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Coligações

por henrique pereira dos santos, em 31.10.21

Existe a ideia de que nas eleições os partidos "testam a sua força", para usar uma expressão de um dos comentadores do meu post anterior.

Isso é verdade, claro, mas não é para isso que existem eleições e menos ainda é para isso que os partidos concorrem às eleições.

Os partidos existem, e concorrem a eleições, para apresentar o seu programa, mesmo que o seu programa seja apenas eleger um chefe de facção.

Quem acha que tem um programa suficientemente distinto dos que existem, faz um partido, concorre, e depois se vê se os eleitores acham que o programa é suficientemente distinto (por exemplo, o Livre, o Aliança, o Volt, são partidos que, aparentemente, não conseguem explicar muito bem aos eleitores por que razão se deve votar nesses partidos).

Só faz sentido fazer coligações pré-eleitorais quando existe um programa comum que ganha em ser apresentado com uma base de apoio única.

Foi o caso da Aliança Democrática, que tinha um programa - não é o programa que escreveram, é o programa real, tal como percebido pelas pessoas comuns - razoavelmente claro e que justificava uma coligação: liquidar os restos institucionais do 25 de Abril que não correspondiam a opções democráticas, reformar economicamente o país e, já agora, trazer para o centro da política a agenda ambiental e de gestão do território que o PPM trazia consigo (a ideia de que a política ambiental é uma bandeira da esquerda não tem qualquer, mas qualquer, base factual na história do ambientalismo em Portugal).

Admito que poderia haver razões para fazer hoje uma coligação liberalizante que libertasse o país dos pesos que lhe têm imposto a estagnação dos últimos vinte anos, a começar pelo enorme peso da dívida.

Reconheço, no entanto, que dificilmente seria possível fazer uma coligação que seria sempre catalogada como uma espécie de troica sem troica.

Acresce que os partidos que poderiam apoiar um sentido reformista liberalizante, não se entendem sobre o que é necessário fazer para deixarmos de continuar estagnados.

Assim sendo, é de longe preferível que cada um apresente aos eleitores o programa que quiser, e depois das eleições, logo que se vê o que é possível fazer em comum.

Agora fazer coligações apenas porque com os mesmos votos se pode ter mais deputados, é mesmo muito, muito poucochinho, ou ter como programa remover António Costa é, ainda assim, poucochinho, o problema não é António Costa, é tudo aquilo a que António Costa dá representação política. 

Os partidos que estão fartos da estagnação dos últimos vinte anos não podem ter como ambição ter mais deputados com os mesmos votos, têm mesmo de ter como ambição ter de tal forma mais votos que essa matemática do método de Hondt se torne irrelevante.

Se os eleitores não quiserem, paciência, resta-lhes trabalhar para que na eleição seguinte mais eleitores se convençam de que o seu programa vale a pena.

A alternativa é ficarmos nesta mansa resignação em que temos andado, cujos resultados são o que todos sabemos que têm sido.


6 comentários

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De Anónimo 78 a 01.11.2021 às 15:34

Já escrevi o que penso tanta vez que eu próprio já começo a estar enjoado.
Não discutindo a hipótese que considero mais provável, de que pouco ou nada mude com novas eleições, e que assim continuaremos a resvalar para o abismo, apenas considero  a hipótese de, independentemente de partidos, coligações ou pessoas, uma solução governativa que tente inverter a tendência actual.
A dívida pública é literalmente impagável, e a crise já em curso, com inevitável inflação vai fazer subir as taxas directoras e arrasar qualquer possível equilíbrio orçamental. O investimento público nacional, vai desaparecer e a política social terá de sofrer os cortes que não possam ser erodidos pela inflação (especialmente salários da FP e pensões). As reacções, sobretudo do sindicalismo arruaceiro, serão fortes e, pelo menos em Lisboa, os sectores municipalizados, especialmente transportes, provocarão a ingovernabilidade ou mesmo o caos.
Poderia continuar até escrever um artigo ou mesmo um pequeno livro mas, será o suficiente para o que desejo salientar.
As opções em aberto são duas: 
- Uma nacional que seria uma democracia musculada em que, salvando eleições periódicas e independência judicial, parte substancial das "conquistas de Abril" nomeadamente a Constituição, iriam fazer companhia ao socialismo de Soares numa gaveta.
- A outra - que infelizmente me parece muito mais provável - é que a austeridade nos venha a ser imposta do exterior e a próxima "troika" seja já ela musculada. Nada que Portugal não tenha conhecido no século XIX, só que agora coma UE a substituir a Grã-Bretanha.
Finalmente, seria em função destas opções que os próximos líderes deviam ser avaliadas. Entre um ou uns com coragem e apoio político para assumir a ruptura com o discurso de Abril (duas condições que acho conjuntamente impossíveis na práctica) ou outros com competências e estômago, para o desempenho do cargo de capataz dos alemães.

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