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Cortesãos

por henrique pereira dos santos, em 16.11.25

O título do post vem directamente da crónica de Alberto Gonçalves no Observador de ontem.

Lembrei-me porque andava aqui às voltas, na minha cabeça, com um programa da Rádio Observador que tinha ouvido quando vinha da SIC, onde fui dizer lugares comuns sobre gestão da paisagem, a propósito do tempo (no sentido meteorológico da palavra) dos últimos dias.

Era um programa que juntava vários jornalistas da secção de político do Observador a fazer comentários sobre o pacote laboral e a anunciada greve geral.

Claro que se eu protestar com a péssima qualidade do jornalismo do programa, virá um dos papas do jornalismo actual chamar-me ignorante porque o programa não é jornalismo, é um programa de opinião, embora feito por jornalistas, que só são chamados a pronunciar-se por serem jornalistas.

Nenhum deles é especialista em economia do trabalho, ou direito do trabalho, ou macro-economia, ou em desenvolvimento e produtividade, nada, nada, nada, todos eles são apenas jornalistas a comentar a actualidade num programa de actualidade política, mas não é jornalismo, são programas de opinião em que não se aplicam as regras do jornalismo.

Passando por cima destas questões semânticas, o nível de discussão sobre o pacote laboral pouco ultrapassava o nível das discussões dos meus netos sobre quem é responsável por haver água entornada no chão.

"A greve é um direito, sem sopinhas nada feito" é como se conclui a introdução ao programa, que os jornalistas que não estão a ser jornalistas confundem com um programa de humor, fazendo trocadilhos sem sentido de que se riem muito no estúdio (a tendência para os trocadilhos e para a poesia de terceira qualidade devem ser coisas que me irritam mais no jornalismo actual, mais ainda que a sua má qualidade e incumprimento de regras básicas).

Nem vou pela parvoíce de andarem a repetir cem vezes que o governo não tem legitimidade para propor alterações à legislação laboral porque na campanha eleitoral não falou no assunto (por acaso, até está no programa eleitoral " 4.1.1. REFORMAS DO MERCADO DE TRABALHO: MAIS PRODUTIVIDADE, MAIS RENDIMENTOS ... Modernizar as regras para confrontar a segmentação do mercado e ajustar às transformações no mundo do trabalho ... Simplificação do código do trabalho através da racionalização do articulado, fo cada em reduzir custos de contexto, assim garantindo a maior implementação e compreensão das regras pelas partes ... Revisitar o enquadramento legal e privilegiar a concertação social na definição das regras da relação laboral, ajustadas à realidade de cada setor, ao invés do código do trabalho e demais enquadramentos genéricos legislativos associados;" página 265 e seguintes do programa eleitoral da AD, mas isso até é razoavelmente irrelevante), depois do país ter sido governado com base em acordos entre partidos que foram activamente escondidos numa campanha eleitoral, sem que estes jornalistas que afinal não estão a fazer jornalismo questionassem a sua legitimidade.

"Não deixa de ser, a questão da amamentação ... é completamente contra a ideia de que o país tem de puxar pela natalidade" e parvoíces semelhantes (há alguma indicação, por ténue que seja, de que existe alguma relação entre a regulamentação da amamentação e a taxa de natalidade em algum país do mundo?) ocupam o tempo do programa sem que, em nenhum momento, uma parte relevante da secção de política do Observador ache relevante explicar as razões que levam o governo a querer alterar a legislação laboral.

O governo pode não ter razão nenhuma, as propostas podem ser a maior estupidez, mas o governo não acordou um dia a pensar que era boa ideia chatear os sindicatos (sim, que anda chateado com as alterações da legislação laboral são os sindicatos, os trabalhadores, que os sindicatos de facto não representam, acharão bem uns, acharão mal outros, e não fazemos ideia do peso global de cada um dos pontos de vista no conjunto dos trabalhadores do país) alterando a lei laboral, há uma racionalidade relacionada com a capacidade das empresas se adaptarem aos contextos em que operam, por exemplo, seguindo o Bloco de Esquerda que despede trabalhadores quando as receitas disponíveis caem abruptamente por falta de votos.

