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Contágio é contacto

por henrique pereira dos santos, em 26.11.20

Ontem tive uma curta mas interessante troca de argumentos com Carlos Antunes, uma das pessoas que trabalham com Manuel Carmo Gomes na previsão da evolução da epidemia.

Gosto muito de ler Carlos Antunes, discordando da sua perspectiva da evolução da epidemia, porque é claro no que diz e de uma correcção na discussão do que escreve de que tenho francamente inveja.

Ressalvando não ser especialista (desse ponto de vista estamos em pé de igualdade, é muito saudável esta abertura de Carlos Antunes para não usar argumentos de autoridade) Carlos Antunes escreve num comentário despreocupado (não vale a pena ler estas coisas como se as pessoas estivessem a "produzir ciência" em vez de estar simplesmente a conversar): "Pelo que leio e pela conversa que tenho com especialistas existe sempre uma relação parasita-hospedeiro que determina a dinâmica das infecções. Até porque é o hospedeiro que transporta e transmite o parasita. Esse dependerá sempre do comportamento do hospedeiro."

Gosto particularmente deste parágrafo porque condensa muito bem a ideia base da estratégia de gestão da epidemia dominante, no fundo, a ideia de que sendo o contágio dependente dos contactos entre hospedeiros e potenciais hospedeiros, controlando os contactos dos hospedeiros, controlamos a evolução da epidemia.

Saltemos por cima da falta de adesão à realidade da ideia - não há sítio nenhum em que haja controlo da epidemia por parte das autoridades de saúde, apareceu quando quis, desapareceu quando quis e ressurgiu quando quis, o mais que se pode discutir é se o controlo de contactos condicionou a dimensão dos surtos, o que me parece que está por demonstrar, especialmente tendo em atenção as variações dentro de espaços com as mesmas medidas de controlo de contactos - e aceitemos o pressuposto base de que contágio é contacto, ideia que na minha bolha social é mais vezes, e de forma mais clara, defendida por João Pires da Cruz.

Uma incursão num gráfico de Artur Rodrigues para ilustrar a ideia entre travessões do parágrafo anterior:

nuts suécia dinamarca.jpg

"A Dinamarca é um caso de sucesso em termos de mortalidade. Vejamos como se comparam as regiões (NUTS2) da Dinamarca e Suécia. Tudo (quase) igual, exceto Estocolmo, e com tendência para ficar ainda mais igual.", comentário de Artur Rodrigues a este gráfico

Na verdade, é o mesmo João Pires da Cruz que mais lucidamente coloca a principal objecção à aceitação da ideia de que sendo contágio contacto, então temos de nos focar nos contactos se queremos controlar a epidemia.

Fá-lo num artigo, ainda na fase inicial da epidemia, quando vem lembrar que o que interessa não é a geometria que conhecemos, o que interessa é a geometria do ponto de vista do vírus, ou seja, é verdade que contágio é contacto, mas chave da questão não é o contacto entre hospedeiros, mas sim o contacto entre o vírus e o hospedeiro (a primeira parte do que citei de Carlos Antunes, mais acima).

Ora sobre isso, a verdade é que sabemos pouco e, sabendo pouco, temos mesmo muita dificuldade em controlar o contacto entre o vírus e o hospedeiro.

O argumento acima é o de que, sendo o vírus transportado pelos hospedeiros, se não houver contacto entre hospedeiros, não há contacto entre o vírus e o futuro hospedeiro, exactamente a ideia de que sendo os incêndios dependentes de ignições, se não houver ignições não há incêndios.

É uma ideia errada, uma ignição, em condições desfavoráveis, não tem a menor importância, uma ignição, em condições favoráveis, pode dar origem a milhares de hectares de área ardida, de tal forma que 1 a 2% das ignições dão origem a 90% da área ardida.

É exactamente o que se passa com o vírus, em que contactos e consequentes contágios em escolas não têm grande importância, contactos do vírus com potenciais hospedeiros em lares de velhinhos, podem ser um drama bem grande.

O corolário do que é dito é, essencialmente, o que é defendido na declaração de Great Barrington: rebentar recursos a tentar evitar o contacto do vírus com todos os potenciais hospedeiros não tem dado grande resultado e, consequentemente, temos de nos concentrar em diminuir o risco do contacto do vírus com os contextos que podem gerar efeitos negativos mais devastadores.

Isso tem uma componente relacionado com a necessidade de diminuir a probabilidade de contacto entre o vírus e os vulneráveis, é certo, mas do ponto de vista colectivo tem sobretudo uma componente relacionado com a alteração de contextos, uma tarefa difícil, tecnicamente complexa, provavelmente muito cara e que nos obriga a olhar para a vulnerabilidade dos outros com outros olhos e com vontade de criar contextos que lidem melhor com essa vulnerabilidade.

Infelizmente, o resultado práctico da declaração de Great Barrington foi essencialmente atiçar as críticas aos que promovem e dão espaço às visões alternativas do problema, como se fosse a declaração de Great Barrington, ou posts como este, que representassem um risco real para a sociedade, e não o potencial de erro que existe em qualquer decisão.

O que é preciso combater é a falta de transparência e de fundamentação das decisões que nos afectam a todos, não é o facto de haver opiniões para todos os gostos e muitas delas serem tontices insensatas: as palavras, por mais tontas e absurdas que sejam, não matam, o que mata ou salva são as decisões, é o exercício do poder e é esse que precisa de ser escrutinado, não os discursos, por mais aberrantes que sejam (e alguns são).



1 comentário

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De balio a 26.11.2020 às 11:04


com tendência para ficar ainda mais igual.", comentário de Artur Rodrigues a este gráfico


A minha interpretação é a seguinte:
Tem tendência a ficar mais igual porque isto são gráficos do excesso de mortalidade até a uma determinada semana do ano. À medida que as semanas passam, o excesso de mortalidade da primavera vai-se diluindo, uma vez que as mortalidades do verão e do outono foram inferiores às usuais. No final do ano (semana 52) a região de Estocolmo terá uma mortalidade somente 10% superior à média, e as outras regiões todas terão mortalidades menos de 5% superiores à média. Ou seja, terá sido, em toda a Dinamarca e Suécia, um ano somente um poucochinho pior que o normal.



Já agora: o Henrique poderia colocar aqui um gráfico similar, da mortalidade excessiva acumulada ao longo do ano, para as regiões portuguesas?

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