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Chafariz D’El-Rei

por Corta-fitas, em 17.05.21

ChafarizElRei1.jpg

Um dos mais antigos chafarizes de Lisboa, senão o mais antigo, está hoje seco. É-lhe atribuída uma origem anterior à nacionalidade e uma existência que se confunde com esta. A história e a vida que se estruturaram em seu redor ainda são perceptíveis graças às muitas representações que o retratam ao longo dos séculos. Uma delas foi mesmo objecto de polémica há relativamente pouco tempo. Uma placa ali colocada testemunha que foi “EDIFICADO NO SECULO XIII FOI REFORMADO PELO REI D. DINIS RECONSTRUIDO NO ANO DE 1747 REPARADO DEPOIS DE 1755 E MELHORADO NOS MEADOS DO SECULO XIX.”

Apesar das melhorias e de as todas alterações sofridas, o chafariz D’El-Rei já não dessedenta ninguém. Nada corre das suas bicas. Onde se esperava fluidez e frescura encontra-se, afinal, secura e aridez. Em vez de fonte de vida, é um cenário. Passado sem presente nem futuro. Uma peça de museu com uma única função: recordar o que foi e o que ainda poderia ser. Porque a água continua a correr no seu interior.

Mais do que uma memória de um outro tempo, o chafariz D’El-Rei encerra toda a potencialidade da sua regeneração. Havendo vontade para isso, a estrutura bloqueada pode conhecer a revivificação e reencontrar o caminho de serviço que lhe dá sentido.

A fonte seca, privada da água que lhe conferia um destino e da coroa sobre as armas portuguesas que sublinhava a sua identidade, é visitada por muitos que ali param e que tentam decifrar a sua função. Não é fácil compreendê-la sem que ninguém dali beba.

O seu nome mantém-se porque o escopro da destruição demora mais a erodir as palavras que as pedras. Por muito que o sequem e que o destruam, o chafariz é do Rei. Cento e dez anos passados da imposição da república, aquela ainda é a sua fonte.

O chafariz D’El-Rei espelha o nosso estado colectivo. Como diria Salgueiro Maia, o Estado a que chegámos. Em vez de comunidade viva, alimentada pela ligação constante e natural com uma chefia do Estado que o corporiza, somos uma memória mal cuidada entregue a zeladores de turno e às respectivas personalidades e inclinações.

Os verbos “ser” e “estar” não são sinónimos neste caso: o Rei é e um Presidente da República está. E nunca está o tempo suficiente para ser, nem é o bastante para efectivamente estar. As sucessivas passagens presidenciais e a sobrepartidarização da figura que, sendo política, deveria permanecer acima dos políticos, priva-nos da continuidade que facilitaria todas as mudanças. Entorpece e seca os relacionamentos, ajuda a cavar antagonismos e amplifica as incompreensões mútuas.

Mais do que fons honorum, a monarquia é fons vitae. Sem um chafariz que a todos congregue, restam-nos poços particulares mais ou menos exclusivos, mais ou menos excludentes. A atomização social que hoje experimentamos, agravada pela pandemia, recomenda a revisitação da história e dos espaços comuns, a recuperação da política no que ela tem de mais nobre e a revitalização da ligação entre gerações. Uma chefia do Estado suficientemente estável para o permitir e suficientemente enraizada para não precisar de se justificar saciaria a nossa sede de legitimidade e de futuro.

João Vacas

publicado originalmente no  Correio Real nº 22



10 comentários

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De balio a 17.05.2021 às 17:47


o Rei é e um Presidente da República está. E nunca está o tempo suficiente para ser


Tendo em conta os Presidentes da República que Portugal tem tido (e atualmente tem), e os Reis que teve, eu prefiro mil vezes um chefe de Estado que esteja, por um tempo limitado, do que um que seja, até à morte.


Muitos Presidentes da República têm sido tão maus, e muitos Reis foram tão maus, que a maior esperança que podemos ter para um chefe de Estado é que ele em breve deixe de o ser.


Essa é, em particular, a minha esperança em relação a Marcelo Rebelo de Sousa.
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De Anónimo a 18.05.2021 às 11:12

E por ex., em relação aos Papas, em sua opinião como deveria ser exercido o seu pontificado? Também deve poder ser "removido" quando não for do agrado dos que decidirem que "em breve deixe de o ser"?

Tinha curiosidade em saber, também" como encara a Constituição, o Hino e a Bandeira do país? Devem ser considerados símbolos da nossa "Identidade", "coesão" e reflexo das características próprias enquanto nação e portanto, manterem-se estáveis e duradouros assegurando Continuidade? Ou devem sujeitar-se a limitações (no tempo), mudando-os periodicamente (como se mudam "presidentes"!) de acordo com o "contexto", as tendências, gostos e as  preferências arbitrárias do momento? 


E quanto à nossa Coesão territorial com as Fronteiras estáveis há 900 anos, à Soberania e à Independência do país, são coisas "sagradas" e inquestionáveis que se devem preservar? Ou podem ser desrespeitadas e "suspender-se" conforme as circunstâncias, podendo até "deixar de o ser"?


