Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Penso que terá sido a Frederico Lucas que ouvi, ou li, a frase que usei para título do post e lembrei-me dela a propósito de um colóquio cuja organização é da Montis, uma associação de sou presidente.
Na verdade não foi apenas a propósito desse colóquio, mas também da sessão sobre empreendedorismo a que fui falar no dia 5 de Junho, em Vila de Rei.
Há muitas pessoas a achar que se deve discriminar positivamente o interior (não vou discutir o conceito de interior, que me parece razoavelmente absurdo e que só uso aqui por facilidade de comunicação) e eu confesso que não vejo a menor utilidade social em investir milhões em economias ineficientes, dar benefícios fiscais para sustentar empresas não competitivas, e por aí fora.
Quer isto dizer que não vejo utilidade social em ter uma gestão de áreas marginais socialmente mais útil que a que fazemos agora e que rejeito qualquer papel do Estado nessa melhoria? Não, não quer dizer isso, quer apenas dizer que não é atirando dinheiro para cima de um problema que ele desaparece (ele, o problema, o dinheiro de maneira geral desaparece mesmo).
E foi ao pensar nessa sessão sobre empreendedorismo, em que alguns (não todos, sejamos justos) dos presentes se achavam no direito de ser pagos para viverem no interior, que olhei para o programa do colóquio e no seu efeito nos agentes económicos e sociais da região em que ocorre, e me lembrei da frase do título.
Não há razão nenhuma para beneficiar os residentes no interior: têm uma qualidade de vida melhor, têm casas mais baratas, têm acesso a melhor alimentação e mais barata, se quiserem, têm um acesso a boa parte dos serviços públicos que é muito melhor que os que vivem nas maiores cidades, e têm, também, outras coisas em que os habitantes das grandes cidades estão mais bem servidos.
No essencial, estamos ela por ela.
Há menos emprego, é certo, mas isso é uma questão menor: ou há razão para supôr que deve haver mais gente nos territórios de baixa densidade, e é preciso explicar que razão é essa, ou não há, como penso que não há, e a gente que lá está é o que é, nem bom, nem mau.
O que é um problema é o facto de haver uma gestão do território modelada pelo abandono, que tem efeitos positivos (os nossos sistemas naturais estão em franca evolução positiva) mas tem grandes efeitos negativos, quer na produção de riqueza (o risco de fogo diminui muito a competitividade de várias actividades económicas), quer nos custos sociais em mortes, destruição de infra-estruturas, diminuição da amenidade do território, etc..
Isso não se resolve com mais gente, resolve-se com mais gestão, o que não é a mesma coisa.
É aqui que entra o tal colóquio: o tema é exactamente a gestão da transição dos matos para os carvalhais, aumentando a diversidade e utilidade social dos territórios, e os palestrantes são do melhor do país nas suas áreas de trabalho: Carlos Aguiar é seguramente dos melhores botânicos e ecólogos que temos, António Salgueiro das pessoas que melhor usam o fogo controlado, Aldo Freitas é reconhecidamente do melhor que se encontra no uso da engenharia natural, Avelino Rego tem um trabalho notável de gestão do baldio de Alvadia com gado e a Mossy Earth é uma boa ilustração de como uma start up internacional se pode interessar pelo assunto e trazer recursos para a gestão.
Dir-se-ia que as pessoas que estão no tal interior e que reclamam recursos de terceiros para fazer não sei que benefícios sociais para todos, estariam interessadas em discutir o assunto, ver o que poderiam eles próprios fazer pela gestão do território em que vivem, etc..
Não, não é assim: uma boa parte destas pessoas especializaram-se em fundos europeus e projectos de financiamento, a sua verdadeira actividade (as autarquias são exímias nisso) é a captação de recursos de terceiros para manter em funcionamento uma economia e uma sociedade que reclama o direito divino a viver onde está, sustentada por terceiros.
E é aqui que está o busílis da questão: do que o interior precisa (e até tem em muitos exemplos, a que infelizmente o "interior" dá pouca atenção) é de pessoas que se especializem em contar consigo próprias, que inventem soluções sustentáveis para a sua vida.
Mas para quê fazer este esforço, para quê meter-se nesse caminho de pedras, incerto, trabalhoso, quando é tão fácil reclamar mais e mais estatuto de excepção que canalize recursos de terceiros para as regiões?
Do que o "interior" precisa é de menos paternalismo de quem lá não está, e menos choraminguice de quem está.
Do que o interior precisa é de pessoas que saibam e, sobretudo, queiram, fazer empresas competitivas que não têm medo de vender em qualquer parte do mundo, não é de apoios a modos de produção e gestão que, objectivamente, prolongam uma agonia económica que se justifica com mitos sobre o passado e sobre as injustiças do passado a que o "interior" foi sujeito.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.