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Coelho versus Costa

por henrique pereira dos santos, em 09.04.17

Diz Vasco Pulido Valente que "O papel que cabe a Passos Coelho é mostrar um destino melhor a todo o país".

Não é o único a fazer essa crítica a Passos Coelho, há de facto muito quem diga que o papel da oposição é apresentar melhores propostas, dar um horizonte de esperança para o futuro e essas coisas todas que, no essencial, são a defesa de uma oposição política que prometa bacalhau a pataco se ganhar as eleições.

Essa crítica é muito curiosa porque não se aplica a quem está no governo: qual é o horizonte de esperança que é dado pelo governo nas medidas concretas tomadas até agora?

Substituição de cortes de ordenados ao funcionalismo público e aos pensionistas por mais impostos indirectos para todos é definir um horizente de esperança? Até sou favorável à transferência de impostos sobre o trabalho e o capital por impostos sobre o consumo, e isso sim, seria uma opção de política para o futuro, concorde-se ou não com ela. Mas isso é muito diferente de fazer pagamentos a grupos sociais definidos, à custa de impostos difusos sobre todos: isso é apenas substituir uma medida negativa visível (o corte de ordenados e pensões) por uma medida igualmente negativa mas invisível (o aumento de impostos indirectos), não é seguramente "mostrar um destino melhor a todo o país".

Reverter concessões de transportes públicos sem que se perceba para quê? Reformar florestas sem contar com quem as gere e sem se preocupar com a competitividade da produção florestal? Resolver a estabilidade do sector financeiro à custa do contribuinte e da intervenção directa na estrutura accionista de empresas privadas? Ter 50% da TAP, sem que se perceba para quê?

Tudo isso e muito mais é tudo o que o governo em funções tem feito: intervir directamente na economia com os recursos do contribuinte que foram retirados ao investimento que o Estado deveria fazer nas funções que mais ninguém pode desempenhar.

O governo em funções tem essencialmente gerido as corporações e os sindicatos de voto, em nome de interesses gerais.

Ou seja, o que distingue Coelho de Costa é que é hoje claro que onde Coelho disse não a Ricardo Salgado, Costa teria dito sim, prolongando o principal factor limitante do crescimento do país nas últimas década: a captura do Estado por sectores privados, sempre em nome de ideias nobres como a estabilidade do sector financeiro, a defesa do emprego, o reforço dos centros de decisão nacionais e outras abstracções que tal.

Como diferença de programa político para mim chega e sobra: eu seguramente votarei na mais imperfeita das opções desde que me pareça a que melhor defende um programa mínimo de libertação da sociedade da viscosa promiscuidade entre os sectores protegidos e o aparelho de Estado.

E não preciso que seja uma boa solução, basta-me que seja menos má que a alternativa, quando avaliada pela perspectiva da autonomia da sociedade face ao Estado, e vice-versa.

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22 comentários

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De Renato a 20.04.2017 às 09:23

JS, mas onde é que vai buscar essas frases? Note que eu nem sequer estava a colocar em causa a qualidade da democracia inglesa, que eu admiro, mas apenas a referir-me à maneira como se comportam os deputados no parlamento. Está recordado? Não se trata aqui de discordarmos em nada, mas apenas de eu lhe explicar umas coisas sobre isto. Conheço bem a realidade inglesa, onde tenho família há longos anos, incluindo ingleses de gema (tories e tudo). Quem fez o império britânico o que foi e quem continua a regular e sustentar o sistema nem sequer são os políticos, mas sim os funcionários de carreira da coroa, desde o contínuo ao diretor geral. Acredite que a preparação dos nossos deputados é, em média, superior à dos deputados ingleses, bem como a qualidade dos debates e intervenções no parlamento. Há quem lá entre bêbado e saia bêbedo e a única iniciativa que tem é patear e mandar bocas, quando o colega do lado faz o mesmo, ou votar quando o do lado faz o mesmo. Não são raros os casos de deputados ingleses que, de tão bêbados, nem sequer se lembram do que votaram.

Eu nem sequer sei onde foi buscar isso da “autonomia”. Qual autonomia? Eles não estão lá para terem iniciativas de voto autónomos, JS, mas para para votar e manifestar-se de acordo com a vontade dos seus chefes de bancada e de partido. Já alguma vez viu um deputado inglês votar uma moção de um partido contrário, ou sequer abster-se? Isso acontece, e mesmo assim em termos muito limitados, em outros parlamentos, como o americano e na parte continental da Europa, incluindo aqui em Portugal. Já agora, sabe como é que se chama o membro do partido no parlamento inglês encarregado de manter a disciplina dos deputados? O whip. Sabe o que significa e a origem da palavra “whip”?...;) O chief whip do partido do governo, tem mesmo residência oficial na downing street, por causa das coisas

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