Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Conflitos de interesses

por henrique pereira dos santos, em 18.11.20

Quando hoje li a peça do Público em que se põe em causa a fundamentação científica da decisão da Relação de Lisboa sobre testes não queria acreditar que o Público tinha achado adequado pedir uma opinião sobre o assunto ao dono de um dos laboratórios que mais beneficiam com a política de testes existente.

Miguel Esteves Cardoso escreveu recentemente uma crónica sobre uma senhora que, em tribunal, quando o advogado de um dos acusados a confrontou com o facto do seu cliente negar que tinha ido para a cama com ela, como ela tinha testemunhado, respondeu qualquer coisa como, "nunca diria que sim, não acha?".

Pelos vistos no Público não lêem as crónicas que publicam e acharam bem perguntar ao dono de um laboratório se os testes que faz eram mesmo bons e servem para o que se pretende (uma declinação da habitual pergunta sobre se a mousse é mesmo caseira).

Como dizia Luís Aguiar-Conraria, exactamente a propósito de um comentário sobre este assunto em que se defendia a honorabilidade de Germano de Sousa, é bom ter bem presente que identificar conflitos de interesse não depende da honorabilidade das pessoas envolvidas e é evidente o conflito de interesses entre o facto de se ser um dos principais beneficiários da política de testes adoptada e qualquer opinião, que se pretenda independente, sobre a utilidade dessa política.

Isto não diz nada sobre a honorabilidade de Germano de Sousa, apenas diz sobre a agenda do jornalista do Público (prefiro partir do princípio de que alguém tem uma agenda a partir do princípio que é tão incompetente que não consegue identificar um conflito de interesses desta dimensão).

Para o que eu não estava verdadeiramente preparado era para ficar a saber agora que a segunda pessoa que a peça do jornalista cita é um investigador que tem dois financiamentos que dependem da mesma política de testagem.

Neste caso a questão é um bocado diferente porque o investigador escreve um artigo de opinião no Público on-line, o que o jornalista do Público cita na peça em papel, sem o investigador se lembrar de escrever uma linha, por pequenina que seja, a avisar os seus leitores do que está escrito nesta imagem.

125827526_10158604664600325_7853644854708932004_o.

Portugal tem um problema sério, muito sério, de qualidade institucional.

O problema com este exemplo não é o facto de Vasco M. Barreto se pronunciar sobre a área que é objecto da sua investigação, parece-me muito bem vinda a atitude dos investigadores participarem da vida da Pólis, o problema é não ser capaz de identificar a necessidade de fazer uma simples declaração de interesses neste caso.

Com o que se passou com Centeno e a quantidade de gente incapaz de ver o conflito de interesses associado à sua transferência directa do Ministério das Finanças para o Banco de Portugal, a questão não é este exemplo que cito acima, é mesmo o grave problema de um país em que as instituições estão capturadas pelos "devoristas" e as pessoas comuns acham isso normal.



11 comentários

Sem imagem de perfil

De Marta a 19.11.2020 às 00:02

Talvez seja de começar a partir do princípio que boa parte dos nossos jornalistas (e não só) não percebe o conceito de conflito de interesses... Para além de terem a sua agenda, que é a de serem os missionários da última causa da moda. 


Pegando num exemplo ainda mais gritante - e esperando estar a lembrar-me correctamente - creio que um dos envolvidos no Galpgate disse que não tinha tido consciência de que havia um problema em aceitar bilhetes da Galp para os jogos. Especialmente quando havia uns quantos litígios em tribunal. E o pior é que há boas hipóteses de não ter mentido... 
Sem imagem de perfil

De V.Valente a 19.11.2020 às 00:41

o HPS é que como se nota ha meses nao tem interesses nenhuns.
O homem percebe de epidemiologia, de virologia, de imunologia, de constituicionalidades....  
Primeiro o virus nao esta isolado, depois é porque se encontraram vestigios nas aguas, depois é porque nao ha excesso de mortalidade, depois é porque tem falsos positivos, depois é as medidas nao sao constituicionais, depois é porque as mascaras nao sao eficazes, depois é porque isto nunca se fez na história, etc etc etc etc
São coincidências que esta é a narrativa em UNISSONO de uma certa ala política..... coincidência.....  serão pessoas mais aptas à ciência....
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 19.11.2020 às 06:43

