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Das consequências não pretendidas

por henrique pereira dos santos, em 12.11.25

A ideia de que se o mercado não responde ao que se considera uma necessidade social, o que é preciso é obrigar o mercado a funcionar de maneira socialmente aceitável (ou seja, "é preciso domesticar os mercados") é uma ideia tentadora e de maneira geral defendida com grandes proclamações (ou coisas mais ou menos irónicas como dizer que se a habitação deixar de ser um direito constitucional, o problema fica resolvido, como se as casas aparecessem, aos preços pretendidos, apenas porque alguém escreve isso num papel).

Tem, no entanto, um problemazito: os mercados reflectem a natureza humana, porque são o resultado das interacções voluntárias entre pessoas normais e, embora condicionados pelas regras definidas socialmente, domesticar os mercados corresponde a tentar domesticar a natureza humana.

Ao contrário do que frequentemente se lê por aí, o direito de propriedade não é uma forma de defender as classes dominantes, o direito de propriedade é uma fórmula social alternativa à lei do mais forte, isto é, o direito de propriedade é uma condição de liberdade e, por essa via, uma condição para mercados funcionalmente razoáveis (mercados perfeitos só existem nos manuais de economia).

Sempre que se limita o direito de propriedade, por exemplo, expropriando o direito a construir inerente ao direito de propriedade, ou limitando administrativamente as rendas que remuneram o capital de alguém, o resultado é uma compressão da liberdade dos indivíduos responderem à informação que o sistema de preços produz, o que tem consequências muitas vezes não pretendidas.

Exemplifiquemos com a manipulação administrativa do preço do arrendamento, de maneira geral justificada com necessidades sociais (é preciso que as pessoas consigam pagar uma casa e todos tenham abrigo) e com a desqualificação moral da remuneração do capital investido através da conversa da especulação (um clássico histórico, desde sempre presente na literatura a propósito da falta de coração dos senhorios, mas igualmente presente na condenação secular dos intermediários).

A renda de uma casa é o ponto de encontro entre o valor pela qual o dono da casa está disponível a ceder o seu uso a terceiros e o valor que alguém está disposto a pagar pelo uso da casa de terceiros, eventualmente por não ter (ou não querer usar) capital para a compra ou construção de uma casa própria.

Corresponde ao mecanismo básico de financeirização da habitação

Há algumas condições centrais neste acordo, e condições de contexto que influenciam a vontade dos dois interessados na troca do uso da casa por um valor em dinheiro (tradicionalmente, no mundo rural, a troca não era por valor em dinheiro, mas em trabalho, tal como no caso dos criados que viviam em casa dos seus patrões (daí o termo criado, num tempo de rigidez social acentuada), mas esqueçamos isso agora).

A primeira condição é que o dono da casa, isto é, do capital, pode dispor do capital quando quiser, isto é, pode fazer voltar para si o uso da casa em qualquer altura, e a segunda é que pode definir o valor da renda em função do contexto.

Dada a sensibilidade social de que se reveste a perda de abrigo repentina, em especial quando envolve crianças, velhos ou doentes, o Estado, mais ou menos em todo o lado, impõe algumas regras de protecção dos inquilinos (tal como nas relações de trabalho, as relações senhorio/ inquilino são, de maneira geral, assimétricas), mas a verdadeira liberdade do inquilino consiste em poder mudar de casa a qualquer momento, se assim o entender.

Quando se limitam as rendas, e as possibilidades de despejar os inquilinos indesejados, o resultado prático é que o mercado de construção para arrendamento, que consiste em mobilizar poupança de uns para garantir casas a outros mediante um pagamento definido, é um mercado mais arriscado e menos interessante, o que faz com que o capital para a construção de casas, isto é, aquilo que aumenta a liberdade do inquilino mudar de casa em qualquer momento, diminua.

Por um lado, parte do capital é desviado para outros sectores (ver aqui o que aconteceu em Portugal nas últimas décadas), por outro, o mercado de construção orienta-se para a venda de casas, isto é, limita o acesso à habitação dos que não têm capital suficiente para comprar uma casa própria (ter capital pode ser, parcialmente, substituído por ter crédito).

