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Debates, debatentes e «arroseurs arrosés»

por José Mendonça da Cruz, em 12.02.24

(hoje no Observador)

Os debates eleitorais têm interesse. Os debates eleitorais têm audiência. Já o «achismo» dos comentadores, não sei…

Gosto dos debates eleitorais nas televisões. Gosto mesmo dos debates eleitorais nas televisões.

Gosto, primeiro, porque nos chegam sem filtros, e, por isso, são informação em estado bruto. Cada participante diz o que quer – sem que aquilo que disse seja truncado, ou treslido com alguma adenda escrita ou em voz off.

Foi assim, por exemplo, que, em dois debates, soube mais sobre o programa de governo da AD do que em semanas em que a comunicação social se esforçou por omitir informação sobre ele, ou sobrepor-lhe notícias menores (a casa de Espinho, a presença ou ausência de Passos Coelho, a presença ou ausência de outra figura da AD).

Foi assim, por exemplo, que vi expostos a clara luz o programa e as intenções do Bloco de Esquerda. Não as vozes maviosas, nem as expressões condoídas, mas o verdadeiro programa e as reais intenções.

Foi assim, por exemplo, que compreendi que Pedro Nuno Santos não tem uma ideia. Aliás, tem uma. O papagaio de Samuelson, que tinha dois neurónios, tinha dois motes: oferta e procura. Pedro Nuno Santos, que só tem um (mote, quero eu dizer) só sabe dizer Estado-Estado-Estado.

Gosto, em segundo lugar, por serem esclarecedores, não apenas no que é dito, mas na linguagem corporal, na linguagem facial.

Foi assim, por exemplo, num notável momento de televisão – desses em que a imagem vale mil palavras – que vi Mariana Mortágua, descomposta pela argumentação de Montenegro, encerrar uma fraca réplica com um sorriso que era um arreganho raivoso. Como nas Novas Andanças do Demónio, «saía-lhe fumo pelos intervalos do riso».

É assim que – lamentando o que vejo – vejo como o olhar de Rui Rocha não pára de deambular por pessoas e cenários, num sintoma de insegurança que deveria corrigir depressa.

Foi assim, por exemplo, que vi as inegáveis qualidades de tribuno e polemista de André Ventura, a exuberância e o tom categórico que tanto atrapalham os adversários, virarem-se contra ele, e porem várias propostas em dúvida.

Gosto, em terceiro lugar, porque os participantes estão sozinhos na função, não podem contar com a ajuda de plateias fiéis, profissionais de relações públicas, ou jornalistas simpatizantes (sobre a ajuda de comentadores, lá iremos). Nos debates, eles estão sozinhos.

Vejo, por exemplo, como as aparições de Pedro Nuno Santos – não apenas nos debates, mas sobretudo nos debates – relembram dolorosamente um historial de governação lamentável, e põem em cruel evidência a impreparação pessoal e política. Terão notado como – não apenas por causa dos debates, mas sobretudo por causa dos debates – as classificações enlevadas de «enérgico» e «carismático» com que era habitual virem adornadas as notícias sobre PNS, pois bem, terão visto como esses adjetivos fugiram espavoridos de cena.

Depois, há os comentadores televisivos dos debates eleitorais.

Não gosto nada dos comentadores televisivos dos debates eleitorais – os quais, aliás, passei a abster-me de ver.

Não gosto, em primeiro lugar, do esforço vão de originalidade que os leva a «achar» coisas extraordinárias. Uma das coisas extraordinárias que os comentadores «acham» é que os participantes nos debates (citação literal:) «falam para os convertidos». Estes comentadores «acham», portanto, que os participantes nos debates deviam, mais do que expor as suas ideias e programas, dissertar sobre, sei lá, as promessas da nanotecnologia, a situação política no Iémen, as nuvens cúmulo-nimbo e a aviação civil, os segredos da jardinagem.

Não gosto, em segundo lugar, mas acima de tudo, do enviesamento ou da cegueira. Não me incomoda que na sua confrangedora fidelidade Neves ou Pratas incensem PNS. Mas aflige-me que perante as mentiras descaradas de Mortágua (e deve-se sublinhar que «mentira», neste caso, não é ausência de verdade, mas o exato oposto dela), perante aldrabices gritantes, a generalidade dos comentadores a imagine triunfante.

Por fim, e tal como os comentadores, também eu vou «achar» coisas. Eu acho que os comentadores dos debates televisivos estão a fazer nascer um sentimento geral de que a sua intervenção é, não apenas inútil, mas sobretudo prejudicial. Eu acho que isso é péssimo para eles. Eu acho que este é mais um caso clássico do arroseur arrosé. Mas eu acho que eles lá sabem…


15 comentários

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De O apartidário a 12.02.2024 às 20:40

"Vejo, por exemplo, como as aparições de Pedro Nuno Santos – não apenas nos debates, mas sobretudo nos debates – relembram dolorosamente um historial de governação lamentável, e põem em cruel evidência a impreparação pessoal e política."   -----------------  Exacto. E chega a ser chocante de tão evidente se mostra tal impreparação. 
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De IMPRONUNCIÁVEL a 12.02.2024 às 23:32

Será? Essa opinião não é demasiado parcial? 


O PSD caiu no engodo que o PS lhe ofereceu. 


O PS, de propósito, deixou o PSD convencer-se dessa «narrativa do caos e da má governação dos últimos 8 anos». Porque tem dados objetivos que a desdizem (obviamente o país não está no caos, e os indicadores da UE, BCE, FMI, OCDE, Eurostat, INE, rating, Dívida, valor dos apoios à habitação, saúde e educação, etc., confirmam a boa governação do PS). 


