Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Cristiano Ronaldo e o efeito halo da idolatria

por Miguel A. Baptista, em 10.11.25


Cristiano Ronaldo deu recentemente uma entrevista que não acompanhei na íntegra. Pelo que li, terá dito que gostaria de se encontrar com Donald Trump e que ambos têm algo em comum.

É curioso observar as reações: os meus amigos mais à direita rejubilam com a notícia, enquanto os mais à esquerda a recebem com juras de ódio. Um deles chegou a escrever: “Uma coisa é certa: Ronaldo, até como pessoa, é o melhor de todos.”

Confesso que não sou um fã incondicional da “persona Cristiano Ronaldo”. Reconheço-lhe talento extraordinário e uma ética de trabalho fora do comum. Em termos humanos, admiro a forma como demonstra amor e consideração pela mãe, contrariando a tendência de muitos de renegarem as próprias origens quando sobem na vida.

Mas o seu narcisismo extremo desperta em mim uma repulsa quase instintiva. O facto de esse narcisismo o ter levado a "comprar" um “mini me”, privando-o do bem mais precioso que uma criança pode ter, uma mãe presente, torna-o, para mim, uma referência humana bastante questionável.

E, de resto, nem teria de ser diferente. É exatamente sobre isso que quero refletir: Cristiano Ronaldo não precisa de ser modelo de tudo.

Naquilo em que é suposto que ele seja uma referência, o desporto, a disciplina, a persistência e a superação, ele brilha de forma indiscutível. Não espero que seja um especialista em política internacional ou em formação familiar.

Do mesmo modo, a opinião de Salvador Sobral sobre política internacional não me serve para construir uma visão sobre a questão palestiniana, assim como a opinião de uma criança no espectro do autismo não influencia a minha percepção sobre alterações climáticas.

A idolatria contemporânea, centrada em desportistas, músicos, atores ou “influencers”, revela mais sobre quem os observa do que sobre os próprios ídolos. A sociedade projeta neles aspirações, desejos e ideais de sucesso, beleza, juventude, autenticidade ou rebeldia, criando um enorme efeito de halo em que atributos imaginados se confundem com qualidades reais.

Talvez por me sentir mais próximo da visão de Hobbes do que de Rousseau, nunca idealizei demasiado as pessoas. No fundo, as características que projetamos nos nossos ídolos dizem muito mais sobre nós do que sobre eles.


17 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.11.2025 às 20:16

O Ronaldo é um caso de vocação, mas também de indiscutível trabalho, estudo, persistência e superação.


Ainda puto, quando todos já tinham ido embora ele continuava por mais uma ou duas horas, treinando sozinho por vezes com chuva.


Chegou lá por indiscutível merecimento e ainda por cima ficou ultra-milionário.


Essa é a parte que verdadeiramente dói e faz engulhos á gente pequenina 




Tenham paciência.
Imagem de perfil

De leitor improvável a 10.11.2025 às 21:32

"Não tenho opinião formada sobre o assunto" - eis uma expressão que deveria ser utilizada mais vezes, sem parcimónia, nem medo.


E o que refere, "opinite aguda", não afecta apenas celebridades, atinge o mais humilde cidadão. Bitaites, fezadas, e que mais.


Boas leituras


PS: Eu também tinha curiosidade de conhecer o Trump 
Sem imagem de perfil

De balio a 11.11.2025 às 08:51


esse narcisismo o ter levado a "comprar" um “mini me”, privando-o do bem mais precioso que uma criança pode ter, uma mãe presente



Seria preferível que o Cristianinho não existisse?


Eu diria que, para quem aprecia a vida humana, é melhor uma criança sem mãe do que não haver criança.


E, ao longo da História, quantas crianças ficaram orfãs de mãe muito cedo? A quantas a mãe não morreu no próprio parto? Crianças sem mãe é coisa que houve aos pontapés na história da humanidade.



Eu admiro Cristiano Ronaldo por ter tido os filhos que teve, e gostaria que todos os portugueses tivessem a liberdade de ter filhos da mesma forma que Cristino Ronaldo teve.