O que é de mais é demais.
1) Nunca escrevi absolutamente nada sobre o vírus não estar isolado, o camarada está a mentir ao dizer que eu escrevi alguma coisa sobre isso;
2) Nunca escrevi nada sobre encontrarem-se vestígios do que quer que seja em águas, o camarada está a mentir ao dizer que alguma vez escrevi alguma coisa sobre isso;
3) Sobre falsos positivos escrevi uma coisa banal: são seguramente mais de dez por cento e por isso decretar a prisão domiciliária de pessoas com base apenas num teste, em vez de dois à melhor de três, é completamente ilegítimo, nada mais que isso;
4) Nunca escrevi nada, que me lembre, sobre o facto das medidas serem ou não constitucionais, não sei o suficiente sobre o assunto para ter opinião sobre isso;
5) Não tenho ideia nenhuma de ter escrito que as máscaras não são eficazes, terei com certeza escrito que não há evidência de que o sejam, fora de contextos muito específicos, e citei, com certeza, a OMS que diz exactamente isso;
6) Sim, escrevo frequentemente que isto nunca se fez na história e não conheço ninguém que diga o contrário disso, por ser facilmente comprovável.
Ou seja, o camarada é um mentiroso que recorre a mentiras estúpidas para justificar comentários pessoais irrelevantes para substituir a falta de argumentos.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 19.11.2020 às 10:36

HPS, faça favor de não se esquecer que estamos a atravessar "a hora do lobo", a era do tpc (tempos do politicamente correto).
Assim, a título de exemplo, devia ter dito ardilosamente mas em tom melífluo "o Kamarada diz inverdades" e não "o camarada recorre a mentiras".
Sempre em sintonia com os tempos! 


p.s.  Nunca desalinhe! Não ouse, não arrisque e sobretudo, não se atreva, porque o sr. e tantos de nós não fazemos parte das espécies protegidas. 
Sem imagem de perfil

De Luis Barreiro a 20.11.2020 às 01:46

Tenho muito gosto de o ler principalmente desde o início desta pandemia de assintomáticos, por isso gostaria de o convidar a ver a entrevista de ontem do Rui Unas ao Dr. Fernando Nobre presidente da AMI, principalmente os primeiros minutos de longa entrevista, já agora toda ela formidável.
Basta pesquisar entrevista Rui Unas Dr. Fernando Nobre.
Imagem de perfil

De Eremita a 20.11.2020 às 14:49

Ou o Henrique ainda é mais idiota do que eu pensava ou é apenas um pequeno sacana. Avaliarei se vale a pena ou não perder tempo consigo na justiça. 


Entretanto, meta duas ou três coisas nessa sua miserável cabeça:
 

1. Não há qualquer necessidade de declaração de interesses. Declarar o quê? Que tive projectos financiados na área? Mas em que medida a minha opinião sobre o acórdão está influenciada pelo financiamento? Só estaria se eu tivesse escrito precisamente o contrário, ou seja, se concordasse com as juízas para me promover denegrindo a técnica, pois o projecto financiado visa melhorar o método existente. O que tenho eu a ganhar em defender na imprensa o método que pretendo melhorar, pode dizer-me? A PCR é uma técnica estabelecida há décadas e não é por começar a ser de repente discutida por leigos que se transforma numa tecnologia de mérito incerto, em busca de mercado e à qual podemos associar interesses obscuros. É tudo tão idiota, francamente...

 

2. Escrevi o que provavelmente qualquer biólogo molecular escreveria. A minha opinião é a de um especialista em PCR, não a de um autor com projectos de PCR na área da COVID-19. 

 

3. A única informação importante é minha afiliação ao Centro de Estudo de Doenças Crónicas, pois menciono os dados do nosso serviço. Essa informação surge no artigo: "Biólogo e Investigador FCT do Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa" 

 

4. A ética deficiente que vejo aqui é a sua, pois um ataque tão vil, disparatado e forçado só pode vir de quem ficou com muitos anticorpos depois das nossas discussões. Não as lembrar aqui é enganar o leitor e ocultar um óbvio conflito de interesses, pois a sua cabeça perdeu sensatez e objectividade. 
 
5. A comparação com Centeno leva-me a recomendar que procure ajuda médica. 
 
6. O Henrique e provavelmente o amiguinho André Dias (contaram-me que também montou um tiro ao Vasco M. Barreto no estaminé dele) aproveitam-se da ignorância dos membros da claque acenando-lhes com a expressão "conflito de interesses", sem terem pensado minimamente no assunto, assim denegrindo a minha imagem e a do Público. A forma como tratam a informação e o ataque ao meu carácter é miserável e dá pena.
 
