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Um dia destes, uma pessoa que não conheço pessoalmente, ligada aos jornais, mas que me parece sensata e séria pelo que lhe leio, criticava as críticas aos jornalistas que durante anos olharam para o lado para não ver o que não queriam ver no tempo de Sócrates.
O seu argumento é que se não fossem os jornalistas e os jornais, nada do que hoje se passa sobre Sócrates estaria a acontecer.
Esse argumento é verdadeiro mas omite o essencial: se aos poucos que exerceram dignamente a sua profissão se tivessem juntado os muitos outros que olharam para o lado, provavelmente Sócrates teria acabado politicamente muito mais cedo e o país teria pago um preço muito mais baixo pela loucura normal que se instalou.
E assentar o exercício do poder na herança que Sócrates deixou, mudando algumas coisas para manter o essencial, seria impossível, ao contrário do que hoje acontece.
É por isso que ler o artigo de hoje de Alexandre Homem Cristo, de que retirei a citação com que começo este post, nos deveria levar directamente à pergunta que me parece mais importante para prevenir a captura do Estado por grupos de interesses: como é possível que António Costa, Vieira da Silva, Santos Silva, Pedro Silva Pereira, João Galamba não sejam, todos os dias, confrontados pelos jornalistas com a evidente impossibildade de não saberem de nada, quando António José Seguro disse o que disse e, por isso, foi defenestrado sem ponta da devida suma piedade?
Há com certeza um problema de responsabildiade individual (José Sócrates fez escolhas que são da sua inteira responsabilidade), de responsabilidade partidária (o PS fez escolhas que são da sua responsabilidade), de responsabilidade das instituições (a sociedade fez escolhas em relação à arquitectura institucional e às regras que formatam a decisão pública) mas há, inequivocamente, um problema de responsabilidade por um ambiente mediático que permite que nenhum dos citados seja incomodado com perguntas incómodas sobre o que fizeram e como se posicionaram face à escolha explícita de que resultou a eleição de António Costa para secretário-geral do PS.
Se o jornalismo mantiver este padrão de escrutínio suave, podemos estar certo de que é uma questão de tempo até aparecer um outro Sócrates qualquer, em qualquer um dos partidos existentes.
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