Mas sei bem que a direita é inimiga da liberdade.
Perfil Facebook

De Miguel Alçada Baptista a 12.11.2025 às 17:33

Não tinha ideia de que conceitos como o “superior interesse da criança” estivessem ligados a qualquer binómio esquerda vs. direita. Sempre pensei que se tratasse mais da existência de referências morais e éticas sólidas na criação, algo que não é exclusivo de nenhum lado do espectro político. Acredito que qualquer reflexão sobre o bem-estar de uma criança deve partir da consideração das suas necessidades afectivas, emocionais e sociais, independentemente de posicionamentos ideológicos.
Sem imagem de perfil

De balio a 14.11.2025 às 09:28


Para o Miguel Alçada Baptista, aparentemente, o superior interesse da criança é ela não existir, ou seja, não chegar a ser feita. MAB pensa que Cristiano Ronaldo não deveria ter feito o seu filho Cristianinho, desta forma realizando o superior interesse de uma criança inexistente.
Imagem de perfil

De Miguel A. Baptista a 14.11.2025 às 15:34

Há aqui uma confusão profunda. Eu nunca disse, nem insinuaria, que o “superior interesse da criança” passa por ela não existir. O que afirmei é algo muito diferente: o superior interesse da criança passa por não a privar, deliberadamente e por opção do adulto, de uma mãe presente, sobretudo quando essa ausência resulta de uma decisão tomada com base no conforto, no ego ou na conveniência do progenitor. A pergunta é simples: a criança não poderia existir de outra forma, com um enquadramento mais completo e afetivamente mais rico?

Acautelar os superiores interesses das crianças começa antes da conceção: significa procurar dar-lhes as melhores condições possíveis de desenvolvimento, dignidade e felicidade. Significa não transformar a parentalidade num exercício narcísico centrado no desejo do adulto, mas num compromisso ético centrado na criança.

Pelo seu raciocínio, segundo o qual tudo o que importa é “a criança chegar a ser feita”, independentemente das condições, então qualquer cenário prévio ao nascimento seria eticamente indiferente. Isso incluiria, por exemplo, fábricas de clones humanos, algo tecnicamente exequível e, na sua lógica, moralmente neutro. Ora, sabemos que não é assim: a ética na parentalidade não se esgota no ato biológico de gerar uma criança, exige ponderação séria sobre as condições em que essa criança chegará ao mundo.

O meu referencial ético, felizmente, é bem diferente do que descreve: para mim, trazer uma criança ao mundo não é apenas produzir um ser humano, é assumir a responsabilidade de garantir, desde o início, que essa vida se inicia nas melhores condições possíveis, e não nas condições que mais convêm ao adulto.

Sem imagem de perfil

De balio a 14.11.2025 às 15:59


o superior interesse da criança passa por não a privar, deliberadamente e por opção do adulto, de uma mãe presente


Mas Cristianinho não tem nem nunca teve mãe!


Há evidentemente uma mulher que o pariu, e há evidentemente uma mulher (não faço ideia se a mesma ou outra) que forneceu o óvulo que o gerou. Mas nenhuma dessas mulheres foi, ou alguma vez quis ser, mãe dele. Apenas quiseram fazer aquilo que fizeram em troca do dinheiro que Cristiano Ronaldo lhes pagou.


Portanto, nenhum adulto privou Cristianinho de ter uma mãe. Ele pura e simplesmente nunca teve tal coisa.


Nunca houve uma mulher que quisesse ser mãe de Cristianinho. Houve apenas uma mulher que quis trazê-lo no ventre, e outra (ou a mesma) mulher que quis fornecer o óvulo que o gerou.


A questão é simples: ou elas faziam o que fizeram, ou Cristianinho pura e simplesmente não existia. A opção não é entre Cristianinho ter mãe ou ser privado dela; a opção é entre Cristianinho existir ou não existir.



Eu prefiro 1000 vezes que Cristiannho exista, e desejo-lhe muito sucesso e alegria. E gostaria que outros homens pudessem ser bons pais como Cristiano Ronaldo é, e que outros Cristianinhos pudessem existir.
Sem imagem de perfil

De balio a 14.11.2025 às 16:09


não transformar a parentalidade num exercício narcísico centrado no desejo do adulto


Mas quase sempre a parentalidade é isso mesmo. Quase sempre os filhos são produzidos para satisfazer desejos mais ou menos egoistas e mais ou menos narcisistas dos adultos. Basta ver como muitos pais procuram, perante terceiros, projetar nos filhos sucessos e virtudes que não têm nem nunca tiveram (nem os pais nem os filhos).
O MAB, pessoa de direita, está a procurar, como os esquerdistas, transformar os seres humanos em seres ideais, em vez de aceitar que os seres humanos são montes de defeitos, como alegadamente os direitistas aceitam...
Os seres humanos reais produzem filhos por motivos que raramente são nobres. O que importa não é criticar os pais por terem produzido os filhos que produziram, o que importa é tentar que esses filhos tenham sucesso e sejam felizes. É isso que faço em relação a Cristiano Ronaldo e aos seus filhos.
Sem imagem de perfil