Estes cortesãos, que se perdem em dichotes sobre questões marginais, em programas de jornalistas sobre a actualidade que não são jornalismo, acham inútil discutir as razões dos que estão contra ou a favor, limitam-se a dizer que "a greve é um direito, sem sopinhas nada feito", esperando que os ouvintes, leitores e afins estarão sempre disponíveis para pagar esta pessegada.


18 comentários

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De Anónimo a 16.11.2025 às 11:53

É infelizmente verdade que o "Jornalismo" transborda de péssimo Jornalismo, não obstante a grande maioria dos profissionais ter a "credencial".


Presumo que tal se deva por um lado á dita "carteira" coisa que se arranja com um cursito, por outro á famosa  "racionalidade" económica que impõe a contratação pelo nível mais raso. 


O resultado é um requentado permanente, do qual convém guardar distância, passando bem ao largo.


Salvam-se o Correio da Manhã e a revista Maria que não tentam parecer o que não são.
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De cela.e.sela a 16.11.2025 às 16:25

os jornalistas são 99% de esquerda. uma 'sociedade sem classe'. um modo de vida.
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De cela.e.sela a 16.11.2025 às 11:58

as centrais sindicais, que sobrevivem do nosso contributo obrigatório, necessitam apresentar «PROVA de VIDA».
os dirigentes dos Árbitros de futebol disseram que as regras são substituídas por interpretações.
'andante ma non trôpego'
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De Anónimo a 16.11.2025 às 13:00

Primeiro ponto, o Alberto Gonçalves não é exemplo para ninguém, se o fosse tinha mais que fazer do que andar a largar loas pelos jornais e pela rádio apontando o dedo aos outros esquecendo-se dos quatro que a ele ficam apontados quando o faz. Deveria dar mais atenção aos quatro dedos que a ele ficam apontados.
Quanto à  reforma da lei laboral, sem me envolver em qualquer dos lados o que é certo é que os salários são baixos porque segundo o patronato a produtividade é baixa. Certo é que aa produtividade tem vindo a aumentar, não tendo os salários acompanhado o indice de aumento.
Quanto à flexibilização para despedimentos, horários devido à evolução das economias e mundo do trabalho, algo é certo, são medidas que em nada contribuem para a resolução dos problemas que, em especial, os mais jovens enfrentam. Sem estabilidade não se fazem responsavelmente planos  de vida como por exemplo constituir familia, comprar casa (os bancos não estão para isso) e até em algumas situaçãoes construir uma carreira sólida.
A questão da amamentação é um erro o nome dado à lei uma vez que salvo rarissimas, mesmo rarissimas exceções uma mãe consegue abandonar o seu trabalho para amamentar e regressar em tempo util. A lei deve existir num contexto de a mãe estar simplesmente mais tempo com o seu filho nos primeiros anos de vida, amamente ou não.
Retirar os exageros de "direitos" que na minha opinião são abusos, deverá ser feito, ... para ambos os lados.
É tempo de os empresários assumirem algum risco quando constituem um negócio bem como responsabilidade perante os que empregam.
O que hoje se vê é apoios para tudo e mais alguma coisa para as empresas e no que toca aos salários quando menores melhor e hprários quanto maiores melhor.
Evidentemente como em tudo há exceções e essas devem ser louvadas.
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De M.Sousa a 16.11.2025 às 15:49

Caro Anónimo, aconselho-o vivamente a voltar para Marte...
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De Anónimo a 16.11.2025 às 19:42

Voltar para Marte? Para o encontrar? Marte é o novo manicómio?


