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Correlações e afins

por henrique pereira dos santos, em 17.01.21

Eduardo Rego escrevia um dia destes: “A correlação parece óbvia: Natal mais "solto", mais contaminados, mais mortes...Mas … os números excepcionais da mortalidade total que tem acompanhado este crescimento da mortalidade covid? ... Os números diários da mortalidade total, neste início de ano, têm batido todos os recordes! O mais elevado de sempre com mais de 600 mortos, uma série nunca vista de dias seguidos com mais de 500 mortos, etc.. Mesmo descontando os mortos por covid, e esquecendo até o efeito da absorção pela covid de outras causas de morte associadas (infecções respiratórias) e particularmente activas nesta altura do ano (absorção inegável, já que os números da gripe e pneumonia diminuiram de forma espantosa!) a série é impressionante! Sublinhe-se aquele "excepcionais"! … Há a correlação com a onda de frio.... Há naturalmente quem diga que são consequência e prova do colapso do SNS e dos hospitais. A correlação também existe... Haverá de todos estes factores em jogo, de cada correlação em que nos fixemos, um pouco de contribuição para esta assustadora mortalidade total. E não só covídica! Mas qual o peso, quais os factores mais importantes? … Não sabemos! Só analisando com cuidado, e se tivéssemos a informação, a história clínica deste enorme excesso das mortes não-covid.”

A isto soma-se ainda a correlação do aumento de mortalidade com o aumento de população maior de 64 e 85 anos, por exemplo.

Uma correlação positiva entre dois fenómenos não demonstra que estão ligados, só é indício de que assim pode ser.

A ausência dessa correlação é que demonstra que não há ligação entre esses dois fenómenos, e basta uma ausência de relação para invalidar a primeira hipótese.

Eu compreendo que isto seja contra-intuitivo, e haja quem ache que dizer-se que de 4000 casos resultam 150 mortos porque existe uma relação fixa entre casos e mortalidade, não é o mesmo que dizer-se que com 10 mil casos vamos ter 450 mortos, mas é.

Para verificar esta hipótese não basta ver se quando tivermos 10 mil casos iremos ter 450 mortos (com o devido desfasamento temporal, bem entendido) uma vez. A verificar-se essa correlação, isso apenas permite manter em aberto a hipótese, mas basta que uma vez haja 10 mil casos e, por exemplo, 300 mortos, para se invalidar a hipótese de uma relação fixa entre casos e mortalidade (ou, já agora, hospitalizações, por exemplo).

O que me faz a maior das confusões não é haver tanta gente comum, tantos jornalistas, tantos políticos a fazer uma ligação simplista entre o Natal em Portugal e o aumento de casos e mortalidade covid, o que me faz confusão é a quantidade de cientistas, investigadores e outras pessoas com um mínimo de qualificação para discutir o assunto, a falar da curva da epidemia depois do Natal sem, por uma vez, referirem as condições meteorológicas que têm ocorrido desde o dia 25 de Dezembro.

O que me faz a maior confusão é ver como se omite que mesmo retirando os 150 mortos covid, nos últimos dias têm morrido 450 a 500 pessoas por dia, o que é um valor acima dos 400 que seria de esperar, já sendo um mau ano (já para não falar no facto da covid ter absorvido a mortalidade habitual por outras doenças respiratórias infecciosas que quase desapareceram).

O que me faz a maior confusão é explicar tudo com base nas medidas tomadas ou revogadas para gerir contactos, esquecendo tudo o que se sabe sobre sazonalidade deste tipo de doenças, não definindo de que medidas concretas se fala, não definindo com rigor quantos dias medeiam entre a adopção das medidas e o seu efeito, quer negativo, quer positivo, a facilidade com que se salta de país para país para demonstrar a tese, ao sabor do andamento das diferentes curvas, a ausência sistemática de referências ao papel dos factores ambientais na actividade viral na evolução da epidemia, etc..

O que me faz a maior das confusões é não haver debate sobre as consequências de apenas uma quantidade ínfima de contactos dar origem a infecções e não sabermos quais são as características destes contactos e por que razão dão origem a infecções e os outros não.