De cela.e.sela a 11.11.2025 às 11:01

ouvi a muito desportista e treinador de bancada dizer da ingratidão para com Carlos Queirós
Sem imagem de perfil

De Baltasar R. a 11.11.2025 às 13:14

Boa posta.
Também me identifico mais com Hobbes (Homo homini lupus) do que com Rousseau ( a tese do bom selvagem).
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 11.11.2025 às 14:12


a opinião de uma criança no espectro do autismo


Greta Thunberg não é uma criança, era uma adolescente.


Utilizar o "espetro do autismo" como forma de diminuir uma pessoa não é correto. Muitas pessoas extremamente inteligentes eram autistas. Um caso particularmente marcado foi Paul Dirac (prémio Nobel da física), mas houve muitos outros. O facto de uma pessoa ser autista não impede que ela tenha montes de opiniões válidas.
Perfil Facebook

De Miguel Alçada Baptista a 12.11.2025 às 17:39

Tem alguma razão, eu próprio hesitei se o usaria. A razão pela qual a usei é que a própria Greta também usa esse argumento, como se tal lhe desse alguma autoridade suplementar.
As crianças, ou adolescentes, com síndroma de Asperger por vezes tornam.se monotemáticas, o que, na minha opinião, seria mais uma razão para os pais e comunidade em geral não a incentivarem nessa monomania.
Mas concordo consigo, há imensas pessoas fantásticas com síndroma de Asperger.
Reconheço que não terei sido muito feliz na forma como coloquei a coisa.

Cumprimentos,
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 12.11.2025 às 21:30

"O facto de uma pessoa ser autista não impede que tenha montes de opiniões válidas"




Inteiramente de acordo.


Infelizmente é relativamente comum  desvalorizar uma afirmação verdadeira, recorrendo ao subterfúgio  de menorizar o autor.


Como se uma coisa tivesse a ver com a outra.
Sem imagem de perfil

De Vasco Silveira a 13.11.2025 às 12:00

Caro Sr.


Não sabia que futebolistas ( adoro ver um bom jogo) tinham opinião, referida e publicada e comentada e ..., sobre assuntos que não envolvessem a ... Bola?!
Aliás lê-los, ouvi-los,  ..., pode levar as estes narcisimos não racionalizados ( já joga com a cabeça) de ter filhos sem mãe ou maternidade ... comprada?


Cumprimentos


Sem imagem de perfil

De Silva a 13.11.2025 às 18:13

Com idolatrias ou sem idolatrias, a pressão financeira irá continuar a aumentar e  irá orientar as "cernelhadas" intensamente suaves.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 14.11.2025 às 19:42


Devemos aprender na vida que raramente alguém faz algo para o bem dos outros. Os blogues estão a ser usados para estupidificar ainda mais as pessoas. O assunto não tem interesse algum e vejo alguns com pouca cultura a divertirem-se a comentar o que não tem nada para comentar, a não ser que seja para criticar. Vivemos tristes tempos.
Sem imagem de perfil

De s o s a 15.11.2025 às 21:40

bem dito, especialmente neste particular :
um publicamente bom na sua profissao, nao tem que ser um exemplo da forma como utiliza a casa de banho, coisa que alias desconhecemos relativamente a toda a gente .
Por outro lado, e a contrario das estrelas, que ate quando dao um pum sao noticia, isso ate as faz humanas, comuns e portanto desvanece a idolatria. 
Veja-se o caso do presidente marcelo, é só presidente e nada mais.  É pois neste retangulo que se gosta ou nao gosta do exercicio e postura. 

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • O apartidário

    Esses que por aqui andam a desconversar(ou a virar...

  • Anónimo

    Não é obrigado a saber, pois parece-me ser você um...

  • cela.e.sela

    a quem aprecie as ditaduras

  • Anónimo

    A mim o que me provoca nervoso (e nem é miudinho) ...

  • Anónimo

    A chamada Comunicação Social tem uma enorme, enorm...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2025
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2024
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2023
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2022
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2021
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2020
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2019
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2018
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2017
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2016
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2015
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2014
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2013
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2012
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2011
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2010
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2009
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2008
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2007
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D
    248. 2006
    249. J
    250. F
    251. M
    252. A
    253. M
    254. J
    255. J
    256. A
    257. S
    258. O
    259. N
    260. D