O controlo das rendas parece uma boa ideia para quem já tem um contrato de arrendamento, especialmente se estiver associado a regras de protecção contra despejos muito favoráveis aos inquilinos (e nem precisam de ser favoráveis aos ocupas, como em Espanha), mas não resolve o problema de quem procura casa porque a oferta de arrendamento se reduz substancialmente, provocando um aumento do valor das rendas, quando não mesmo o desaparecimento do mercado de arrendamento, aquele que permite a quem não tem capital nem crédito, isto é, os mais pobres e vulneráveis, aceder a uma casa.

Mas mesmo para quem já tem um contrato de arrendamento que o senhorio não quer, mas que o Estado o obriga a aceitar, o resultado é a progressiva degradação da casa, ou a progressiva substituição do senhorio pelo inquilino na responsabilidade de manter a casa em boas condições (com o que isto significa de conflito potencial entre senhorio e inquilino).

Com uma terceira implicação, aqueles que procuram uma casa são empurrados para a sua compra, pressionando a procura e fazendo subir os preços de venda, o que implica um efeito de aumento do valor da renda (para além do prémio de risco que a protecção dos inquilinos, por intervenção do Estado, implica para os senhorios), para obter o mesmo retorno do investimento.

Resumindo este post, na medida em que o mercado de arrendamento se vai tornando mais regulamentado e desfavorável aos senhorios, vai definhando e contribuindo para o aumento do valor das casas para venda e escassez de casas para arrendamento, limitando a liberdade dos inquilinos mudarem de casa facilmente, o seu principal instrumento de negociação com o senhorio.

O apoio do Estado ao acesso à habitação dos mais pobres traduz-se num aumento de procura, o que significa aumento de preço, e as limitações à liberdade das pessoas responderem à procura, seja por limitação das rendas, seja por limitação administrativa da capacidade de fazer casas, acaba por contribuir para acentuar a escassez de casas e impulsionar o seu preço no sentido da subida.

O corolário lógico do que escrevi, é que a maneira mais simples e rápida de responder à pressão da procura de casas é a total liberalização do mercado de arrendamento, associada a programas sociais de apoio a quem não tem rendimentos para suportar os efeitos imediatos dessa liberalização nos contratos mais antigos (nos contratos mais recentes o efeito da liberalização pode mesmo traduzir-se num abaixamento das rendas, embora me pareça, intuitivamente, que esse efeito seria, em qualquer caso, relativamente limitado).

A médio/ longo prazo, não vejo como se possa responder à procura sem aumento da construção de casas e deslocalização de emprego.


16 comentários

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De Anónimo a 12.11.2025 às 12:53


a liberdade dos inquilinos mudarem de casa facilmente, o seu principal instrumento de negociação com o senhorio


Exatamente.


Quem está mal, muda-se.


Eu quando vivi nos EUA fiquei muito descontente com a primeira casa que arrendei. A solução foi simples, quando o contrato estava prestes a terminar fui procurar uma casa melhor, que encontrei facilmente.


A solução não é mandar vir com os senhorios. É os inquilinos descontentes terem a possibilidade de se mudar.
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De Anonimo a 12.11.2025 às 13:37

a maneira mais simples e rápida de responder à pressão da procura de casas é a total liberalização do mercado de arrendamento


SIM

a programas sociais de apoio a quem não tem rendimentos para suportar os efeitos imediatos dessa liberalização nos contratos mais antigos
NAO

Intervenção estatal, zero.
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De henrique pereira dos santos a 12.11.2025 às 14:08

Não percebo por que razão ainda não emigrou para o Sudão, onde o Estado é virtualmente inexistente.
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De Anonimo a 12.11.2025 às 19:31

Primeiro,  não sabe se emigrei ou não. 
Segundo, o Sudão não é uma democracia com valores ocidentais. 
Terceiro,  o Estado, como o hps defende tem os seus deveres, nomeadamente segurança,  justiça. 
O mercado funciona, essa é exactamente a tese deste e anteriores textos, deixem o mercado funcionar 
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De Anónimo a 12.11.2025 às 13:42

Claro que terá de acontecer um aumento da construção para responder há procura. 

