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Coisas estranhas

por João Távora, em 15.07.22

Stranger-Things-Kate-Bush.jpg

Há poucas coisas mais difíceis hoje em dia na minha casa que ver em família uma série de televisão em streaming. Acontece que há sempre alguém à hora combinada que não pode estar presente na sala por causa de programas inadiáveis, sempre interessantíssimos, que justificam o resto da comunidade ficar solidariamente em suspenso à espera duma oportunidade consensual. Acontece que os episódios estarão lá indefinidamente ocultos, mas disponíveis, toda a gente sabe; por isso adia-se mais uma vez. Mais valiam os meus tempos de juventude: naquele serão de 5a feira, quem não estava, que estivesse. O drama só avançava um episódio por semana mas não dependia de apetites individuais.

Vem isto a propósito de “Stranger Things”, uma série escrita e dirigida pelos irmãos Duffer, cujos episódios vêm sendo estreados na Netflix deste 2016 tendo recentemente a IV temporada sido disponibilizada. Essencialmente destinada a adolescentes, com o protagonismo principal de um grupo de jovens, “Stranger Things” no entanto apresenta iconografia e referências destinadas a atrair as gerações mais velhas – uma coisa esperta.  A trama, passa-se em meados dos anos oitenta numa pequena cidade do Estado de Indiana, remetendo todo o ambiente, o guarda-roupa, cenografia, até as cores carregadas do vídeo, para essa época. Para isso também contribui a banda sonora, senhores – eles sabem brincar com a nostalgia. A intriga desenvolve-se à volta de um obscuro mundo inverso e subterrâneo onde um mora um terrível monstro que os governos da União Soviética e dos EU envolvidos em experiências cientificas tentam esconder, tem tudo para reunir a família inteira, onde ela ainda possa resistir nesses moldes. Entretenimento puro.

Ora, foi nesta série, que me foi aconselhada há uns meses pela minha filha, que aconteceu o fenómeno que aqui quero relevar: trinta e sete anos depois (!) de tocar pela primeira vez numa estação de FM, a canção “Running up that hill”, de Kate Bush ressurge e alcança o primeiro lugar das tabelas de streaming mundiais, como hino de uma nova geração – ainda não chegámos a esse episódio, por cá ainda estamos no início da III temporada. Parece que miudagem se converteu à musa da minha juventude. Deste modo Kate Bush vem batendo várias marcas inéditas, não só a de despertar a curiosidade da minha filha para uma música que me apaixonou em tempos longínquos e que eu pensava perdida para a miudagem, como estabelece o recorde do mais longo período de tempo que um tema demorou a alcançar o primeiro lugar nas tabelas de singles oficiais – 37 anos. Uma coisa verdadeiramente estranha que tenho esperança de entender quando chegar ao dito episódio. Porque será que, entre tantas canções dos anos oitenta incluídas na banda sonora da série, é com “Running up that hill” que acontece este fenómeno? A minha resposta, certamente simplista, é que a canção, incluída no álbum “Hounds of Love” de 1985, é, como sempre suspeitei, um grande tema – o disco é quase todo genial, aliás.

Alguém comentava há dias no Twitter que, por conta da canção (como todas as suas canções) lhe pertencer integralmente em autoria e direitos, este fenómeno lhe está a render cerca de 250.000 libras por semana. Kate Bush afirmou numa raríssima entrevista à BBC dada há umas semanas, estar muito espantada com o prodígio da sua recente popularidade. Com sessenta e três anos, retirada na sua casa de campo com um grande piano, confidenciou-nos não usar telemóveis espertos, o que é uma desnecessária prova da sua forte personalidade, e que para seu sossego, não frequenta redes sociais - e imagino que também não oiça música pelo telemóvel.

Talvez os mais desatentos não saibam que Kate Bush publicou em 2013 o seu último álbum, “50 Words for Snow”, uma autêntica pérola, que estou em crer terá passado ao lado da malta nova. O que eu vos posso garantir é que a cantora e compositora Kate Bush merece todo este renovado sucesso tardio. E nem sonham a sorte que têm se se dispuserem a descobrir a sua extraordinária obra. Integralmente feminina.

Ainda bem que acontecem coisas estranhas. Com sorte verei a série até ao fim em boa companhia, que há diversões que só fazem sentido dessa forma.

 



7 comentários

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De Anónimo a 16.07.2022 às 08:11

Inteira razão em relação à Kate Bush. Era sofisticada, exigente nos detalhes do guarda-roupa e da encenação e em todas as suas performances revelava, desde logo, a sua vincada formação artística na área da dança, da mímica e da música. Mas é sobretudo uma cantora de primeira água, com uma voz "diferente", singular, razão pela qual  cedo atraiu a atenção de Gilmour dos Pink Floyd o que diz tudo da qualidade de Kate Bush. Talvez mais "comercial", mas recordo-me que eu passava o tempo a ouvir o "Babooshka".


https://www.youtube.com/watch?v=6xckBwPdo1c
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De Anónimo a 16.07.2022 às 08:17

https://www.youtube.com/watch?v=Fk-4lXLM34g



A sua voz estranha, maravilhosa.
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De Anónimo a 16.07.2022 às 08:28

As grandes canções estiveram sempre lá, só aguardam que nós, no meio da preguiça dos air play das rádios, tropecemos nelas ou haja disponibilidade para ousar experimentar coisas diferentes. Um bom exemplo disso são listas como "100 discos que devemos ouvir antes de morrer".


O tema em questão faz parte da minha playlist há vários anos, tratando-se essencialmente de musica pop de grande qualidade não fico surpreendido com o sucesso tardio. 


Quanto à série, é bom entretenimento.
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De Anonimo a 16.07.2022 às 14:19

Está no ******fy juntamente com Wuthering Heights.
Giro foi ver a luta por causa da apropriação cultural. Realmente a nossa sociedade tem pouco com que se entreter.
A série vê-se, a plataforma tem "melhores", dependendo dos géneros que se gosta. A qualidade foi decaindo até à 3a temporada, ou então perdeu-se o efeito novidade. 
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De pitosga a 23.07.2022 às 11:24


João Távora, um post excelente.
Cumprimento-o
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De Anónimo a 28.07.2022 às 16:11


Para mim, a época dourada da musica deu-se entre os anos 70-90.
Despois disso é (quase) só fancaria.
Quantas vezes Stones, Pink Floyd, Who, Psychedelic Furs, Duran, Cure, Queen, Sex Pistols, Cult, tantos outros de não menos mérito e musicalidade.
Kate Bush, Nina Hagen...

E que tinham muito menos tecnologia ao seu dispor.

Agora é só lixo.
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De Floyd a 29.07.2022 às 10:05

Não tenho paciência para acompanhar séries (ou novelas) que nunca mais acabam, por isso não me pronuncio sobre "Stranger Things". Mas Kate Bush é uma grande artista, talvez a mulher mais dotada e completa do universo pop do último meio-século: ela compunha, escrevia as letras, cantava, dançava...e tinha bom gosto e criatividade - nada que se compare com as Madonnas, Shakiras, Beyoncés, Anittas, etc. desta vida. É mais do que justo que esteja a obter reconhecimento e lucro.

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