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Charles de Gaulle foi um gigante no século XX. Podia conjugar as várias interpretações ideológicas que marcaram a França contemporânea: legitimista e orleanista, bonapartista e jacobino, no fundo tinha consciência do horizonte da história, demasiado lato para se reduzir a rótulos. Admirava os reis que tinham feito a França em mil anos (conforme lembrava o slogan da Action Française, cujo jornal leu na juventude), mas não excluía uma república robusta. Era o populismo legitimador e a democracia canalizada para plebiscitar a sua própria autoridade. No modelo e na consciência política talvez mais próximo a Napoleão III do que do expansionista Napoleão I, mas sobretudo herdeiro da razão de Estado de Richelieu. Era um regente na República, sem a possibilidade de se fazer Imperador.
Talvez idealizando uma espécie de redentor, os monárquicos colocaram ao general a alcunha de "o fazedor de reis", tal era a expectativa da restauração. Contudo, de Gaulle nao se terá impressionado com o conde de Paris, tal como Salazar nunca confiou em D.Duarte Nuno. A V República seria uma outra forma de monarquia, sem dúvida um sistema híbrido, semipresidencial, mas onde o carisma do Presidente de Gaulle o elevaria a soberano da República. Afinal, como lembrou outro Presidente, Valéry Giscard d'Estaing: os presidentes estão na linha dos reis. Às divergências esquerda e direita revelou-se um político prático, guiado pelas premissas da realpolitik. E às dicotomias e paradoxos que enformam as ideologias soube procurar o que melhor favorecesse a França.
De Gaulle emprestou o seu nome a uma era e a designação "Gaullismo" entrou no vocabulário político. Pesem os erros, as condenações após a libertação (Brasilach condenado à morte sem processo) e ter reduzido a França ao hexágono, independentemente de tudo, o general sabia qual o lugar da nação francesa entre as potências e qual a posição da Europa no cenário internacional, quando no pós guerra já grande parte do ocidente se tornara colonizado pelo americanismo.
De resto, foi amigo de Portugal, alguns encontrando similitudes com o salazarismo. Em suma, o salazarismo seria um gaulismo em ditadura, enquanto o gaulismo seria um salazarismo aplicado a instituições democráticas. Ao General Franco faz uma visita, contrariando os conselhos dos mais próximos, como Malraux. O cesarismo não deixava de o seduzir como modelo, mas contrariando a vocação de outros à ditadura e não procurando eternizar-se no poder, jamais colocou em causa o sistema representativo, embora auspiciasse uma autoridade consciente e forte. Foi um erudito, que escreveu primorosamente, um militar e guerreiro, assim lembrando a gesta dos velhos senadores da República Romana. Hoje seria impossível encontrar um modelo igual e longe estaremos de voltar a encontrar.
"Toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France. Le sentiment me l'inspire aussi bien que la raison. Ce qu'il y a, en moi, d'affectif imagine naturellement la France, telle la princesse des contes ou la madone aux fresques des murs, comme vouée à une destinée éminente et exceptionnelle."
Charles de GAULLE (1890-1970), Mémoires de guerre, tome I, L’Appel, 1940-1942 (1954)
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