E aqui o Estado terá de intervir, cedendo parcelas de território e no limite, sendo ele a construir.


Muito simplesmente as pessoas não têm rendimentos.


Sendo as que têm, uma minoria tão minoritária que não passam da sombra de um mercado. Um nicho, se tanto.


Alberto João jardim resolveu a questão na Madeira (com a inestimável ajuda de fundos Europeus e de Portugal) de forma brilhante.


Fez a ilha progredir e ganhou o reconhecimento e estima inegável da população.


Creio ser um exemplo a ser seguido.
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De Anónimo a 12.11.2025 às 14:24


Alberto João jardim resolveu a questão na Madeira (com a inestimável ajuda de fundos Europeus e de Portugal) de forma brilhante.


Mais brilhante foi a ação de Mesquita Machado à frente da câmara de Braga. Tornou Braga na cidade com as casas mais baratas do país (para cidades da sua dimensão).
Uma prima da minha mulher vive em Braga sozinha numa belíssima moradia. que foi, segundo me disse, bastante barata.
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De Anónimo a 12.11.2025 às 15:03

Não "responder há procura"  😣  e sim "responder á procura" 😃




Sorry
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De Filipe Costa a 12.11.2025 às 18:18

Já ouviu falar em cooperativas? Mesmo para quem não tem grandes rendimentos, olhe que funciona.
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De Anónimo a 13.11.2025 às 18:29

A dada altura, um bocado lá para trás, pareceu que viria por aí um surto de cooperativismo.


Por qualquer razão a coisa esvaiu-se.


Creio que no fundo a coisa vai sempre bater á mais velha das explicações portuguesas; 




Falta de meios 😱




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De Filipe Costa a 15.11.2025 às 14:50

Eu comprei casa em cooperativa. Nao percebi.
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De cela.e.sela a 12.11.2025 às 14:34

considero construir casa para arrendar o último investimento que recomendo.
há vários investimentos mais fáceis, lucrativos e com menor capital e risco, sem grande esforço de pesquisa de mercado.
conheci um homem de 80 anos que nos anos 70-90 tinha um grupo bem pago que se encarregava de fazer "déménagement" de inquilinos e ocupas: até lhes diziam que nunca tinham tido necessidade do imóvel.
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De Anónimo a 12.11.2025 às 15:29


Discordo.
Uma casa é, se bem localizada, um ativo quase perpétuo. Pode não dar muito dinheiro em cada ano, mas a muito longo prazo - isto é, se se quiser deixar para os filhos - compensa.

Arrendar não é uma atividade de grande risco, se se cobrar uma renda suficientemente baixa para se ter a certeza de que os inquilinos não querem estragar a casa nem trocá-la por outra.
Ativos financeiros rendem mais mas, dada a desordem do mundo económico e financeiro atual, são mais perigosos e evanescentes.
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De cela.e.sela a 13.11.2025 às 10:46

vive no paraíso
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De Filipe Costa a 12.11.2025 às 18:17

Eu volto à justiça. Para despejar um inquilino que não paga há mais de 3 meses, ou anos, quanto tempo demora? Até os okupas demora uma eternidade.


Eu estive a ver como funciona nos EUA e aquilo é sem paleio, 3 meses de atraso e as malas são postas à porta. Sem mais.
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De Anonimo a 12.11.2025 às 20:28

Excelente texto
Muito mais sumo que vasta maioria de ensaios académicos e artigos de "peritos" sobre o assunto
Que alguém com responsabilidade governativa leia e implemente
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De Anonimo a 13.11.2025 às 06:07

Concordo a 100% com o texto. É preciso deixar o mercado funcionar. Liberalização total. O mercado irá ajustar-se à procura disponível.

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