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Charles De Gaulle, o grande General

por Daniel Santos Sousa, em 09.11.25

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Charles de Gaulle foi um gigante no século XX. Podia conjugar as várias interpretações ideológicas que marcaram a França contemporânea: legitimista e orleanista, bonapartista e jacobino, no fundo tinha consciência do horizonte da história, demasiado lato para se reduzir a rótulos. Admirava os reis que tinham feito a França em mil anos (conforme lembrava o slogan da Action Française, cujo jornal leu na juventude), mas não excluía uma república robusta. Era o populismo legitimador e a democracia canalizada para plebiscitar a sua própria autoridade. No modelo e na consciência política talvez mais próximo a Napoleão III do que do expansionista Napoleão I, mas sobretudo herdeiro da razão de Estado de Richelieu. Era um regente na República, sem a possibilidade de se fazer Imperador.

Talvez idealizando uma espécie de redentor, os monárquicos colocaram ao general a alcunha de "o fazedor de reis", tal era a expectativa da restauração. Contudo, de Gaulle nao se terá impressionado com o conde de Paris, tal como Salazar nunca confiou em D.Duarte Nuno. A V República seria uma outra forma de monarquia, sem dúvida um sistema híbrido, semipresidencial, mas onde o carisma do Presidente de Gaulle o elevaria a soberano da República. Afinal, como lembrou outro Presidente, Valéry Giscard d'Estaing:  os presidentes estão na linha dos reis. Às divergências esquerda e direita revelou-se um político prático, guiado pelas premissas da realpolitik. E às dicotomias e paradoxos que enformam as ideologias soube procurar o que melhor favorecesse a França.

De Gaulle emprestou o seu nome a uma era e a designação "Gaullismo" entrou no vocabulário político. Pesem os erros, as condenações após a libertação (Brasilach condenado à morte sem processo) e ter reduzido a França ao hexágono, independentemente de tudo, o general sabia qual o lugar da nação francesa entre as potências e qual a posição da Europa no cenário internacional, quando no pós guerra já grande parte do ocidente se tornara colonizado pelo americanismo.

De resto, foi amigo de Portugal, alguns encontrando similitudes com o salazarismo. Em suma, o salazarismo seria um gaulismo em ditadura, enquanto o gaulismo seria um salazarismo aplicado a instituições democráticas. Ao General Franco faz uma visita, contrariando os conselhos dos mais próximos, como Malraux. O cesarismo não deixava de o seduzir como modelo, mas contrariando a vocação de outros à ditadura e não procurando eternizar-se no poder, jamais colocou em causa o sistema representativo, embora auspiciasse uma autoridade consciente e forte. Foi um erudito, que escreveu primorosamente, um militar e guerreiro, assim lembrando a gesta dos velhos senadores da República Romana. Hoje seria impossível encontrar um modelo igual e longe estaremos de voltar a encontrar.

"Toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France. Le sentiment me l'inspire aussi bien que la raison. Ce qu'il y a, en moi, d'affectif imagine naturellement la France, telle la princesse des contes ou la madone aux fresques des murs, comme vouée à une destinée éminente et exceptionnelle."

Charles de GAULLE (1890-1970), Mémoires de guerre, tome I, L’Appel, 1940-1942 (1954)


12 comentários

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De balio a 09.11.2025 às 10:34


os erros, [...] ter reduzido a França ao hexágono


Queria que ele não tivesse concedido a independência à Argélia?
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De passante a 10.11.2025 às 00:25

A Europa foi comida de cebolada pelos EUA, com o trabalho pesado a ser feito pelos comunistas e outros seguidores do profeta Marx, à pala de libertação nacional. A crise do Suez de 1956 foi o abre-pestana.


Quando o pó assentou, o desenvolvimento do bloco Euro-africano que os romanos tinham iniciado, estava definitivamente dinamitado. E os povos africanos ficaram entregues a sobas corruptos, e as suas economias por conta de grandes empresas extractoras.


(Mais ou menos o que os neocons queriam repetir na Rússia, mas essa correu mal.)
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De Anónimo a 10.11.2025 às 18:03


o que os neocons queriam repetir na Rússia, mas essa correu mal


Não correu mal de todo: conseguiram destruir o bloco euro-russo.


Não conseguiram partir a Rússia em pedacinhos, cada um entregue ao seu soba (ou boiardo, na linguagem russa), mas isso, enfim, já era pedir de mais.


Mas a temporária vitória dos neocons pode, como é costume com as vitórias dos EUA, virar-se mais tarde contra eles: o bloco euro-russo pode vir a ser substituído pelo bloco russo-chinês, talvez ainda mais temível.
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De passante a 12.11.2025 às 22:57

> Não correu mal de todo: conseguiram destruir o bloco euro-russo.


Totalmente de acordo, nisto e no resto. A parte trágica é que são dois lados  da moeda eslava que estão a pagar a conta, e ambos demográficamente falidos  ...
(olha quem fala, estamos na mesma)
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De lucklucky a 11.11.2025 às 07:13


"Quando o pó assentou, o desenvolvimento do bloco Euro-africano que os romanos tinham iniciado, estava definitivamente dinamitado. "


!?.  Argélia e Marrocos só foram ocupados no Século XIX devido á pirataria*, daí vinda. Nao há continuidade alguma com os Romanos. O Norte de África foi tomado pelo Islão até o seculo XIX e XX( Líbia só foi colonia Italiana após a guerra Italo Turca já na segunda década do Século XX).