Eu (que não voto, nem dou autorização que me representem, nem sou defensor deste regime a que chamam 'democracia') teria mais prudência na análise e na estratégia. 


O PSD já não consegue fugir dessa «narrativa do caos e de que a governação do PS foi um descalabro». Mas as eleições são só daqui a 1 mês, e nessa altura a realidade dos factos vai demonstrar o contrário de um país no caos. 


A corrupção na Madeira também não ajudará o PSD neste final da campanha eleitoral.


A parcialidade tolhe a razão, e não é boa conselheira.
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De Ricardo a 13.02.2024 às 09:41

A sua suposta imparcialidade(também ela impronunciável?)é uma anedota. (Basta tomar atenção aos seus coments,nos quais mistura as narrativas anti-sistema ,em parte até pertinentes,com uma opiniāo a favor de um dos lados políticos do mesmo sistema que critica).
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De IMPRONUNCIÁVEL a 13.02.2024 às 15:02

Mas já reparou nos dados da OCDE, FMI, BCE, UE, Eurostat, INE? Vamos distorcer e negar esses resultados?
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De Filipe Costa a 13.02.2024 às 12:29

"A parcialidade tolhe a razão, e não é boa conselheira."


Pense bem nisso.
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De IMPRONUNCIÁVEL a 13.02.2024 às 16:28

--- “As exportações portuguesas de metalurgia e metalomecânica atingiram em 2023 um novo recorde de 24.017 milhões de euros, mais 4,3% face a 2022, obtendo seis dos 10 melhores resultados mensais de sempre.” (INE).

 

--- “Portugal teve um dos melhores desempenhos da OCDE no que diz respeito ao crescimento da Economia em 2023, e também dos rendimentos das famílias” (OCDE Relatório).

 

--- “As exportações portuguesas de frutas, legumes, flores e plantas ornamentais atingiram em 2023 um novo recorde de 2.300 milhões de euros, um aumento de 11,4% face a 2022” (Associação Portugal Fresh).

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De RR a 12.02.2024 às 21:04

Excelente alegoria a sua no final: arroseur arrosé! De facto, os comentadores, particular, e jornalistas em geral (estes já mal se distinguem daqueles), vêm (auto)confirmando a sua inutilidade como intermediários na comunicação entre a fonte e o consumidor de informação.
Quanto a PNS, em particular, de facto, o homem mostra-se aquilo que é, um desmiolado...
 
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De IMPRONUNCIÁVEL a 12.02.2024 às 22:32

Quem vai ganhar estas eleições de 10 de março? Alguém terá «maioria significativa ou absoluta»? Ou será uma vitória por uma margem mínima, que criará permanente instabilidade até às eleições presidenciais de 2026? Qual o candidato a presidente da república em 2026 que beneficiará mais com a instabilidade?
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De Albino Manuel a 13.02.2024 às 08:44

Com uma excepção, em reprise - Sousa Real e Ventura - não vi bem tenciono ver debates. Aquele vi para ver se as análises coincidiam com o que via. Não tinham. Aprendi aliás a não levar à letra os artigos de imprensa. Muito pelo contrário, há que desconfiar. Como antes de 25 de abril de 1974, devem ser analisados nas entrelinhas. Uma omissão diz tanto ou mais que um parágrafo. 


Quanto aos comentadores, bom, é uma forma parasitária de ganhar a vida. Não me passa pela cabeça perder tempo ouvi-los. Teria algumas sugestões para os pôr a trabalhar: Gulag, campesinato na revolução cultural maoista, Tarrafal. Não é preciso chegar a tanto: basta evitar a caixa que mudou mundo. Hoje, fora um ou outro dos tempos em que via televisão, não sei os nomes deles nem os programas.
Informação não falta. Com o google tenho o que quero.
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De Jorge a 13.02.2024 às 09:14

Os comentadores pós- debates parecem-se cada vez mais com os paineleiros dos programas da bola. A sua parcialidade e facciosismo é tão evidente que já deixei de os ver há muito. 
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De O apartidário a 13.02.2024 às 09:44

Exactamente, o que vale (ou não) é que já há comentadores a comentar os comentários de outros comentadores.  é um circo político-mediático muito completo. 
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De Anonimus a 13.02.2024 às 10:50

A "análise " e as notas às prestações nos debates valem tanto como as avaliações nos programas da bola. A diferença é que nestes os adeptos estão correctamente identificados com os seus clubes.
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De anónimo a 13.02.2024 às 11:14


Muito bom JMdC. 
Com este sistema eleitoral nunca haverá boa governação, apenas psicodrama da pior espécie.
Votar em partidos confere a um único personagems demasiado poder. E se este for débil?.
 

Votar em candidatos permite uma seleção apurada logo à partida. E permite o amortecer da asneira no exercício do cargo, pois o ridículo mata e os pares põem água em fervuras psicóticas. Mais, um resultante assim selecionado PM -limpidamente escolhido pela multitude dos previamente selecionados e não pela sua pia congregação- não se eternisa, ele e o seu mais que provável poder (auto)destruidor, durante e depois do cargo. 
Aprendam com quem tem esse saber com séculos de experiência feito.
 
Afinal será coerente um PM ungido por 1/4 do eleitorado (a sua congregação), expressamente recusado pelo outro 1/4 e completamente ignorado pela outra vastíssima metade de um já escaldado e indiferente eleitorado?.

Perguntem a professores, médicos, autoridades policiais, jóvens...
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De O apartidário a 13.02.2024 às 12:25

Todos todos todos para Oeiras e em força (ou 'era uma vez um país seguro')


https://oplanetadosmacacospoliticos.blogs.sapo.pt/todos-para-oeiras-e-em-forca-86194
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De João Ribeiro a 14.02.2024 às 15:52

Bom texto.

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