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Crónicas de resistência

por henrique pereira dos santos, em 21.05.22

Estive, na semana passada, no lançamento do livro do João Távora que tem tido aqui no blog várias referências.

Depois disso li-o, com proveito.

Será bom, para quem o leia, estar atento ao sub-título, é um livro de crónicas, não é um livro de história, embora sejam crónicas históricas.

E, desse ponto de vista, é um livro que vale a pena.

Tenho ideia de que no prefácio o meu cunhado Carlos (fica feita a declaração de interesses, Portugal é muito pequenino) diz que não é habitual termos o ponto  de vista das classes dominantes e, sem bem percebi a ideia, estou de acordo com ela, embora não exactamente com a forma como é descrita a ideia.

Parece-me que a história é, por definição, o ponto de vista dos vencedores, ou seja, dos que estiveram do lado certo da história, sendo o lado certo uma categoria literal - os que ganharam e se tornaram dominantes - e não uma  categoria moral, o lado do bem.

O que me parece mais interessante no livro, e é assim que leio a tal passagem do prefácio, é mesmo que estas crónicas da história são feitas a partir do ponto de vista dos que estiveram sempre, sempre, do lado errado da história, no sentido do lado que perdeu sempre, independentemente da sua eventual razão.

E mais interessante ainda é o facto destes perdedores saberem que são perdedores, que provavelmente serão perdedores no futuro e, ainda assim, persistirem no "erro", porque aquilo que entendem representar é mais do que aquilo que são.

Já nos anexos do livro, aparece a chave de leitura, que aliás João Távora refere na conversa que ocorreu no lançamento do livro: "A minha situação financeira no momento permitia-nos ausentarmo-nos de Portugal por algum tempo, pois tinha uma determinada quantia em ouro num banco. É verdade que se o movimento [se] gorasse ou demorasse muito ver-nos-íamos em sérios embaraços seguidos fatalmente da ruína total. Se ficássemos, porém, a ruína viria igualmente, embora mais demorada, pois o meu rendimento não me chegava de maneira nenhuma para viver, e como estavam as coisas públicas não via maneira de o aumentar de maneira nenhuma. A ter der cair na miséria, antes fazê-lo com honra".

Por coincidência, foi no mesmo dia em que li esta parte do livro que apareceu nos jornais a notícia de um estudo sobre os jogadores de raspadinha, maioritariamente dos estratos mais pobres, e que gastam rios de dinheiro neste jogo de azar, fazendo de Portugal, de longe, o país da Europa em que mais se gasta, per capita, neste jogo.

Será eventualmente absurdo, mas para mim foi imediata a semelhança de atitudes, quer das elites, quer do povo, depositando todas as suas esperanças num futuro melhor na roda da fortuna, como se apenas as circunstâncias definissem o futuro, independentemente dos esforços individuais, um bom indicador de como está (e provavelmente sempre esteve, em maior ou menor grau) avariado o elevador social em Portugal.

O que estas crónicas têm de interesse tanto diz respeito a quem gosta de ver a história de vários pontos de vista, como de quem gosta de olhar para o que se passa à sua volta para procurar entender de onde vem e para onde vai o mundo em que vive.

Eu acho que o livro valeu bem os vinte euros que paguei por ele.



4 comentários

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De lucklucky a 21.05.2022 às 18:41

"Parece-me que a história é, por definição, o ponto de vista dos vencedores, ou seja, dos que estiveram do lado certo da história, sendo o lado certo uma categoria literal - os que ganharam e se tornaram dominantes - e não uma  categoria moral, o lado do bem."


A História é de quem a escreve, conta e de quem domina a comunicação, não necessáriamente dos vencedores. 






"...  quer do povo, depositando todas as suas esperanças num futuro melhor na roda da fortuna, como se apenas as circunstâncias definissem o futuro, independentemente dos esforços individuais, um bom indicador de como está (e provavelmente sempre esteve, em maior ou menor grau) avariado o elevador social em Portugal...."



De facto.
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De Anónimo a 22.05.2022 às 11:07

Depois disto, evidentemente que vou adquirir o livro do João Távora. A História sob outro ângulo que não a dos "vencedores", aqueles que "escrevem" a História. 


