso tudo porque não se lembraram de pescar mais corvina , certo?? porque para pescar , armazenar , distribuir e vender corvina é preciso exctamente o mesmo que para o robalo. as pessoas não deixaram de comprar peixe , mudaram o consumo , das duas uma ou desciam : margem do robalo e continuavam a vender , ainda que menos , ou  passavam a vender também corvina.  o único problema poderia ser excesso de pesca de corvina e pô-la em perigo de extinção.
se a malta pode emigrar e sair da zona de conforto , também as empresas o podem.
Sem imagem de perfil

De balio a 30.03.2023 às 14:28


Vale a pena ler o post muito crítico de hoje de Vital Moreira (próximo do PS) sobre este assunto:

https://causa-nossa.blogspot.com/2023/03/nao-da-para-entender-41-jogar-dinheiro.html


Vital Moreira diz, e muitíssimo bem, que os apoios do Estado devem incidir somente nas pessoas mais pobres, e não em todas as pessoas por igual.


Seria muito melhor dar uma subvenção qualquer às pessoas mais pobres - permitindo-lhes a liberdade de gastarem essa subvenção em couves, carne de cabrito, ou vinho - do que fazer uma descida do IVA que afeta todas as pessoas, pobres e ricas, por igual - mas mais provavelmente irá parar aos bolsos de produtores e/ou intermediários.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Andre A.

    Pelo seu texto, o português (generalização difícil...

  • henrique pereira dos santos

    Qual é a utilidade de escrever esta estupidez a pr...

  • Anonimo

    E no entanto há quem o faça Não se pode dizer que ...

  • Anonimo

    Uma das coisas que mais me espantam é a quantidade...

  • Anonimus

    Tem toda a razão.Os americanos que conheço dizem i...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2023
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2022
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2021
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2020
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2019
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2018
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2017
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2016
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2015
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2014
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2013
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2012
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2011
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2010
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2009
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2008
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2007
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2006
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D