Curiosamente o Corpo de Marines dos EUA começou também aí.  Está no hino: " on the shores of Tripoli..." 


https://en.wikipedia.org/wiki/American%E2%80%93Algerian_War
https://en.wikipedia.org/wiki/First_Barbary_War


"Portugal's conflict with Algiers briefly safeguarded U.S. merchant ships in the Atlantic. However in 1793, a Portuguese-Algerian truce left American ships vulnerable.[2] The Algerian Xebecs would be free to roam the Atlantic and 11 American ships were captured, while 100 American sailors were enslaved."


Historia que esquerda e os jornalistas, -perdão pela redundância- não querem que se saiba.
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De passante a 12.11.2025 às 22:50

 Nao há continuidade alguma com os Romanos. O Norte de África foi tomado pelo Islão


Claro que há, o conceito do Mediterrâneo como factor de união* de um império data dos romanos e dos cartagineses. E tal como as guerras púnicas, as guerras cristandade-islão podem ser vistas como guerras civis pelo controlo do império.


Se o Islão tivesse tomado a Europa ocidental, teria preenchido o destino do império euro-africano tão bem ou melhor que a cristandade.


[* Em Bari há um mural de um artista chamado Maupal, mostrando S. Nicolau, padroeiro da cidade, como uma ponte sobre o Adrático unindo Leste e Oeste. Mares como o Mar Negro e o Báltico foram factores de enriquecimento das suas costas. Nós é que estamos à beira de um oceano muito mais dificil, mas que também nos foi pródigo.]
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De cela.e.sela a 09.11.2025 às 10:58

René Coty entregou-lhe a presidência e reformou-se sem abrir o bico.
Simone de Beauvoir foi incapaz de escrever contra a tomada do poder por De Gaule.
saiu pela porta Grande depois de ter deixado a França com novas indústrias.
durante a vingança externa chamada Maio de 68 exclamou «je suis un vieux connard».
os nobres escrevem o nome com de: um colega pergunto-me se era nobre.
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De Anónimo a 09.11.2025 às 11:58

Churchill, De Gaulle, Estaline e Roosevelt; os Gigantes 
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De vasco Silveira a 09.11.2025 às 16:55

Faro Senhor
foi de facto um notável estadista, mas como militar ... , foi preso em circunstâncias mal esclarecidas, pelos alemães na Grande guerra, e tal como a frança no seu conjunto, não teve nem um mês de guerra na segunda, depois do qual nasceu como uma representação unificadora do país derrotado nos próximos 5 anos, sem governo nem independência.
Foi a ele que se deveu o renascer de uma frança à Leon Blum, com objectivo e orgulhos de estados que respeitam o seu passado.
Mas na nova confusão de 68, voltou a pedir ajudas de tropas estrangeiras para proteger o estado de direito que se encontrava em risco, bem como foi nessa fraqueza forçado a libertar os seus antigos adversários na Argélia, como Salan e mais uma dezena de outros. Foi um grande estadista francês, sobretudo para a geração da guerra ,ou do seu após (Segunda), mas não foi como general que se distinguiu ( apenas para designação pessoal). Churchill teve muito trabalho para lhe conseguir lugar de destaque entre os aliados ( não tinha exército, apesar dos muitos franceses que batalhavam), e roosevelt não podia com "aquele homem emproado".


Cumprimentos
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De Anónimo a 09.11.2025 às 17:03


Carlos visitou Franco e Marcelo visitou Fidel.


Não fosse a monarquia inglesa mailo capitalismo americano e Carlos seria um desconhecido. Pelo caminhar o façanhudo Carlos marcha para a irrelevância - Londres e a América estão a cair. Em Poitiers os carolíngios não rezam, nem MarteLam.


Faz falta um Asterix. Faz falta, por muito que custe, um Napoleão.
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De Anónimo a 10.11.2025 às 19:02

Pois. 


O Macron estica-se o mais que pode, mas soa a caricatura.


Oxalá não lhe dê para invadir a Rússia
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De Francisco Almeida a 10.11.2025 às 10:00

Justíssima homenagem a De Gaulle, sobretudo agora que, excluindo Meloni e a difusa esperança em Merz, a Europa não tem líderes dignos desse nome.
Nunca compreendi porque raramente é explicado o contexto da redução de França ao hexágono. De Gaulle, quando ascendeu ao poder, percebeu que tinha dinheiro e meios para prosseguir a guerra na Argélia ou para criar um programa nuclear mas não para as duas coisas. Escolheu no que julgou ser o melhor para que França tivesse um papel de relevo no futuro do mundo.
Deve ter sido muito difícil. Teve de reprimir a revolta de Argel e prender oficiais que o tinham activamente ajudado(*). Não o percebi na altura, muito influenciado que estava pelos livros de Lartéguy, mas hoje tenho de reconhecer que tinha razão. A França vende electricidade de produção nuclear à Alemanha e o porta-aviões nuclear justamente chamado Charles de Gaulle, com os actuais caças-bombardeiros Raffale são o que permite ao "petit Napoléon" mascarar externamente a calamidade interna.
(*) - Essa ferida, só seria fechada em Maio de 1968 quando De Gaulle se meteu num helicóptero e foi à Alemanha, perguntar se tinha o apoio do Regimento de Paraquedistas da Legião Estrangeira. Negociou com o general Massu o perdão total para os implicados na revolta de Argel e os paraquedistas limparam as ruas de Paris acabando com o Maio de 68. O mesmo regimento que, anos antes, tuinha acabado com a greve geral na cidade de Argel.

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