Em todo o lado tem sido impossível impedir a entrada da infecção nos lares, não por falta de esforços, evidentemente, mas simplesmente porque não temos os instrumentos para criar barreiras eficazes à difusão da infecção, porque não sabemos exactamente quando e como ocorre cada infecção.

Alguém se lembrou de fazer uns estudos a demonstrar que há uma correlação entre a dimensão da epidemia na comunidade e nos lares - mais ou menos como demonstrar que há uma correlação entre a quantidade de chuva e uma cheia - e logo se passou a achar que a forma de impedir a entrada na infecção dos lares era diminuí-la na comunidade, mais ou menos como quem incapaz de gerir a cheia onde ela ocorre, decidisse que a única alternativa seria parar a chuva.

E pronto, estamos nisto, a tentar parar uma infecção na comunidade porque não sabemos como a impedir de entrar nos lares (ou nas casas dos mais velhos), em vez de nos concentrarmos em aprender o que podemos fazer para melhorar as barreiras entre a comunidade e os mais vulneráveis.

E o que não falta é gente razoável, capaz, inteligente, informada e sensata convencida de que a melhor maneira de impedir a infecção de grupos vulneráveis é liquidar a infecção na comunidade, partindo do princípio de que o que não se consegue fazer em pequenos grupos confinados se consegue fazer em grandes grupos mais complexos.

Boa sorte, eu vou-me embora pra Pasárgada.



12 comentários

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De Olympus Mons a 17.01.2021 às 18:48

Isto começou há muito tempo.  E o Isto é a perca da proporcionalidade da razão.  E em muitas circunstâncias, quando nos conveio, até fez sentido...Agora vamos pagar o preço.

Bem mais grave e elucidativo do mundo em que vivemos é este segmento hoje no leste/Oeste do Nuno Rogeiro. -<b>https://barradeferro.blogs.sapo.pt/cojones-77996
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De Carlos Sousa a 17.01.2021 às 18:54


Quando for pra Pasárgada leve a máscara não vá contaminar o Rei.
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De balio a 18.01.2021 às 10:04


Eu não tenho tempo nem vontade para fazer um estudo detalhado, mas parece-me que aquilo que atualmente se passa em Portugal é causado por estirpes do vírus mais epidémicas mas menos agressivas, tal como aliás prevê a teoria da evolução.
De facto, o aumento súbito e muito acentuado do número diário de infeções sugere que entraram (ou surgiram) em Portugal novas estirpes do vírus, vindas talvez de Inglaterra e do Brasil, que são mais epidémicas do que as estirpes anteriores.
Por outro lado, parece-me que as admissões hospitalares, embora tendo subido muito, não subiram tento como o número de infeções, o que sugere que as novas estirpes do vírus são menos agressivas.
Finalmente, há um aumento muito acentuado do número de mortos, maior do que o aumento do número de admissões hospitalares, o que sugere que os cuidados hospitalares se estão a degradar (como aliás é normal que aconteça).
Mas tudo isto são teorias de quem não estudou os números a fundo.
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De Anónimo a 18.01.2021 às 11:26

Tenho lido, pelo blog do Pedro Almeida Vieira, que os hospitais não podem estar em ruptura devido ao facto de haver um excedente de camas. O que existe é uma má distribuição de camas por região administrativa - o que, mais uma vez, é um problema de gestão de saúde pública, do que propriamente da pandemia em si. Gostava de ver os números comparados da quantidade de internamentos em relação à quantidade de infectados, para se perceber se em Portugal a situação é mais crítica nas entradas hospitalares do que em outros países.
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De Dave a 18.01.2021 às 13:08

Ah, as camas, pois,  o vírus torna-se menos virulento se o doente estiver deitado. Claro, é como os amendoins só que ao contrário: quanto mais te deitas, menos te engasgas (com o vírus). Este vírus é miraculoso, chegou e mil génios brotaram.
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De Susana V a 18.01.2021 às 12:00

