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Cristiano Ronaldo deu recentemente uma entrevista que não acompanhei na íntegra. Pelo que li, terá dito que gostaria de se encontrar com Donald Trump e que ambos têm algo em comum.
É curioso observar as reações: os meus amigos mais à direita rejubilam com a notícia, enquanto os mais à esquerda a recebem com juras de ódio. Um deles chegou a escrever: “Uma coisa é certa: Ronaldo, até como pessoa, é o melhor de todos.”
Confesso que não sou um fã incondicional da “persona Cristiano Ronaldo”. Reconheço-lhe talento extraordinário e uma ética de trabalho fora do comum. Em termos humanos, admiro a forma como demonstra amor e consideração pela mãe, contrariando a tendência de muitos de renegarem as próprias origens quando sobem na vida.
Mas o seu narcisismo extremo desperta em mim uma repulsa quase instintiva. O facto de esse narcisismo o ter levado a "comprar" um “mini me”, privando-o do bem mais precioso que uma criança pode ter, uma mãe presente, torna-o, para mim, uma referência humana bastante questionável.
E, de resto, nem teria de ser diferente. É exatamente sobre isso que quero refletir: Cristiano Ronaldo não precisa de ser modelo de tudo.
Naquilo em que é suposto que ele seja uma referência, o desporto, a disciplina, a persistência e a superação, ele brilha de forma indiscutível. Não espero que seja um especialista em política internacional ou em formação familiar.
Do mesmo modo, a opinião de Salvador Sobral sobre política internacional não me serve para construir uma visão sobre a questão palestiniana, assim como a opinião de uma criança no espectro do autismo não influencia a minha percepção sobre alterações climáticas.
A idolatria contemporânea, centrada em desportistas, músicos, atores ou “influencers”, revela mais sobre quem os observa do que sobre os próprios ídolos. A sociedade projeta neles aspirações, desejos e ideais de sucesso, beleza, juventude, autenticidade ou rebeldia, criando um enorme efeito de halo em que atributos imaginados se confundem com qualidades reais.
Talvez por me sentir mais próximo da visão de Hobbes do que de Rousseau, nunca idealizei demasiado as pessoas. No fundo, as características que projetamos nos nossos ídolos dizem muito mais sobre nós do que sobre eles.
Há aqui uma confusão profunda. Eu nunca disse, nem insinuaria, que o “superior interesse da criança” passa por ela não existir. O que afirmei é algo muito diferente: o superior interesse da criança passa por não a privar, deliberadamente e por opção do adulto, de uma mãe presente, sobretudo quando essa ausência resulta de uma decisão tomada com base no conforto, no ego ou na conveniência do progenitor. A pergunta é simples: a criança não poderia existir de outra forma, com um enquadramento mais completo e afetivamente mais rico?
Acautelar os superiores interesses das crianças começa antes da conceção: significa procurar dar-lhes as melhores condições possíveis de desenvolvimento, dignidade e felicidade. Significa não transformar a parentalidade num exercício narcísico centrado no desejo do adulto, mas num compromisso ético centrado na criança.
Pelo seu raciocínio, segundo o qual tudo o que importa é “a criança chegar a ser feita”, independentemente das condições, então qualquer cenário prévio ao nascimento seria eticamente indiferente. Isso incluiria, por exemplo, fábricas de clones humanos, algo tecnicamente exequível e, na sua lógica, moralmente neutro. Ora, sabemos que não é assim: a ética na parentalidade não se esgota no ato biológico de gerar uma criança, exige ponderação séria sobre as condições em que essa criança chegará ao mundo.
O meu referencial ético, felizmente, é bem diferente do que descreve: para mim, trazer uma criança ao mundo não é apenas produzir um ser humano, é assumir a responsabilidade de garantir, desde o início, que essa vida se inicia nas melhores condições possíveis, e não nas condições que mais convêm ao adulto.
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