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 20.11.2020 às 15:22

Caro Vasco,
1) O post não diz nada sobre o seu carácter, apenas identifica um evidente conflito de interesses que deveria ter sido explicitado por si. Bastaria uma frase simples a dizer isso. Isso não tem nenhuma relação com a sua opinião sobre o acórdão, apenas dá aos seus leitores a oportunidade de lerem o que escreve sabendo desse potencial conflito de interesses;
2) O que está em causa não é uma questão de biologia molecular, é uma questão de estatística;
3) Ao contrário do Vasco, eu não fiz nenhum processo de intenções em relação a si, não acho que valha a pena discutir estas matérias com base em processos de intenções. A ter feito algum processo de intenções terá sido a quem escreveu a peça no Público porque não se vê qual o interesse em perguntar a quem beneficia com um facto o que pensa desse facto. Não se trata de achar que a pessoa que responde não é suficientemente íntegra para ter opiniões contra os seus interesses, trata-se de evitar essa situação que é sempre eticamente delicada e levanta sempre dúvidas, qualquer que seja a integridade de quem responde;
4) O seu comentário, ao pretender desviar a questão do potencial conflito de interesses para a sua integridade (de que não tenho a menor razão para duvidar, já agora), é bem o exemplo de como as elites portuguesas (suponho que em muitos outros países também) lidam mal com o conceito de conflito de interesses, que é uma matéria objectiva, completamente independente da integridade dos envolvidos. Daí o paralelismo com a situação de Centeno, que tem feito exactamente o mesmo tipo de defesa que o Vasco, como é habitual neste tipo de situações.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 20.11.2020 às 15:03

Ou o Henrique ainda é mais idiota do que eu pensava ou é apenas um pequeno sacana. Avaliarei se vale a pena ou não perder tempo consigo na justiça. 


Entretanto, meta duas ou três coisas nessa sua miserável cabeça:


1. Não há qualquer necessidade de declaração de interesses. Declarar o quê? Que tive projectos financiados na área? Mas em que medida a minha opinião sobre o acórdão está influenciada pelo financiamento? Só estaria se eu tivesse escrito precisamente o contrário, ou seja, se concordasse com as juízas para me promover, pois o projecto financiado visa melhorar o método existente. O que tenho eu a ganhar em defender na imprensa o método que pretendo melhor, pode dizer-me? A PCR é uma técnica estabelecida há décadas e não é por começar a ser de repente discutida por leigos que se torna numa tecnologia de mérito incerto, em busca de mercado e à qual podemos associar interesses obscuros. É tudo tão idiota, francamente...


2. Escrevi o que provavelmente qualquer biólogo molecular escreveria. A minha opinião é a de um especialista em PCR, não a de um autor com projectos de PCR na área da COVID-19. 


3. A única informação importante é minha afiliação ao Centro de Estudo de Doenças Crónicas, pois menciono os dados do nosso serviço. Essa informação surge no artigo: "Biólogo e Investigador FCT do Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa" 



4. A única falha ética que vejo aqui é a sua, pois um ataque tão vil e desproporcionado só pode vir de quem ficou com muitos anticorpos depois das nossas discussões. Não as lembrar aqui é enganar os leitores e oculta um conflito de interesses (olha que curioso), pois o único interesse deste texto é atascar-me na lama e para isso recorre a calúnias embrulhadas numa aparente defesa da salubridade do espaço público. O Henrique dorme bem? Ainda mantém a luz acesa quando está diante do espelho?


5. A comparação com o Centeno leva-me a recomendar que procure ajuda médica. 


6. O Henrique e provavelmente o amiguinho André Dias (contaram-me que também montou um tiro ao Vasco M. Barreto no estaminé dele) aproveitam-se da ignorância da claque acenando-lhes com a expressão "conflito de interesses", sem terem pensado minimamente no assunto, assim denegrindo a minha imagem e a do Público. A forma como tratam a informação e o ataque ao meu carácter é miserável e dá pena.
Imagem de perfil

De Eremita a 20.11.2020 às 15:22

Errata: não é uma calúnia, é uma difamação.
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 20.11.2020 às 15:26

Dizer que numa situação concreta alguém tem um conflito de interesses é uma difamação?
Tenha lá calma e veja com atenção o que escrevi, que é muito mais sobre o Público e as suas opções que sobre o Vasco, sobre o qual não digo nada mais que ao se pronunciar sobre uma opção de gestão da epidemia que gera financiamentos para processos que dirige deveria dar nota da situação aos seus leitores.
Imagem de perfil

De Eremita a 20.11.2020 às 15:37

Se voltar a ter mais alguma interacção consigo, pode ter a certeza que será na justiça. Aguarde.

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Vasco Silveira

    ..." temos 3 instituições: as forças armadas, os b...

  • Anónimo

    Pois! Isso foi notícia. Mas é claro, indignnações ...

  • Jose Miguel Roque Martins

     O problema é parecer ou  querer serem p...

  • Anónimo

    Os militares não actuam de livre vontade. Tem que ...

  • Anónimo

    Brilhante artigo. Mais um crme da responsabilidade...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D