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Ciclovazias

por henrique pereira dos santos, em 23.10.21

O título deste post é a forma depreciativa como muita gente se refere à política de apoio à utilização da bicicleta de Lisboa.

Apesar de facilitar e incentivar o uso de bicicletas em Lisboa ser uma política que, em abstracto, só tem vantagens para todos, as posições sobre o assunto têm vindo a extremar-se.

A origem do problema - o problema é o extremar de posições, não é nem a bicicleta nem o carro, que são meros instrumentos nas nossas mãos - parece relativamente fácil de identificar: o espaço urbano é limitado e circular, seja de que maneira for, obriga a usar o espaço.

Enquanto o espaço disponível é relativamente amplo, não sendo por isso factor limitante, como, por exemplo, na Avenida da República, a competição pelo espaço é relativamente contida e pode ir sendo gerida tecnicamente.

O problema é mais bicudo quando o espaço não chega para todos.

É o que acontece em algumas áreas de qualquer grande cidade e, nessa altura, é preciso fazer opções, beneficiar uns, prejudicando outros, porque o espaço não chega para satisfazer todos.

Ao contrário do que frequentemente se diz, o espaço tem alguma elasticidade: quando se faz um túnel (seja para o Metro, seja para os carros), ou um viaduto, ou quando se usam autocarros de dois andares, ou quando se usam estacionamentos em altura, ou quando se usam aplicações que aumentam o número de passageiros médios de um carro, etc., etc., etc., estamos a aumentar a secção de vazão, isto é, estamos a aumentar a capacidade de um fluxo de gente passar no mesmo local, ou seja, a expandir um espaço que parecia fisicamente limitado.

Só que este tipo de soluções, não só continuam a ter limites físicos (mesmo que sejam outros), como implicam gastar recursos para as pôr em prática.

Se a discussão se mantiver entre a escolha dos carros e das bicicletas (e afins), a discussão tenderá a extremar-se, quer porque os utilizadores compulsivos de carros não reconhecem o direito à segurança e conforto dos ciclistas, na medida em que cada ciclovia que é construída ocupa espaço que poderia ser dos carros, quer porque os ciclistas, partindo de um capital de queixa justificado face à sua fragilidade no confronto com os carros (quando chocam a probabilidade do condutor do carro se magoar a sério é mínima, mas a do ciclista ir para o galheiro é real), organizam-se como  minoria militante, moralmente superior porque estão a salvar o mundo (que nunca pediu para ser salvo, mas isso levar-me-ia por um longo desvio ao post) e, frequentemente, deixam de querer reconhecer as razões que levam tanta gente a usar um carro.

Por isso a discussão deveria manter-se na mobilidade das pessoas e bens, é isso que é relevante, reconhecendo-se que quer bicicletas, quer carros, quer transportes públicos, quer deslocação na criação de emprego, são meros instrumentos que deveremos usar em função de cada situação concreta.

É absurdo pensar que as bicicletas vão resolver o problema da mobilidade das cidades (um mês inteiro de bicicletas no Saldanha corresponde a uma hora do Metro, em transporte de pessoas, multiplicar por dez os utilizadores de bicicletas significaria que um mês inteiro corresponderia a um dia do Metro, e nem estou a falar dos outros transportes públicos que passam no Saldanha. E não estou a ter em atenção que talvez um quarto a um terço do movimento de bicicletas seja das empresas de entregas), mas não é razoável pensar que não só são irrelevantes, como que os ciclistas não têm direito a circular com segurança e conforto, havendo alguma obrigação dos poderes públicos se preocuparem permanentemente com os automobilistas, fazendo-lhes estradas, pontes, viadutos e estacionamentos, mas não terem a mesma preocupação para com os peões, cliclistas, utilizadores de transportes públicos, etc..

Andar de carro é um privilégio, não é um direito, ou melhor, andar de carro em horas de ponta, em zonas de elevado condicionamento da mobilidade por compressão do espaço físico, é um privilégio e um luxo, o direito é de poder circular.

Ora circular sem carro, nessas circunstâncias, é facílimo para a generalidade das pessoas (naturalmente é precisa muita atenção aos grupos sociais que precisam mesmo de se deslocar de carro mas, provavelmente, para essa minoria, o espaço até é suficiente).

A mim parece-me bem claro que apenas perdendo o medo de dizer que circular de carro, em hora de ponta, em zonas muito congestionadas, deve ser um privilégio que deve ser pago bem caro, podemos ter uma alternativa à presente situação de conflito social.

Sem surpresa, faço propostas liberais.

O estacionamento deve ser caro, as entidades públicas devem abandonar a mania de ter os carros à porta do poder para transportar rapidamente qualquer membro da elite dominante.

Sim, estou a dizer que não há nenhuma razão para o primeiro ministro ter de entrar e sair de carro de São Bento, da Câmara ter estacionamento no largo do Município, dos ministros terem carros no Terreiro do Paço, eu sei que facilmente se dirá que é demagogia, eu direi que é pôr-se no lugar do outro, daquele para quem se fazem as regras.

Nada impede o primeiro ministro de apanhar um taxi, um uber, o que quiser, para zonas onde estejam estacionados os carros de que precisa para chegar a Alcaravelas, que não é servida por transportes públicos compatíveis com a agenda que o obrigue a ir a Alcaravelas.

E a circulação de carros em algumas horas e lugares deve ser paga.

Para além disso, pode-se sempre mudar a capital do país da Castelo Branco, os comandos militares para Santa Margarida, os Tribunais Superiores para Coimbra e etc., que sempre ajudaria a descongestionar qualquer coisa as principais cidades.

Podem ser opções difíceis, nalguns casos caras, mas sobre as políticas que pretendem fazer o Rossio caber na Betesga, têm pelo menos a vantagem de serem políticas exequíveis.



