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Das "Memórias de um Átomo"

por João-Afonso Machado, em 22.07.15

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«O Conselho de Ministros reunira de emergência dado o despropósito das massas, a galgarem o escadório de S. Bento. Presentes, António Costa, o Chefe do Executivo, e os titulares das pastas do Trabalho, Emprego e Colectividades, Jerónimo de Sousa, e da Igualdade, Solidariedade e Direitos dos Animais, Mariana Mortágua. Invocando cada um a sua justificação, os restantes 22 ministros haviam-se escusado comparecer.

Não obstante os falsos rumores levantados pela Imprensa, verificou-se uma convergência unânime de opiniões: era absoluta a divergência de opiniões entre os parceiros da coligação. Essa a razão porque o 1º Ministro se vira obrigado a convocar os camaradas...

- Perdão! O tratamento de «kamarada» é exclusivo dos militantes do PC!

- Mas eu tratei-o apenas por «camarada»...

- Ah, está bem! Eu pensei ter ouvido «kamarada»

- Camarada e kamarada, o descontentamento popular resulta apenas das medidas austeritárias contra os direitos dos animaizinhos. Acabemos já com as touradas...

- Mas, camarada...

- Outra vez?

- Camarada: eu disse c-a-m-a-r-a-d-a!

- Bom...

- Camarada, se extinguimos as touradas lá se nos vão Santarém, Évora, Lisboa, talvez Setúbal, Portalegre...

- E Pirescoxe, kamarada, avante! com outros temas. Olhe mas é o salário minimo, uma vergonha! Os ricos que paguem a crise!

- Pois kamaradas - digo camarada e kamarada - verifico agora que as mulheres se encontram em minoria nesta reunião. Proponho o seu adiamento até que alguma camarada ou kamarada compareçam e desempatem esta desigualdade.

- Já agora há de pedir ao seu kamarada ministro da Fazenda, o Luis Finanças, isto é, ao contrário, o Fazenda das Finanças para vir também.

- Camarada e kamarada, os direitos dos trabalhadores são inadiáveis!

- Também os dos bichinhos, kamarada, mas os meus secretários de Estado dos Animais em Cativeiro, o Dr. João e a Dra. Catarina, não há meio de se entenderem e apresentarem o seu Livro Negro do Zoo...

- Então, camaradas, suspendamos os trabalhos por hoje. Aliás, tenho um almoço com o subsecretário de Estado das Auto-estradas dos Sul, o camarada Pedro Silva Pereira.

- Kamarada, não, camarada, camarada.

- Sim, sim, c-a-m-a-r-a-d-a...».

 

(Com a aquiescência do meu bom Amigo J. da Ega, a quem mui grato sou).



13 comentários

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De Costa a 22.07.2015 às 23:15

Eu só não envolveria aqui a questão dos direitos dos animais (e a barbárie repugnante da tourada). Trata-se de coisa demasiado séria para integrar o pano de fundo de uma sátira à vigente estupidez humana. Mais triste ainda é vê-la identificada quase exclusivamente - e dir-se-ia depreciativamente - como um capricho da chamada "esquerda" dessa estupidez. Quando deveria ser preocupação universal e um elemento distintivo dos verdadeiros Humanos por entre os meros "seres humanos".
Costa
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De João-Afonso Machado a 23.07.2015 às 07:24

Sabe, os «direitos dos animais» poderão e deverão até ser objecto de legislação protectiva. Eu seria o último a maltratar os animais e, como caçador, não considero fazê-lo mais do que os donos de um aviário ou duma pocilga. A caça antes de ser um desporto era um meio de sobrevivência e a sua prática actual está intimamente ligada à natureza.
O problema é que os «direitos dos animais» emanam dos deveres civilizacionais, tal qual os «direitos florestais» (e as florestas passam a vida a arder...).
Explorar os «direitos dos animais» como se falássemos do ser humano - e é isso que pretendo com este post realçar - é apanágio da Esquerda e visa, penso eu, ruir os alicerces de uma sociedade que sonham destruir.
Daí a «perseguição» às touradas. Nem sou grande aficionado. Mas sobretudo as gentes do sul tem a tourada no coração. Combatê-la é combater uma identidade toda de uma região. E se calhar um dia conseguem. Mas para já, mesmo em Salvaterra (autarquia BE) nem tocaram no assunto - iam corridos.
Eu não ponho aqui os animais ao nível das coisas. Tento dar a entender que a Esquerda cria causas e endeusa seres com objectivos políticos, apenas, e não como atitude própria de pessoas civilizadas.
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De Costa a 23.07.2015 às 11:32

Agradeço a sua resposta ao meu comentário e a fundamentada exposição que nele faz dos seus pontos de vista. Divergimos, nós, ainda que não integralmente, e ainda bem que nos é dado poder aqui civilizadamente manifestá-lo.


Da caça como desporto, quando já não é necessário felizmente a ela recorrer como meio de sobrevivência, nunca eu conseguirei perceber o fascínio de matar. Digamos que ao Miguel Torga, caçador, contraponho eu o João de Araújo Correia, ao explicar-nos em brevíssimas mas inesquecíveis linhas porque deixou de caçar (dois soberbos escritores durienses; é coisa mais forte do que eu, perdoará, o fascínio pelo Douro).


Quanto à tourada, esse cume de sadismo que se deleita com o longo sofrimento de um animal atordoado, reduzido na sua capacidade de defesa, sem hipótese de fugir e que ali está sem o querer (ao contrário do toureiro e afins), talvez de facto combatê-la seja combater a identidade de toda uma região.


