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Da bondade

por henrique pereira dos santos, em 20.08.20

"Eu fico feliz que os velhotes, que talvez até estejam habituados a ter horas para regar e não regam fora delas, se sintam mais seguros porque não precisam de ir fazer compras, alguns até têm quem vá dar de comer aos animais, outros vão regar sem terem de se cruzar com vizinhos que não sabem se lhes pegam alguma coisa se não. É que os morense até podem ser velhos mas imagino que têm amor à vida e não lhes apetece ir parar aos cuidados intensivos como alguns dos vizinhos e devem estar-se nas tintas para quem defende as suas mais amplas liberdades no FB".

Este é um comentário de ontem à minha diatribe contra os excessos regulamentares e a prepotência dos pequenos poderes em roda livre à conta da epidemia.

É um comentário bondoso e cheio de preocupação, aliás legítima, com o medo que os velhotes de Mora têm de ir fazer companhia às cinco ou seis pessoas da vila doentes com covid. Não tenho nada a dizer sobre o comentário, que me parece nobre e bem informado.

Agora vejamos as consequências da sua aplicação, porque há poucas coisas mais mortíferas que ideias piedosas aplicadas sem consideração pelas suas consequências não pretendidas.

As medidas tomadas em Mora, que levaram, de resto, a GNR a identificar uma mulher de 68 anos a que a autoridade de saúde aplicou uma pena de prisão domiciliária (em lado nenhum se diz, sequer, que a senhora está infectada, e muito menos doente, não se sabendo, por isso, qual é a probabilidade de ser infecciosa) que a senhora resolveu não respeitar, salvando-a do suicídio potencial que é sair de casa, quando aplicadas à escala global, como estão a ser aplicadas - não são muito diferentes das medidas tomadas actualmente pelo governo neozelandês, por exemplo, com base na mesma lógica bondosa de salvar vidas - têm um efeito também global.

Este tipo de estimativas têm de ser vistas com muita cautela, mas são bastantes as fontes, e sólidas, que falam em cem milhões de pessoas empurradas para a pobreza, não tanto em Mora, claro, mas em sítios esquisitos como Dhaka, por exemplo.

Uma parte substancial desses cem milhões seriam sempre empurrados para a pobreza porque faz parte das consequências de uma epidemia a retracção económica decorrente das alterações de comportamento das pessoas, isso é absolutamente certo.

É verdade que os governos têm muito pouco poder para travar o pânico social associado a ameaças sentidas como reais, próximas e pessoais.

Mas não é indiferente usar o pouco poder que têm para potenciar esse medo, como está neste momento a acontecer em Portugal à medida que se aproxima a abertura do ano escolar e vai crescendo a campanha sobre os riscos de contágio associados à abertura de escolas, ou usar esse poder para racionalizar, na medida do possível, esse medo.

O comentário acima é um bom exemplo de bondade selectiva: toda a empatia para os riscos que a epidemia cria para os grupos vulneráveis à doença e aos seus efeitos mais graves, zero de empatia em relação aos riscos que as medidas tomadas para gerir a epidemia criam para os grupos vulneráveis às flutações económicas e à fragilidade social.

As medidas de saúde pública não são globalmente neutras e são demasiado importantes para serem deixadas ao livre arbítrio dos que decidem sobre a gestão dos sistemas de saúde pública, em especial em situações excepcionais em que esta bondade selectiva está à flor da pele de tanta gente que se recusa a olhar para o lado e, sequer, ponderar os efeitos negativos de cada opção.

A questão não é a defesa da liberdade dos velhinhos de Mora - o que em si não seria irrelevante - a questão é mesmo a de saber qual é a preparação do delegado de saúde para compreender os efeitos globais das medidas que toma sem qualquer controlo ou escrutínio.

Pessoalmente acho que seria muito mais útil ter os delegados de saúde a passar a pente fino as condições de cada um dos milhares de lares que existem, olhando para eles partindo do princípio que a entrada da epidemia é uma inevitabilidade, em vez de os ter a analisar que velhotes podem ir regar ou não a sua horta, perseguindo a vã esperança de que se todos estivermos quietos a epidemia morre à fome e, assim, não entra nos lares.

Entra sim, é melhor partir do princípio de que isso é uma inevitabilidade, tal como é uma guerra perdida pretender apagar todos os fogos nascentes antes que sejam grandes, como forma de diminuir a área ardida.

Olhando para os anos que demorou até que os gestores do fogo, em especial os da linha da frente - é assim que agora fica bonito, não é? - percebessem que andar a correr atrás de todos os fogos era inútil, e que seria melhor começar a olhar seriamente para as condições que provocam perdas sociais, temo que só à décima epidemia seguida "os da linha da frente" da saúde comecem a perceber que as condições em que funcionam os lares é um problema bem mais grave que o do número de contágios.

As medidas para liquidar todos os fogos o mais rapidamente possível são puro desperdício económico, ao contrário das medidas de gestão das condições do território para integrar o fogo, que têm grandes benefícios no emprego, na riqueza, na qualidade da paisagem, só que custam muito mais em tempo, conhecimento, organização e geram menos visibilidade política.

Medidas brutas e espetaculares para diminuir o mais possível a actividade do vírus geram ineficiência económica, ao contrário de medidas de apoio à melhoria dos lares e da velhice em geral, que teriam incontáveis benefícios na qualidade do fim de vida de todos nós mas têm o problema de dar resultados lentamente e serem como o trabalho da dona de casa: não brilha.

No fundo, é de facto uma questão de bondade, porque fazer o que está certo não dá grande retorno a quem fizer essa opção: ou se faz por convicção, ou se é para fazer por cálculo político, não vamos sair tão cedo do atoleiro em que estamos, com o beneplácito da bondade selectiva que escolhe desconhecer a miséria em Dhaka.



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