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Tenho um amigo, bastante discreto, de maneira geral, mas a que vale a pena dar atenção de cada vez que faz um comentário, porque é muitíssimo rigoroso.
Por coincidência, mandou-me ontem um mail que me serve que nem uma luva para o post de hoje.
Comecemos por notar que houve dois ou três comentadores aqui do Corta-Fitas a falar da falta de rigor das previsões de Vítor Gaspar, um clássico da esquerda que não quer reconhecer o que Passos Coelho fez, nem a forma miserável como o Partido Socialista tem usado a mais despudorada mentira, para contar histórias da carochinha sobre as responsabilidades dos diferentes partidos.
Claro que para falar da falta de rigor dos orçamentos do tempo de Passos é preciso esquecer a comparação com o rigor das previsões de terceiros: 1) uma famosa primeira página do Público, em Outubro de 2012, previa uma queda do PIB até 5,3% em 2013 (foi de 0,92%); 2) praticamente um ano depois o mesmo Público afirmava que Bruxelas considerava um segundo resgate como "largamente inevitável"; 3) o Partido Socialista, no início de 2012, afirmava a pés juntos que o país estava numa espiral recessiva indiscutível; 4) um ano depois continuava com a mesma lenga-lenga; 5) e o Bloco de Esquerda, com a queda para o teatro que tem, falava em austeridade perpétua, etc., etc., etc..
E é aqui que a chamada de atenção deste meu amigo para este artigo do JN (na verdade, a mesma informação está por todo o lado, é feita a partir da Lusa) é muito útil porque escuso de ser eu a responder a estes comentadores, deixando esse trabalho a Costa, o rigoroso.
"É muito importante nestes tempos nós conseguirmos preservar a credibilidade internacional do nosso país e conseguirmos preservar a estabilidade financeira do nosso país"
"Costa, que é o primeiro-ministro em exercício desde 2015, explicou à plateia que o ouvia no cine-teatro Capitólio que "Portugal tem uma dívida grande" e no momento atual, de aumento da inflação, "os bancos centrais aumentam significativamente as taxas de juro". Daí a necessidade de prosseguir uma política de redução da dívida pública reduzir os encargos do Estado".
""Estas medidas de apoio social que estamos a dar... Não teríamos condições de dar se estivéssemos a pagar as taxas de juro que pagávamos quando nós chegamos ao Governo", concluiu António Costa."
Agora, caros comentadores (e jornalistas que hoje acham muito importante estar a criticar Montenegro por umas afirmações menos felizes sobre o facto do PS estar travestido em furioso defensor das contas certa, em vez de se concentrarem na metamorfose de António Costa dos santos últimos dias), é só lerem o que escreveu Costa, não à luz da realidade de hoje, mas à luz da realidade do momento em que o Partido Socialista, incluindo António Costa, chamaram a troica, por não terem presente os sábios conselhos de António Costa dos santos últimos dias.
Nessa altura perceberão como António Costa, e o Partido Socialista, sempre souberam que Passos fez o que lhe era possível fazer, no gravíssimo contexto que lhe foi entregue pelo Governo do Partido Socialista, que Sócrates chefiava.
Mas se quiserem perceber mesmo bem quem é António Costa, façam o que o meu amigo rigoroso fez, mas que nenhum jornalista se entretém a fazer.
Comecem por ler este parágrafo final da peça do jornal: ""Estas medidas de apoio social que estamos a dar... Não teríamos condições de dar se estivéssemos a pagar as taxas de juro que pagávamos quando nós chegamos ao Governo", concluiu António Costa".
Depois vão aqui, ver quais eram as taxas de juro em Novembro de 2015, quando Costa chega ao poder, e quais são as de Outubro de 2022.
2,30% quando Costa chegou ao poder, 3,35% nesta altura.
Agora voltem a ler o tal parágrafo: ""Estas medidas de apoio social que estamos a dar... Não teríamos condições de dar se estivéssemos a pagar as taxas de juro que pagávamos quando nós chegamos ao Governo", concluiu António Costa".
Claro que nada disto tem muita importância, é verdade que Costa governou com uma situação muito favorável no que diz respeito a taxas de juro, por comparação com Passos, e é verdade que grande parte da distribuição que Costa fez (e que poderia ter sido usada para amortizar dívida que hoje nos permitiria estar muito mais bem preparados para o que aí vem, como diz António Costa dos santos últimos dias, ao contrário do que dizia o António Costa habitual) só foi possível por causa da folga que as baixas taxas de juro lhe deram.
Costa, o eternamente rigoroso, jamais perderia a oportunidade de dizer mais uma mentireta para reforçar a grande mentira sobre as responsabilidades do Partido Socialista e de Passos Coelho na triste rampa descendente em que vivemos: é mais forte que ele a volúpia de saber que pode dizer impunemente estas coisas e rir-se da quantidade de idiotas que nas redacções dos jornais continuam a tomar o que diz Costa pelo valor facial das suas palavras, em vez de, sistematicamente, verificarem cada afirmação de Costa que seja verificável.
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