Mas de identidades e tradições repugnantes está a História povoada, mesmo por parte de entidades de múnus espiritual que hoje respeitamos e cujo ensinamento procuramos seguir. Houve evolução: o que era apenas natural revelou-se (muito) errado. Corrigiu-se o rumo. Não se ficou na passividade de admitir que algo sendo no fundo inaceitável era assim há muito tempo, era tradição, espécie de dogma, e como tal não se podia ou devia tocar. A tradição é essencial, não tenho dúvida, na fundamentação de uma cultura, na robustez de uma civilização, nos laços que unem um grupo. Mas uma coisa não é necessariamente sempre virtuosa por ser tradicional. Onde estaríamos nós, se assim fosse?


Quanto à esquerda, creia que não guardo ilusões quanto às suas (da esquerda) intenções. Suponho que isso decorre logo do que inicialmente escrevi.


Costa
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De João-Afonso Machado a 23.07.2015 às 12:40

Sim, percebe-se que não estamos na dicotomia Esquerda/Direita.
Mas tenho de acrescentar algo em defesa da caça (e como Torga a escreve tão bem! - eu também caço no Douro).
Mata-se. Mas, animais comestíveis e muito procurados pela boa gastronomia.
E há sempre a inexcedível companhia dos cães, não esqueça. Eu já não gosto de caçar sem os meus perdigueiros ao lado. é uma conversa pegada o tempo todo. E eles fazem um excelente trabalho, é um regá-lo vê-los assim felizes.
Já reparou? A caça proporciona a felicidade dos meus cães.
Cumprts
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De Costa a 23.07.2015 às 17:38

Acredito. Não tendo sido tocado pela graça, chamemos-lhe assim, de compreender a caça fora da estrita necessidade de sobrevivência, acredito (em todo o caso, conceder-me-á, os seus cães não serão dotados daquela coisa que só para nós reservamos: a razão -  e que nos dá acrescidas responsabilidades - ou responsabilidades, pura e simplesmente - perante o que nos rodeia; eles seguirão o seu instinto e o amor incondicional que dedicarão ao seu dono).


E não esqueço, da caça e da sua ligação ao Homem, de Torga, já no final da Vindima, quando Alberto sai a caçar, decidido sim a pôr termo aos seus dias, a comunhão, a derradeira comunhão, com a Natureza, com a caça - e ele deliberadamente falha então todos os disparos sobre coelhos e codornizes... -, e com o Nilo, seu cão ("que ao menos aquela presença o não abandonasse!"). Nilo que - "mas o animal recuou. Ganiu doloridamente e arredou-se" - só não o acompanha no salto final. Mas sofre pelo dono.


Criado desde tenra idade entre animais de companhia, cães e gatos na vastíssima maioria salvos de situações de abandono, doença ou acidente, e na vastíssima maioria perfeitos rafeiros sem ponta de "pedigree" ou destaque similar, sou, passada a metade da vida, sem dúvida uma pessoa de gatos. Mas não concebo que se maltrate um cão e vejo, sobretudo em meu pai, em minha mulher, meu irmão e no meu filho essa absolutamente única comunhão entre Homem e cão. Embora se bastem com as longas caminhadas, sem precisar de nelas exigir a vida de outros animais. 


Sei, do que de si li, que como caçador respeitará tudo o que lhe cumpre respeitar, entre o que a lei e o elementar com senso impõem (e todos assim fizessem...). Boas caçadas, então. Bons passeios com os seus perdigueiros. A quem V. não faltará quando a idade ou a saúde os deixar incapazes para a caça (e todos assim fizessem...).


Costa  
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De João-Afonso Machado a 23.07.2015 às 19:06

Obrigado!
Os cães deram-me quase um aforismo (lema de vida) - já vi muitos donos abandonarem os seus cães; mas nunca vi um cão abandonar o dono (por mais que este o maltrate).
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De carneiro a 22.07.2015 às 23:45

eheheheh...

( a do   "subsecretário de Estado das Auto-estradas dos Sul" está deliciosa)
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De João-Afonso Machado a 23.07.2015 às 07:30

O das Auto-Estradas do Centro é o Lacão. Para o Norte apenas criaram uma Direcção Geral integrada na Secretaria de Estado dos Assuntos Vinícolas, de que é titular aquele rapaz gordinho do BE do Porto, o Teixeira Lopes, creio. Eles são tantos...
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De carneiro a 23.07.2015 às 09:43

"subsecretário de Estado das Auto-estradas dos Sul " e Ilhas.



O conceito indeterminado permite ser integrado com uma dúzia de marcas prequianas.
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De João-Afonso Machado a 23.07.2015 às 11:18

As Ilhas, conquistadas pela nova coligação, seriam elevadas governadas por um César chamado Carlos. Carlos I. Daí será inimaginável o que poderá vir, mas seguramente as estátuas a Jardim vão todas abaixo. E a Mota Amaral restarão os penosos caminhos do exílio.
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De Costa a 23.07.2015 às 12:40

Outro(a) Mota - a Engil - vicejaria então incansável pelas ilhas, betonando e alcatroando empenhada e patrioticamente, em exuberantes PPPs, até cobrir o último metro quadrado de verde.


Costa
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De carneiro a 23.07.2015 às 14:38

 Um TGV para a Terceira e outro para S. Miguel. S.Jorge logo se vê !
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De João-Afonso Machado a 23.07.2015 às 15:04

Os meus amigos são ambos sérios candidatos à pasta da Obras Pùblicas, Monumentos Nacionais e Fomento do Emprego!

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