Interessante,  lembrei-me de que os mais velhos de minha casa costumavam dizer, com certo orgulho,  que as várias gerações estiveram sempre do lado "errado" da História: eram miguelistas convictos e foram depois ferrenhos monárquicos bastante activos durante o processo da implantação da república e a tal ponto a recusaram _ era gente de "antes quebrar que torcer"_ que optaram pelo exílio. Regressaram num período que lhes pareceu de acalmia, quando se rompeu com a balbúrdia da 1ª República e se pôs fim ao anticlericalismo e ao radicalismo jacobinista. Não viveram para opinar sobre a nossa História recente, mas adivinho de que lado estariam: do lado "errado" como sempre, sendo pouco maleáveis e não dominando a "arte" dos que sabem adaptar-se às leis da sobrevivência. Uma raça praticamente extinta.
 
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De balio a 23.05.2022 às 17:42


como está avariado o elevador social em Portugal


Hoje em dia esse elevador social está completamente empancado logo ao nível da escola. O ensino atual é organizado, pelos professores, no sentido de os alunos serem forçados a estudar em casa na companhia e com o apoio dos pais. Se não houver pais ou outros adultos disponíveis em casa, então o aluno não aprende nada, porque na escola quase nada se ensina.


Casaram-se assim uma ideologia de esquerda, que diz que o professor apenas deve orientar o aluno para ele desenvolver o seu interesse pelo estudo, com interesses de direita, que pretendem que se reproduzam de geração em geração as desigualdades sociais.


O que me surpreende é a forma como todos os professores seguem este modelo absolutamente criminoso.
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De Anónimo a 24.05.2022 às 08:30


Conheço casos de crianças e adolescentes na família a quem pergunto se trazem trabalhos para casa (t.p.c.) ou alguma matéria para estudarem e assim consolidarem o que aprenderam na escola. Sabe o que ouço a maioria das vezes? Que não, que não trazem nada para fazer em casa e que o "stor/a" até lhes "concedeu" os últimos 20 minutos da aula para fazerem os t.p.c. Espantoso, não acha?
 Portanto o Balio anda com sorte, pois a realidade que conhece é bem diferente da minha: pelo menos esses alunos a que se refere trazem "coisas" para  estudar em casa. Nem que sejam acompanhados pelos pais.  Valha-nos ao menos, isso!
Dadas estas discrepâncias de escola para escola, e entre professores e os seus métodos de ensino e aprendizagens tão diferenciados, dá para perceber a rebaldaria que vai pelas escolas. Ou seja, não há uma coordenação de critérios semelhantes e uniformes para todas as escolas públicas. Isso é o resultado da falta de uma "linha" de orientação comum, constante e que dê estabilidade ao sistema de Ensino. Chama-se a isto descoordenação! Cada professor vive numa indefinição permanente, entregue à sua sorte e está (parece) por sua conta. Deve ser bastante desmotivador.
Quem  tiver meios ao seu alcance para poder safar-se "disto", pois que o faça. Não condeno, como o Balio o faz, que as famílias se envolvam em casa, auxiliando no estudo dos filhos, já que a escola muitas vezes se demite e pouco faz por eles. (Mas lá no fundo percebo a desmotivação, pois trataram de degradar a profissão de professor/a, tornaram-na desgastante e muito pouco prestigiante a todos os títulos). Está a ter repercussões que se vão acentuar ainda mais no futuro. 
Mas repare que esta degradação no sistema educativo não é caso isolado, porque a mesma "desarticulação" e a mesma "desorientação" também se verificam noutros sectores tais como no SNS. Veja como este incompetente governo também aqui não tem um plano para se orientar. Como pode saber administrar e coordenar sem uma "linha" orientadora, sem objectivos bem definidos? Em vez de coordenar os esforços para fazer uma boa gestão de recursos,  limita-se a despejar dinheiro em cima dos problemas que vai deixando acumular, sem os resolver. 
são apenas dois exemplos, mas estes problemas tornaram-se uma doença crónica em todas as áreas, por esse pais fora.
De modo que, Balio, é caso para dizer: estamos bem entregues... 
Só me pergunto, quando irão os portugueses perceber que estão a ser burlados. Quando irão tirar de cima aqueles que os têm andado a engrampar. Porque tudo isto é, de facto, uma grande trapaça. Para onde está o país a ser levado? 
Falava o HPS da "ruína" das famílias "perdedoras"  devido a circunstâncias políticas, sociais e económicas. Mas tiveram, pelo menos, consciência disso... Pois parece que afinal não me desviei muito do seu post:  as actuais circunstâncias também estão a "arruinar" muitas famílias e o futuro dos seus filhos. O problema é que os actuais "perdedores" não sabem que serão "perdedores" também no futuro, assim como não têm consciência de que se perpetuarão na geração seguinte, como  recentes estudos no-lo afirmam.


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