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Como contar

por José Mendonça da Cruz, em 23.06.22

Todos os cursos de jornalismo deveriam incluir (mas não incluem) esta pequena lição sobre como se relata um drama. Um dia, uma professora de liceu perguntou às meninas e meninos da sua turma mista se gostavam ou não de caça. Os meninos e as meninas manifestaram-se todos contra com grande ênfase e algazarra. «Então», disse a professora, «escrevam uma redacção sobre isso, explicando porque não gostam da caça. Amanhã lemos as melhores.»

Mas, no dia seguinte, afinal, a professora só leu uma redacção. Resumiu 29 das 30, que eram todas iguais. «Ah, a caça é muito má, os homens são cruéis, matam os animaizinhos inocentes só para se divertirem e ganharem dinheiro, não pensam nas ninhadas que ficam orfãs, não pensam na dor de um casal quando um deles é morto, querem é explorar a natureza, não têm respeito por nada, nem pelo sofrimento dos animais, nem pelo ambiente.» E assim por diante.

A professora leu, no entanto, a redacção de um dos meninos. Dizia assim: «O caçador apontou bem e disparou. A bala fez um som surdo quando atingiu o veado e levantou pó no pelo. As mãos do veado estremeceram, dobraram-se, ele tentou levantar-se, mas teve uma convulsão, e ajoelhou, e o peito e o focinho bateram no chão. Depois caiu a garupa. O veado tombou inteiro numa nuvem de poeira. O caçador saiu do esconderijo e aproximou-se. O veado arfava, o buraco que a bala fizera jorrava golfadas de sangue e da boca do animal saía uma aguadilha, uma mistura de baba e de sangue. Os olhos do veado estavam cheios de medo, o caçador viu-os, mas depois o veado resfolegou, vomitou mais sangue com baba, e deixou de respirar e os olhos, muito devagarinho, deixaram de olhar, e depois perderam o brilho, e depois ficaram baços.»

Quando a professora acabou de ler a redacção deste menino -- que não tinha dito para proibirem a caça, nem para matarem os caçadores, nem para ilegarizarem as espingardas, nem proclamara que os veados são a mais bela criação do mundo, nem jurara que a caça mata o ambiente e o ambiente nos vai matar a todos -- quando acabou de ler a redacção os meninos e as meninas choravam baba e ranho todos.

Ora, embora correndo o risco de, com considerações deste género, estar a educar alguns fanáticos de «causas», eu faço-as ainda assim. Porque julgo que os fanáticos de causas não aprendem nada, nem sequer o que seria eficaz para eles. Não, o meu propósito é mais modesto: é evitar que numa reportagem sobre uma cidade ucraniana deserta e devastada o jornalista comece por dizer que «é como o dia a seguir a uma festa» ou «como a estação quando o comboio já partiu». É que, como os dos meninos excitados, há textos armados em lintratura ou pô-é-zia que não são só vãos e indignos, são estúpidos.



6 comentários

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De Anónimo a 24.06.2022 às 07:17

Não me diga que as frases transcritas (que descrevem a guerra nas cidades ucranianas) foram mesmo proferidas??? Ah! Então o ensino nas escolas de jornalismo está mesmo de rastos!  Além do mais perdeu-se a noção do ridículo e isso não sei como se resolve...
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De Anónimo a 24.06.2022 às 08:02

 José Mendonça da Cruz, permita-me que lhe indique este texto da autoria da Teolinda Gersão que eventualmente explica o que está a acontecer à Língua Portuguesa: 

"DECLARAÇÂO de Amor à Língua Portuguesa
Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar Português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. 
(segue-se a redacção):
https://ospontosdevista.blogs.sapo.pt/teolinda-gersao-declaracao-de-amor-a-235636
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De José Pires Borges a 24.06.2022 às 10:50

Por acaso, ontem quando ouvi essa estupidez, pensei logo nisso. Então não havia outra forma de descrever a barbárie acabada de acontecer com "parece um final de festa..." Raios parta!
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De anónimo a 24.06.2022 às 17:03


O pai do menino é caçador?.

Nas boas escolas de jornalismo convidam-se, para estimular os alunos, oradores de todos os quadrantes, políticos, económicos, culturais ....

Depois sim, "escrevam uma redação" sobre os temas abordados pelo conferencista e, não esquecer, sobre aquele acontecimento, ele mesmo, o drama no palco e na plateia. Isso é "jornalismo".
Quanto às ideologias, às causas, isso é conversa para adultos.
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De entulho a 25.06.2022 às 09:53

o 4º poder é um desastre desastroso
não serve nem para limpar merda
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De pitosga a 01.07.2022 às 12:28


José Mendonça da Cruz, o texto será um pouco longo.
Dei aulas prácticas na Faculdade Medicina da Universidade Clássica de Lisboa durante 48 anos; sem qualquer contrato (Assistente) nem pagamento. Sempre gostei de andar direito e de não sofrer de males da coluna. Cedo percebi que a tal duração era real porque eu lhes fazia falta. Transcrevo um pouco daquilo que os jovens, em geral, não apreciavam:

Na realidade, uma História Clínica não passa de uma História — e como qualquer história, só será lida (ou ouvida) com atenção, se for bem contada. É a arte milenar dos contadores de histórias que é tão cara à Espécie humana, nas lendas das tribos e na literatura (como em Homero, Shakespeare, Grimm, Stephan Zweig, Eça de Queiroz, Hemingway, etc.), bem como nos contos com que as nossas mães e avós nos cativaram. Em Medicina, resume-se a:

Contar uma história daquilo que nos contaram — a Anamnese; e
Contar uma história do que nós observámos — o Exame Objectivo.

Se bem que pareça complicado e trabalhoso contar o que nos contaram e contar o que nós observámos, o essencial é que a organização e a apresentação da informação tenha como alicerces, para cada paciente, a mais clara apresentação dos factos mais relevantes.



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