23 comentários

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De Anónimo a 24.10.2021 às 11:54

Esta corte pomposa de pedantes pensa sempre em grande quando em causa própria... já para o povinho é a versão...   "poucochinha"! A pé, pedintes!
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De Anónimo a 24.10.2021 às 12:43

Não é preciso perder tempo com essas questões _ menores, quando comparadas com o que aí vem. Isto está para estourar e "eles" sabem disso. Quer provas? Basta ver esta opereta do OE. Ou porque acha que estão a provocar uma crise?! Para fugirem e porem-se  ao fresco ANTES da coisa rebentar.
Sacudir a água do pacote é a fórmula. Já a conhecemos. 



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De pitosga a 25.10.2021 às 13:29


Há mais de 40 anos, na Escandinávia passou-se a mudar o esquema. A cerca de 15-20 km duma cidade criaram-se parques de estacionamento. O cidadão deveria deixar lá o seu carro e apanhar um autocarro (cada 15 min) para o centro da dita. O preço dava para ele usar todos os transportes públicos na cidade durante 24 horas (bem como o regresso, tal como o estacionamento).

Se quisesse ir no seu carro para a cidade, tal não era proibido; mas pagava uma "pipa de massa".
Lisboa tem, nestas condições, o parque do Estádio Nacional para quem vem da 'Linha', o vale de Odivelas/Loures (antes da Calçada de Carriche) para quem vem do Oeste, a enorme área de Sacavém para que vem da A1 (Norte), o vale de Almada para quem vem da A1 (Sul).

Apesar dos estudos nórdicos, ninguém ligou bóia.
Santana Lopes tentou a ideia em Monsanto com autocarros de borla. O parque "estava às moscas".

Agora queixam-se. Só se for da estupidez e ignorância dos políticos.
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De pedro09 a 26.10.2021 às 22:36

depois de ler o post, o comentário que me ocorre é que  nao diz "nada". 

Nao tem ponta por onde se pegue. No fundo nao se compromete assim ou assado.


Essa coisa das bikes, áparte a versao electrica,  foi e é uma narrativa romantizada.
Por outro lado, tambem se pode acrescentar outra utilidade  a essas ciclovias urbanas, como seja impossibilitar o estacionamento selvagem  e que complica a fluidez.  Em sitios alargaram-se os passeios para os peoes, justamente para impedir o estacionamento selvagem, como sejam as segundas filas. 
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De Figueiredo a 30.10.2021 às 12:30

Os velocípedes não precisam que se construam pistas para ciclistas, pois já têm uma faixa destinada para o efeito, chama-se via de trânsito, e é por onde são obrigados a circular cumprindo à risca o Código da Estrada assim como os demais condutores de outros veículos.

De salientar que é urgente obrigar os condutores de velocípedes, a cumprir não só o Código da Estrada, mas também a ter licença de condução para conduzir esse veículo, possuir matrícula e seguro, e ter o velocípede devidamente equipado com espelhos e sinalização luminosa e sonora.
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De Anónimo a 31.10.2021 às 09:10

Certíssimo!!! Não diria melhor.
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De Vagueando a 30.10.2021 às 12:53

Sem querer extremar coisa nenhuma, diria que os cliclistas são também automobilistas e peões. E, neste sentido, a sua posição extremada, varia consoante a situação em que estão. O problema é que quando é peão ou ciclista, como muito bem diz, um choque entre um carro e um peão ou ciclista a probabilidade destes últimos irem para o gelheiro é bem real. Assim o Código da Estrada classificou-os como vulneráveis.Ora a partir daí os vulneráveis, acham que a sua segurança depende exclusivamente de si próprios, quando vestem a pele de automobilistas. Já expliquei isso num post meu em Agosto, aqui em baixo;https://classeaparte.blogs.sapo.pt/uma-questao-de-respeito-29867?tc=85590769368
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De Bento Cruz a 30.10.2021 às 15:37

Penso que tocou no ponto chave no último parágrafo!
O grande problema é a concentração populacional, governamental, industrial e de serviços no litoral em 3 ou 4 zonas( Lisboa, Coimbra, Porto, e Litoral Algarvio).
O problema só terá solução quando se combater com vontade e bons resultados o despovoamento  do interior.
Aí, sim! Poderá haver condições para, em todo o lado se poder andar de bicicleta! Até lá é só chicana política!
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De Anónimo a 30.10.2021 às 19:54

JA É PAGA COM OS IMPOSTOS DOS AUTOMOBILISTAS E DE TODOS
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De Anónimo a 30.10.2021 às 20:01

EU MORO NOS ARREDORES INFELIZMENTE TENHO TIDO A NECESSIDADE DE IR A LISBOA COM FAMILIARES ENFERMOS E DEBILITADOS ALEM  E ALEM DE PAGAR E BEM O ESTACIONAMENTO TENHO DE ANDAR FORA E DENTRO DO HOSPITAL PARA COLOCAR MOEDAS POIS O MAXIMO PERMITIDO SÃO DUAS HORAS ACHAM ISTO JUSTO OU NORMAL ?? 
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De Anónimo a 31.10.2021 às 10:31


Sim !
A melhor ideia é mesmo a de descentralizar os serviços e fazer como outros países que têm capitais económicas (bancos seguradoras etc.) capitais judiciais (tribunais, registos, etc. ) capitais políticas (parlamento partidos sindicatos etc.)  Isso permitia combater o despovoamento do interior e deixar para os turistas Lisboa.
Como capital política eu acho que devia ser Manteigas, para dar aos políticos a real noção das dificuldades e custos de transporte e acessos a tudo , da maior parte da população.
Quem não conhece manteigas, é só ir ao google maps e olhar para a estrada até lá e fica logo a perceber.  
 

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