Não sei bem abordar a questão, mas talvez seja conseguir  VER PARA ALÉM "desta nossa época pontual e fugaz" em que todos nos encontramos de passagem. Há que ter a noção de que este "tempo" transitório que vivemos, está contido  num "TEMPO"  maior, acima de nós, contínuo, onde se  inscreve a ideia de Pátria, o que  foi /é / será  "perpétuo" ou "transitório" nela.  A distinção a ser feita é entre o SER e o ESTAR do nosso "adn". 


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De Anónimo a 19.05.2021 às 11:36

900 anos de História.
A República foi implantada há pouco mais de um 1 século.
O resto do tempo, quase 8 séculos, viveu-se em Monarquia. 



 Contudo, circunstâncias várias fizeram de nós um povo «quase» sem memória desse Tempo anterior e mais distante. Como se tivesse sido quebrada e suspensa a linha "recta" ininterrupta do tempo histórico. E assim, deliberadamente, criou-se uma falsa percepção de descontinuidade e de ruptura com o passado.
 Como se apenas existisse o tempo Presente e o que a nossa memória "consegue" abarcar.  


 E tal como hoje, a opção da narrativa da História é sempre "selectiva" e a menos "incómoda" segundo a perspectiva dos «senhores» do Presente. Ora glorificando, ora vilipendiando, outras vezes calcando os tempos "inconvenientes", gradualmente rasurados até que deles se apaguem os vestígios da nossa memória.  A versão "oficial" da História é sempre a dos que "estão".


Relativamente ao "Ser" (tempo contínuo, longevo)  e ao  "Estar" (tempo circunstancial, contingente) da Pátria é só fazer as contas.
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De Anónimo a 18.05.2021 às 00:10


Tudo bem desde que a sucessão não caia num Harry...
Quanto à bica tem razão, é uma peça maravilhosa que merecia outro destino.
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De Anónimo a 18.05.2021 às 13:23

Assim vai o "regime". 
Eis o retrato da 3ª República:


"Somos o único país europeu “gerido” por uma classe sui generis, única no mundo ocidental. O nosso Governo e os cargos de liderança técnica da administração e empresas públicas são ocupados por indivíduos vindos da política, principalmente da Juventude Socialista, sem qualquer experiência profissional nos privados, onde seria preciso apresentar resultados e aproveitar oportunidades. Tais “jotas” não têm capacidades nem técnicas, nem de gestão, se não para trocarem votos internos como forma de vida e autopromoverem-se comentando-se a si próprios nas TVs e nos jornais intimidados ou subornados com dinheiro do Etado. Políticos que são notícia e, simultaneamente, a comentarem eles próprios a notícia, é caso caricato e único na Europa.  Só assim é possível disfarçar que o pensamento “estratégico” destes “dirigentes” vindos da Juventude Socialista consiste em não pensarem em nada, mas imitarem e dizerem sim a tudo o que políticos seniores, igualmente mentirosos e incompetentes, como Sócrates, Vara, Costa ou Cabrita lhes ensinam. É o modelo de gestão “Jota”. " - Pedro Caetano, in Observador


Haverá futuro para nós?!


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De Anónimo a 18.05.2021 às 13:34

Portugal, iniciou a sua auto destruição em 1/2/1908; acelerou nessa vertigem até 28/5/1928; estancou-a e viveu num patamar onde muito recuperou de então até 25/4/1974.
Depois desta última data entrou definitiva e inexoravelmente veloz na rampa descendente até à aniquilação total que está para breve.
Fica para trás um PAÍS para, no futuro, ser apenas um SÍTIO.
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De Anónimo a 19.05.2021 às 08:57

Bem dito! Subscrevo.
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De Anónimo a 19.05.2021 às 12:48








Está no Blogue "O Novo Adamastor"Image
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De Anónimo a 20.05.2021 às 11:05

Sr.(a) comentador(a), de facto, noutros tempos dir-se-ia que andam a brincar com o fogo.
Mas hoje creio que já não. Essas imagens são bem reveladoras da  consolidação do excessivo laxismo (da Igreja) e da muita laicidade (do Estado). 
Por outras palavras, a perda de vigor e de influência de um  vs a energia  pujante do outro. 
Já praticamente em desuso, ninguém sente o apelo ou Dever, da procura da virtude, dos bens ou valores do "espírito".  A felicidade reduziu-se apenas à conquista dos Direitos que consistem na busca incessante de benefícios práticos, no lucro (de som metálico) e na obtenção de segurança e bem-estar "materiais", bens  mais tangíveis. Uma vida estéril, de olhar estreito e  horizontal, "sem um erguer de asa". 
São duas visões do mundo e duas formas de estar na vida. As imagens ilustram qual é o propósito duns e doutros, e quem escolhe a porta estreita ou a porta larga por onde entram as multidões.



Com efeito, é o regime dos jacobinos. Alcançaram o modelo de sociedade por eles imaginada, desejada e há muito forjada. 
Ei-la!  É uma sociedade feliz assim, sem espírito, utilitária, desenraizada, reduzida a matéria e donde foi banida qualquer conexão com o transcendente. 
Como nestes vv do Pessoa: "Triste de quem é feliz! / Vive porque a vida dura / Nada na alma lhe diz".
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De xico a 20.05.2021 às 00:05


Não se preocupe com os monumentos que vão morrendo, porque a fachada poente do palácio da Ajuda vai ser acabada. Num país de trolhas o que interessa é a construção civil.

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