Deve ser pelo seu conselho...
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De henrique pereira dos santos a 16.11.2025 às 16:27

Obrigado pela demonstração de que a pessegada que citei tem público que realmente justifica o programa.
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De Anónimo a 16.11.2025 às 19:48

A pessegada foi você que viu, não eu, portanto você é que faz parte do publico que realmente justifica o programa.
Vá conservando o direito de arrotar as suas postas de pescada, afinal depois de não existir crise da habitação, voltou ao assunto numa "coerência" gritante.
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De Anonimo a 17.11.2025 às 12:17

E não existe crise da habitação. Existem dificuldades de acesso a primeira habitação por parte de uma franja da população, cuja causa essencial é o excesso de estatismo naquilo que deveria ser um mercado aberto e liberalizado
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De Anónimo a 17.11.2025 às 17:52

Pois, estão todos errados, a maioria, você é um dos poucos que está bem.
 A liberalização está a caminho, pode ser que  "penteie" a franja da população e as casas apareçama preços acessiveis a todo o cabelo e não só à franja.
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De Anónimo a 16.11.2025 às 13:26

Até à exaustão  : JORNALIXO .
Juromenha
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De Anónimo a 16.11.2025 às 13:28

Vegeta por aí uma certa classe de gente que vê em cada entidade patronal um inimigo público.


E há um certo "patronato" para quem o trabalhador é um custo de produção a esmifrar.


Ambos têm problemas de oftalmologia mental pois trabalhadores e patronato são complementares, ambos agentes económicos indispensáveis ao andamento da economia.


O ideal era que ganhassem juízo  unindo esforços para o bom funcionamento das coisas, com o que todos ganhariam 
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De ASnonimo a 16.11.2025 às 18:12

É óbvio,  e viu-se na altura do covid / teletrabalho, que existe uma desconfiança entre empregador e trabalhador. Uns pediam "visitas surpresa" às residências. Nem as empresas quererism gastar dinheiro nisso, nem eu admitia ser tratado como um puto calinas.
A bem dizer, muita desta legislação é feita por gente que nunca trabalhou, ou que só se vê ora como escravo, ora como capataz. E claro FP profissionais, para quem "estar" é mais importante que fazer.
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De ASnonimo a 16.11.2025 às 14:06

Fala quem quer, ouve quem quer. Tal como na media digital, na qual se incluem os blogs.
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De ASnonimo a 16.11.2025 às 15:37

Ha muito deixei de ver programas de debate, em áreas técnicas,  nos quais os participantes não fossem profissionais das mesmas. Programas de bitaites, nas palavras do falecido Professor, não tenho tempo ou paciência.  Mas é um país livre, e se há público para conversa de café, siga.
A media digital fala muito da 'legacy", mas padece do mesmo mal. Qualquer um que ganhe notoriedade numa área, rapidamente se torna um perito credível em tudo quanto é assunto opinativo.
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De Anónimo a 16.11.2025 às 19:15

Tem carradas de razao.


O governo que emana de eleições tem legitimidade para propor a AR que legisle os aspectos que tenha por convenientes ao normal funcionamento da Sociedade do País.


E isto independentemente de aquilo que propõe constar ou não do seu programa eleitoral.


Um Governo é eleito para Governar no sentido do maior bem para o maior número e está obrigado a empenhar-se o melhor que puder e souber até esse resultado ser alcançado.


É só isso.


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De Tiro ao Alvo a 16.11.2025 às 22:18

O certo é que a greve anunciada não será geral. É verdade que na função pública vai ter razoável aderência, mas aí a esmagadora maioria não vai fazer greve, e porquê?
Porque para fecharem uma escola, basta meia dúzia de funcionários aderirem, para os outros se apresentarem ao serviço, e assim auferirem o seu salário - não fazem greve, pois não trabalham por que não podem. Todavia os sundicatos virão para a cominicação social falar em adesões dos 80 a 9o%.
P:or outro lado, no sector privado é claro que a esmagadora maioria vai trabalhar, aderinho apenas uma boa meia dúzia deles, a que se juntarão mais uns quantos que se verão impossibilitados de comparecer ao serviço por falta de transporte, sector onde abundam, para nosso mal, muitas empresas públicas.
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De cela.e.sela a 17.11.2025 às 10:17

quanto aos médicos 'aquilo é o da joana'.

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