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Contágios

por henrique pereira dos santos, em 09.10.20

Numa fase muito inicial de uma epidemia, faz sentido procurar quebrar cadeias de contágio (não sei se ainda alguém se lembra de Graça Freitas, e muito bem, a explicar as diferenças entre a fase de contenção e a fase de mitigação de uma epidemia, mas estava carregada de razão nessa altura).

Numa doença de elevada perigosidade, faz sentido quebrar cadeias de contágio, tanto quanto possível.

Para quebrar uma cadeia de contágio o normal é identificar um foco infeccioso o mais cedo possível, identificar os contactos de risco e ir andando de contacto em contacto, o mais cedo possível, para evitar a progressão do contágio.

Naturalmente, no início de uma epidemia, os focos infecciosos são identificados pelos sintomas aparentes da doença, podendo progredir-se para a realização de testes quando já se sabe qual é o agente da doença, sobretudo se a doença tiver fases contagiosas que precedem o aparecimento de sintomas.

Até aqui, isto é razoavelmente pacífico.

Imaginemos que aparece uma pessoa, ou duas ou três - como na Nova Zelândia - e se vai atrás de cada uma e respectivos contactos. Sobre a Nova Zelândia, que se gaba de ter vencido o vírus pela segunda vez, vem a propósito lembrar que depois de hipóteses mirabolantes de importação da doença através de congelados australianos, a hipótese mais provável é que o vírus por lá ande, discreta e silenciosamente, com muito baixa actividade, com enormes dificuldades de progressão, sem provocar sintomas que dêem o alerta, até ao dia em que alguém com sintomas testa positivo, ou que a actividade viral tem condições para aumentar o suficiente para se tornar visível, que é, aliás, a hipótese mais plausível para explicar o pequeno surto que tiveram nos últimos meses.

Seguir estes contágios para quebrar as cadeias que permitem o seu desenvolvimento exige recursos: pessoal de saúde para fazer os testes, os inquéritos epidemiológicos, capacidade de teste, dinheiro para pagar os testes, capacidade real de isolamente de infecciosos, etc..

Um dia destes um amigo meu contava-me que a mãe se queixou de sintomas vagamente compatíveis com a covid, ficou imediatamente em prisão domiciliária por ordem, telefónica, das autoridades sanitárias e marcaram-lhe imediatamente um teste ... para daí a seis dias.

Depois do primeiro período de actividade viral séria, ali por Março/ Abril, ao mesmo tempo que se reduzia a actividade viral no Verão, como seria de esperar, aumentaram-se muito os recursos, sempre se explicando que isso era essencial para quebrar as cadeias de contágio e reduzir a actividade viral, de preferência até ao zero, para preparar a época de Outono/ Inverno.

Que quase ninguém se interrogue sobre a evidente contradição de se achar que actividade viral depende de nós e dos nossos comportamentos e, ao mesmo tempo, ter medo da época de Outono/ Inverno (ou bem que depende de nós, ou bem que depende de condições externas) só é normal numa situação em que a imprensa actua ao contrário de tudo o que a caracteriza, como neste debate. O debate vale a pena, mas não é especialmente interessante a não ser ilustração bem viva de uma atitude jornalística estranha, por parte dos dois jornalistas, mas sobretudo por parte de Sara Antunes Oliveira: os jornalistas pura e simplesmente recusam-se a ouvir, preferindo investir na demonstração das suas opiniões, jamais pretendendo deixar que os factos influenciem as suas ideias.

O que é importante perceber é que o aumento dos recursos, em simultâneo com a diminuição da actividade viral, permitiu disfarçar a impossibilidade de manter a ficção da quebra das cadeias de contágio por via da política de testes e acompanhamento adoptada, com resultados negativos na protecção dos mais vulneráveis (de que um exemplo caricato é a história de um teste a um caso suspeito num grupo vulnerável demorar seis dias a ser agendado), quando a epidemia está espalhada na comunidade.

À medida que o número de casos sobe, pela conjugação da alteração da política de testes e do aumento da actividade viral, vai deixando de haver recursos para andar atrás de cada caso à procura dos contactos de risco, para os testar, mesmo sem sintomas nem utilidade, com o único objectivo de seguir as cadeias de contágio.

O resultado é o aumento do número de casos, por via do aumento do esforço para os encontrar entre pessoas saudáveis e da actividade viral, até ao momento em que os recursos mobilizáveis são escassos para esta actividade parva de seguir contágios numa infecção muito disseminada na comunidade e de baixo risco para a generalidade da população.

O pessoal de saúde envolvido nisto, que anda atrás do vírus como o meu cão andava furiosamente atrás da sua cauda, é o pessoal de saúde que falta para acompanhar a sério os lares, os sítios onde vivem pessoas que pertencem aos grupos de risco, que falta para explicar bem o que são contactos de alto risco e de que forma de podem transformar contactos alto risco potencial em contactos de baixo risco real, etc..

E é também o pessoal de saúde que faz falta para o resto dos cuidados de saúde.

Por estranho que pareça, ainda há muito quem pense que há almoços grátis mas, infelizmente, isso só quer dizer que não são eles a pagar, não diz nada sobre o preço do almoço.



1 comentário

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De Anónimo a 09.10.2020 às 18:24

não é só entre nós que a estratégia seguida continuará a ser o desastre bem vísivel.
como em tudo na vida devemos dar importância ao factor probabilidade: as pragas são mais prováveis nas culturas intensivas
lembra-me o diálogo:
'cego-como vais?
coxo-como vês!'

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