Há uma campanha de desinformação em curso. 
Um dia destes estava a ouvir um podcast do Observador chamado Gabinete de Crise, no qual os dois especialistas residentes (um deles professor de economia a outra de algo mais relacionado com a saúde, mas não me lembro) tentavam correlacionar a curvas de infectados com as medidas de restrição, o Natal e a psicologia, ignorando totalmente a vaga de frio. Há muitos anos (dez talvez) que não havia uma vaga de frio desta dimensão sobretudo pela sua duração (mais de duas semanas consecutivas).
E  eu fico a pensar, está tudo doido? Porque é que não há surtos de gripe no Verão? Será por não haver Natal?
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De lucklucky a 18.01.2021 às 12:18


O tempo frio e seco pode implicar que o vírus tem mais alcance no ar - não se associa a gotas de humidade logo não cai no chão tão depressa -
Também como não se associa a gotas no ar a dimensão das partículas associadas ao vírus é menor logo passa mais facilmente por máscaras por exemplo.
Apenas especulação.
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De balio a 18.01.2021 às 14:52


Exatamente. A chuva e a humidade limpam o ar de poeiras. Quando vivi na Alemanha (numa parte do país especialmente húmida), uma coisa que me saltou à vista foi que lá praticamente não se forma pó sobre as superfícies.


Não é fácil explicar porque é que os vírus respiratórios são mais usuais no inverno. Li umas explicações num livro que surgiu recentemente, "Fake News na medicina", mas não fiquei perfeitamente esclarecido.
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De Susana V a 18.01.2021 às 17:30

“FOR THE COMING on of winter resolves the diseases of summer, and the coming on of summer removes those of winter,”  Hippocrates, in 400 B.C.



That said, scientists have discovered how the changing seasons affect not only the physical structures of viruses, but also our body’s natural barriers against disease. In the winter in particular, the cold, dry air and lack of sunlight negatively affect our ability to stave off respiratory infections like the flu or the SARS-CoV-2 coronavirus"


"They found that lower temperatures and extreme humidities—both high and low—keep the virus stable and infectious for longer. Lower temperatures slow down chemical reactions, like the ones that cause viruses to break down. That means the coronavirus can float around in respiratory droplets unencumbered for longer"


https://www.nationalgeographic.com/science/2020/12/coronavirus-why-cold-winter-weather-makes-it-harder-to-fight-respiratory-infections/
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De balio a 19.01.2021 às 10:08

Obrigado pela explicação.
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De Anónimo a 18.01.2021 às 16:28


A corroborar a existência de uma correlação com as condições meteorológicas o próprio IPMA informa no seu site em
http://www.ipma.pt/pt/media/noticias/news.detail.jsp?f=/pt/media/noticias/textos/Clima_frio_janeiro.html
que "Verificou-se desde dia 24 dezembro, de forma consistente, uma situação de frio generalizado com valores da temperatura máxima e mínima do ar inferiores ao valor da normal climatológica 1971-2000. Nas últimas três semanas apenas no dia 28 de dezembro, o valor médio da temperatura mínima foi próximo do normal.

O dia 9 de janeiro 2021 foi o dia mais frio neste período, com 2.98°C de média da temperatura média do ar, sendo que os valores da temperatura máxima do ar, nas estações de Guarda, Aldeia do Souto, Lousã e Portel foram os mais baixos registados nos últimos 20 anos. De referir ainda que nos dias 5, 6 e 8, os valores médios de temperatura média do ar foram inferiores a 4°C. No dia 11 foi registado o 4º valor mais baixo da média da temperatura mínima do ar do território."

e mais adiante
Embora se tenha registado a ocorrência da onda de frio relativamente localizada, o carácter prolongado deste episódio (cerca de 3 semanas), a persistência de vários dias consecutivos com temperaturas negativas (>10 dias consecutivos em 1/3 das estações), em particular no interior, e a abrangência territorial constituem aspetos importantes nos previsíveis impactos que terá tido na população.

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