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Coronóia2020 e liberdade de andar a 200

por henrique pereira dos santos, em 28.03.21

A discussão sobre a epidemia e a melhor forma de a gerir parece estar bloqueada.

De um lado temos os partidários da Coronóia2020, ou da fraudémia, do outro os que acham, como Pacheco Pereira (compro todos os dias o Público, mas raramente o leio, li desta vez por causa de um comentário num post anterior), que quem se manifesta em defesa da liberdade está a defender a liberdade de andar a 200 Km à hora.

Sobre os partidários da coronóia2020 acho que não vale muito a pena dizer grande coisa porque estão na mó de baixo, são uma minoria, não têm impacto relevante nas nossas vidas e, por muitas asneiras que digam - uns dizem, outros nem tanto -, são muito úteis para nos lembrar, por exemplo, que é verdade que existem falsos positivos e é incompreensível, agora que há muitos testes, que o protocolo não seja alterado na definição do que é um caso positivo, em especial agora que parece que vamos embarcar na loucura dos testes em massa, sem indicação clínica prévia. Comprimir liberdades é um assunto sério e não basta um teste laboratorial positivo com fortes probabilidades de ser um falso positivo para essa compressão, sobretudo porque passar a definição para a melhor de três testes reduz a uma expressão insignificante a probabilidade de falsos positivos, sem grandes custos sociais.

Já sobre os outros vale a pena perder alguns minutos.

É fácil, é prático, dizer que a liberdade não é um valor absoluto (a vida também não, é por isso que existe a legítima defesa e as atenuantes e agravantes num homicídio, incluindo o homicídio por negligência ou sem dolo, e existem protocolos médicos para triar doentes) e que a liberdade de cada um acaba na liberdade de terceiros. E depois dizer que quem defende a liberdade numa epidemia está a pôr em causa a vida em comunidade, a levar ao extremo o individualismo e a pretender ter a liberdade de andar a 200 à hora na estrada, sem consideração para o risco que daí advém para terceiros.

Só que não é de nada disto que se trata, mas sim de lembrar que a liberdade é um assunto sério e a sua ponderação nas medidas de saúde pública é tão importante como a ponderação das implicações sanitárias de qualquer acção individual.

Parece óbvio (mesmo para mim, que passo a vida a dizer que o óbvio é uma coisa muito subjectiva) que defender a liberdade de andar a 200 não é o mesmo que defender a liberdade das crianças andarem de baloiço ou a liberdade de acesso ao ensino.

Andar a 200 não faz parte das liberdades básicas de ninguém, é intrinsecamente perigoso e nas nossas sociedades há mecanismos razoavelmente consensuais de limitação dessa liberdade. Apesar disso, pode-se andar a 200 em alguns países, pode-se andar a 200 em algumas circunstâncias (em situações de urgência ou em provas desportivas, por exemplo), mas não passa pela cabeça de ninguém proibir o tráfego automóvel para garantir que ninguém anda a mais de 200, apesar da proibição do tráfego automóvel gerar milhares de mortos todos os anos, por muitas razões, incluindo andar a mais de 200.

Já andar de baloiço ou aceder à escola sim, são liberdades razoavelmente consensuais nas nossas sociedades e a compressão dessas liberdades deve ser seriamente ponderada, pondo de um lado da balança os benefícios sanitários daí decorrentes, e do outro os efeitos sociais negativos da privação dessas liberdades.

Eu sei que dá muito jeito procurar enfiar todos os que não desistem da discussão da liberdade no contexto de uma epidemia no grupo da coronóia2020 (como canhestramente Manuel Pinheiro tentou fazer comigo para defender o jornalismo que escreve hoje "Números parecem estabilizar nos Estados Unidos depois de uma subida exponencial de casos e número de mortos" quando qualquer pessoa pode, com meia duzia de cliques, verificar a estupidez desta frase sem qualquer relação com os factos), mas era o que mais faltava deixar passar em claro essa tentativa de desqualificação dos que pensam de forma diferente.

Eu gostava de saber as razões sanitárias para os alunos do secundário poderem estar numa esplanada a partir de 5 de Abril, mas não na escola, para ser proibida a venda de alcoól depois das vinte, para ser proibido o consumo de alcoól no espaço público, para estarem parques infantis vedados, para não poder entrar numa loja deserta, para não poder passar de um concelho para outro, para não poder fazer um pic-nic com os meus irmãos, etc., etc., etc..

Não levar a sério a discussão dos fundamentos sanitários da maior parte das normas sanitárias em vigor - que são tão científicas que variam enormemente de país para país, quando não de região para região - , confrontando esses fundamentos com a razoabilidade da compressão das liberdades individuais associadas, está tão próximo do pensamento mágico como a coronóia2020.

Que tanta gente que se afirma defensor das liberdades individuais as abandone à mínima alusão a um elusivo benefício sanitário, é deprimente, muito deprimente.



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